Meio Ambiente

Banana Cada Vez Mais Perto de Desaparecer

O governo colombiano confirma que um fungo que devasta plantações de bananas chegou agora à América Latina.quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Por Myles Karp
Bananas numa plantação em Guadalupe, no dia 10 de abril de 2018. Esta banana amarela, que é quase exclusivamente vendida nos Estados Unidos, tem o seu futuro ameaçado por um fungo mortífero.

Apesar dos vários anos de esforços preventivos, o fungo que provocou estragos nas plantações de banana no Hemisfério Oriental chegou às Américas.

No dia 8 de agosto, o Instituto Colombiano Agropecuário (ICA) confirmou que os testes laboratoriais identificaram positivamente a presença da doença do Panamá, provocada pela vertente Tropical Race 4, em plantações de banana na região costeira das Caraíbas. O comunicado foi acompanhado por uma declaração de estado de emergência nacional.

A descoberta deste fungo representa um potencial desastre iminente para a banana, não só enquanto fonte de alimento, mas também enquanto item de exportação. A doença Tropical Race 4 do Panamá– ou TR4 – infeta plantações de banana com um fungo do género Fusarium. Embora as bananas produzidas em solo infetado não sejam prejudiciais para a saúde humana, as plantas infetadas param eventualmente de dar fruto.

Disseminação veloz
Identificado pela primeira vez no início da década de 1990, em amostras de solo de Taiwan, o fungo destruidor permaneceu durante muito tempo confinado ao Sudeste Asiático e à Austrália, até que, em 2013, a sua presença foi confirmada no Médio Oriente e em África. Os especialistas temiam a sua eventual aparição na América Latina, o epicentro da indústria global de exportação de banana.

"Quando nos apercebemos da sua presença, já é tarde demais, e provavelmente já se propagou extensivamente para fora dessa zona", diz Gert Kema, professor de fitopatologia tropical na Universidade de Wageningen, na Holanda, cujo laboratório analisou amostras de solo para confirmar a presença de TR4 na Colômbia, e em surtos anteriores.

Não existem medidas de controlo biológico ou fungicidas conhecidos que tenham provado a sua eficácia contra o TR4. “Tanto quanto sei, o ICA e as plantações estão a fazer um bom trabalho na contenção, mas a erradicação do fungo é quase impossível”, diz Fernando García-Bastidas, fitopatologista colombiano que coordenou os testes.

A agricultura da banana é culpada, em parte, pela potencial disseminação do fungo. As plantações comerciais cultivam quase exclusivamente uma variedade clonal de banana chamada Cavendish; a semelhança genética entre estas plantas significa que são igualmente suscetíveis a doenças. A prática de plantação de culturas com uma diversidade genética limitada – tecnicamente chamada de monocultura – é mais eficaz e barata para a agricultura comercial, mas deixa os sistemas alimentares perigosamente vulneráveis a epidemias.

Os consumidores de países importadores, como os Estados Unidos, podem ficar desanimados com a subida dos preços e com as quantidades de banana cada vez mais escassas – para as suas torradas e smoothies – mas conseguem sobreviver. Mas para milhões de pessoas na América Latina, nas Caraíbas, em África e na Ásia, a banana é uma fonte de nutrição fundamental.

Para além das bananas Cavendish, que dominam as prateleiras dos supermercados nos EUA, os habitantes das nações produtoras de banana também contam localmente com uma variedade enorme de plantações, incluindo bananas-da-terra. Mas a doença TR4 do Panamá tem uma gama de hospedeiros notoriamente ampla, o que significa que quase todas essas variedades podem estar ameaçadas.

Para além da comida
A América Latina depende da banana não só enquanto fonte de alimento, mas também enquanto recurso económico primário. A região tem 4 dos 5 principais produtores de banana do mercado de exportação, e os 10 maiores exportadores de banana para os Estados Unidos. O Equador, que faz fronteira com a Colômbia, é o maior exportador do mundo. A proliferação de TR4 na América do Sul e Central pode ter repercussões económicas com um alcance muito generalizado.

Esta situação não é completamente inédita. Na primeira metade do século XX, uma vertente mais antiga da doença do Panamá – agora conhecida como Race 1 – quase que erradicou a oferta global da banana Gros Michel, que na altura era o único tipo de banana exportado para os Estados Unidos e para a Europa.

Desesperados, os antecessores da Chiquita e da Dole mudaram a sua produção para uma banana que sabiam ser resistente à doença do Panamá, apesar do seu sabor ser relativamente insípido: as agora omnipresentes Cavendish. Mas a vertente TR4, a vertente mais recente da doença do Panamá, não poupa as Cavendish.

Ao contrário da epidemia anterior da doença do Panamá, desta vez não existem bananas de substituição prontas para salvar a indústria. Apesar de em todo o mundo  existirem milhares de variedades de banana, apenas algumas têm as características necessárias para suportar os rigores do cultivo comercial em grande escala, os transportes de longa distância e a distribuição internacional. Uma banana com essas características, com uma aparência e sabor semelhantes aos da Cavendish, e resistentes ao TR4, não existe.

Sem alternativas
Como as bananas se reproduzem assexuadamente, a criação de novas variedades é uma tarefa incrivelmente difícil e morosa. Os cientistas da Fundação Hondurenha de Investigação Agrícola (FHIA) desenvolveram bananas que toleram o TR4 e outras doenças, mas podem não ser conhecidas o suficiente para atrair os consumidores e agricultores. Durante a década de 1990, um projeto de desenvolvimento do FHIA levou pequenas quantidades de bananas Goldfinger e Mona Lisa para o mercado canadiano, mas os consumidores não gostaram.

Outros cientistas – sobretudo James Dale, da Universidade de Tecnologia de Queensland, na Austrália – estão a testar bananas Cavendish geneticamente modificadas e resistentes a doenças, mas a aceitação pública de organismos geneticamente modificados pode tornar-se num obstáculo à sua adoção generalizada. Variedades criadas na Ásia, através de um método chamado variação somaclonal, são parcialmente resistentes ao fungo, mas não possuem as qualidades agrícolas ideais.

Independentemente do método utilizado, criar apenas um substituto viável não é uma solução a longo prazo. “Precisamos de implantar uma biodiversidade rica e gerar um conjunto de novas variedades de banana, não apenas uma”, diz Kema. “A monocultura é, por definição, insustentável.”

Os consumidores e os acionistas da indústria podem adorar a banana Cavendish, mas a adesão firme ao ideal Cavendish pode trazer demasiadas restrições.

"Eu não estou a dizer que temos uma variedade de Cavendish de reserva para substituir as atuais, mas existem outras variedades, com outras formas, cores e características, que sobrevivem à vertente TR4", diz Rony Swennen, professor na Universidade de Leuven. Swennen gere a Coleção Internacional Musa Germplasm, uma coleção com mais de 1.500 variedades de banana. "A questão é: será que a indústria quer algo assim, e será que os consumidores estão prontos para mudar para outros sabores?"

Com a doença TR4 do Panamá a abrir caminho pela América Latina, podemos vir a descobrir que não temos alternativa.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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