Meio Ambiente

Aves Marinhas Que Comem Plástico – e Sobrevivem – Têm Graves Problemas de Saúde

Um dos únicos estudos que analisa os efeitos da ingestão de plástico na saúde de aves marinhas revela que alguns dos pedaços provocam muitos estragos.Wednesday, August 14, 2019

Por Stephen Leahy
Albatrozes e pardelas comem sardinhas atiradas de uma embarcação.

Um novo estudo descobriu que as aves marinhas que ingerem plástico têm graves problemas de saúde. A maioria das investigações sobre os impactos do plástico na vida marinha têm-se focado na mortalidade; este estudo é um dos primeiros a observar os efeitos não letais do plástico em criaturas vivas.

As jovens aves observadas neste estudo tinham funções renais debilitadas e níveis de colesterol elevados, para além de uma massa corporal, comprimento de asas, cabeça e bicos mais reduzidos.

“Uma ave marinha pode parecer saudável, mas não nos consegue dizer se está com problemas de saúde ou em sofrimento”, diz Jennifer Lavers, do Instituto de Estudos Marinhos e Antárticos da Universidade da Tasmânia e Austrália. Jennifer Lavers é a autora principal de um estudo publicado na Environmental Science & Technology que observa os impactos não letais da ingestão de plástico.

“Decidimos tratar as aves como se fossem humanos e fazer testes sanguíneos para descobrir como estavam de saúde”, disse Jennifer em entrevista.

As aves marinhas, no geral, não estão bem de saúde. O declínio destas aves é mais acentuado do que nos outros grupos de aves e acredita-se que o plástico pode ser uma das razões.

“Na avaliação da saúde dos oceanos, as aves marinhas são como os canários nas minas de carvão. Temos de estar mais atentos.”

Durante anos, Jennifer e os seus colegas estudaram os impactos do plástico na saúde das pardelas-de-patas-rosadas (Ardenna carneipes) na maior colónia de reprodução destas aves, localizada na remota Ilha Lord Howe que fica a 600 km da costa leste da Austrália. A pardela-de-patas-rosadas é uma ave marinha de tamanho médio que tem o nome das suas pálidas patas rosadas. Estas aves reproduzem-se no sul da Austrália e no norte da Nova Zelândia. Nos últimos anos, a sua população teve um declínio de 29%.

Tal como acontece com a maioria das aves marinhas, as pardelas só vêm a terra para se reproduzir e para cuidar das crias. Durante a noite, os adultos saem para apanhar peixes e lulas, regressando depois aos seus abrigos para alimentar as proles. Mas, como os oceanos estão cada vez mais contaminados com detritos plásticos – com 8 a 9 milhões de toneladas a serem adicionadas todos os anos – os adultos alimentam incorretamente as suas crias com tampas de garrafas e com outros fragmentos de plástico. Também se sabe que, em alguns anos, 90% das crias de pardela tinham pelo menos um pedaço de plástico no estômago.

Refeições tóxicas
De acordo com o estudo, o plástico é intrinsecamente tóxico e vai ficando cada vez mais nocivo com o passar do tempo, uma vez que acumula poluentes do ambiente marinho circundante. Depois de ingerido por um animal, as toxinas absorvidas penetram na sua corrente sanguínea, diz Jennifer. Embora uma ave não consiga sobreviver com 200 pedaços de plástico dentro si, os investigadores interrogavam-se sobre os impactos da ingestão de apenas alguns pedaços.

“Nem todas as aves marinhas têm os estômagos cheios de plástico; geralmente têm 4 ou 5 pedaços”, diz Jennifer.

Os investigadores usaram uma técnica segura e não invasiva para esvaziar os estômagos das crias, para avaliar o seu conteúdo. A equipa também recolheu amostras de sangue que foram levadas para um laboratório, para efetuar testes sanguíneos e contar os glóbulos brancos e vermelhos, medir o cálcio, o colesterol, os níveis de ácido úrico e outros indicadores gerais de saúde.

Necropsia de uma pardela-de-patas-rosadas, incluindo plástico ingerido e recuperado do estômago da ave.

As crias com plástico no estômago tinham uma massa corporal mais reduzida e o comprimento das suas asas, cabeça e bicos eram mais pequenos. Basta um pedaço de plástico para fazer subir os níveis de colesterol, disse o coautor do estudo, Alex Bond, curador de aves no Museu de História Natural de Londres.

Os níveis altos de colesterol são prejudiciais para os humanos e provocam problemas circulatórios, mas ninguém sabe o que isso significa para as pardelas, disse Bond em comunicado à imprensa. Os testes também revelaram que as aves com plástico tinham menos cálcio dissolvido e mais ácido úrico, um fator que nos humanos está associado a funções renais debilitadas.

“Isto pode ter consequências significativas para uma ave que, quando abandona a ilha, precisa de voar até ao Mar do Japão”, diz Bond.

De acordo com a última contagem, existem 2249 espécies marinhas onde o plástico tem um impacto direto, principalmente através de ingestão. Em 1995, eram apenas 263 espécies.

“Os dados são alarmantes. Não é descabido pensar que o que está a acontecer com a vida selvagem também pode estar a acontecer connosco”, disse Jennifer.

Matt Savoca, investigador no Laboratório Marinho Hopkins, da Universidade de Stanford, estuda as razões pelas quais as aves marinhas comem plástico. "Este é um estudo bem controlado porque compara as aves na natureza sob as mesmas condições. A única diferença é a de que algumas aves ingeriram plásticos e outras não", diz Savoca.

O público só ouve falar de aves que sufocam com pedaços de plástico ou que morrem com os estômagos cheios de plástico, disse Savoca, mas na realidade a maioria das aves só come alguns pedaços. Isso não significa que não sejam afetadas, algo que ficou demonstrado por este estudo.

“Creio que ninguém fazia ideia de que o plástico podia fazer subir os níveis de colesterol nas aves marinhas”, disse o investigador.

Portanto, porque é que as aves marinhas comem plástico? Savoca diz que, com base na sua investigação, as aves marinhas comem plástico porque cheira bem, sobretudo para as pardelas.

“As aves marinhas são espetaculares”, diz o investigador.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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