Degelo dos Glaciares do Alasca é 100 Vezes Mais Acentuado do que se Pensava

Dando uma nova utilização a uma tecnologia antiga, os cientistas conseguiram observar como é que os glaciares de mar derretem debaixo de água. Os resultados são surpreendentes.quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Um novo método, usado para medir a forma como os glaciares derretem debaixo da linha de água, desvendou algo inesperado: alguns glaciares sofrem um degelo 100 vezes mais acentuado do que os cientistas pensavam.

Num novo estudo, publicado na revista Science, uma equipa de oceanógrafos e glaciologistas desenvolveu novos conhecimentos sobre os glaciares de mar – glaciares que terminam no oceano – e sobre os seus processos dinâmicos.

"Descobriram que o degelo está a acontecer de uma forma muito diferente do que pensávamos", diz Twila Moon, glaciologista na Universidade de Colorado-Boulder, que não participou no estudo.

Alguns dos partos glaciares e o degelo fazem parte de um processo normal que os glaciares atravessam durante as transições sazonais, desde o inverno ao verão, e até mesmo durante o verão. O clima mais quente acelera o degelo dos glaciares por todo o planeta, sobretudo o degelo que acontece à superfície, mas também o degelo subaquático.

Os glaciares podem estender-se algumas centenas de metros abaixo da superfície, explicou Ellyn Enderlin, glaciologista na Universidade Estadual Boise, que não esteve envolvida no estudo. Encontrar taxas mais altas de degelo submarino diz-nos que "os glaciares são muito mais sensíveis às alterações do oceano do que pensávamos". Perceber os processos do degelo e calcular a sua quantidade com precisão é essencial para nos prepararmos para o aumento do nível do mar.

"Estamos apenas extasiados por termos conseguido fazer isto", diz o autor principal do estudo, David Sutherland, oceanógrafo na Universidade do Oregon. "Não tínhamos completamente a certeza de que isto ia funcionar."

Monitorizar glaciares específicos durante longos períodos de tempo pode dar aos investigadores – e aos estudantes do ensino secundário – uma ideia sobre o degelo induzido pelas alterações climáticas. Em 1983, alunos da Escola Secundária de Petersburg, perto do glaciar LeConte Bay, nos EUA, começaram a recolher dados sobre a posição terminal do glaciar. A observação do recuo do glaciar, feita ao longo de vários anos, alertou os cientistas da Universidade do Alasca, despertando também o interesse para uma compreensão mais aprofundada do seu degelo.

Medir massas de degelo
O LeConte era o glaciar ideal para estudar porque, para um glaciar de mar, estava sempre acessível, disse Sutherland.

Calcular a velocidade do degelo glaciar é mais complexo do que medir um cubo de gelo a derreter num copo de água. Com um glaciar, precisamos de saber a velocidade a que o gelo se move para dentro do fiorde, bem como as proporções que derretem ou se separam do glaciar, os chamados partos glaciares.

“Na minha cabeça era tudo muito simples, e soava bem em teoria”, diz Sutherland a rir. Mas navegar um barco até ao fiorde, onde o glaciar LeConte desliza para o mar, é complicado – mesmo num dia bom. Os cientistas passaram semanas a bordo do barco, a trabalhar 24 horas por dia, com cada cientista a fazer turnos de 12 horas.

As cabras de montanha andavam pelas ravinas lá em cima, as aves marinhas mergulhavam na água e o fiorde também é frequentado por baleias. “Quando não estávamos a desesperar por melhorias no tempo... era um sítio fantástico para se estar”, diz Sutherland.

A partir do MV Stellar, uma embarcação com 25 metros, os oceanógrafos fizeram análises de sonar debaixo de água, como as que são feitas para medir a profundidade dos oceanos. Contudo, em vez de direcionarem o sonar para o leito oceânico, redirecionaram-no para mapear em 3D a porção subaquática do glaciar.

Para fazerem cálculos precisos, os oceanógrafos precisavam de saber a velocidade com que o sonar viajava pela água do fiorde. Também foram necessárias outras medições “básicas” adicionais sobre as propriedades da água, como a salinidade e temperatura, explicou Sutherland. Ter instrumentos científicos incrivelmente dispendiosos presos na lateral de um barco consegue provocar alguns momentos de tensão.

Os cientistas repetiram as suas observações durante dois verões, obtendo vários mapeamentos em cada viagem.

“Mapear repetidamente toda a face do glaciar durante o verão não é fácil”, diz Eric Rignot, glaciologista na Universidade da Califórnia, em Irvine, que não participou no estudo.

“Não tínhamos completamente a certeza de que isto ia funcionar.”

por DAVID SUTHERLAND, UNIVERSIDADE DE OREGON

Demasiado gelo na frente do glaciar significa que "o barco não consegue abrir caminho através do gelo", diz Rignot. Às vezes, isso significava que o barco tinha de se afastar repentinamente do glaciar, enquanto os cientistas faziam figas para que o equipamento não se perdesse na água.

Simultaneamente, uma equipa de glaciologistas acampou numa ravina com vista para o glaciar. Estavam a cuidar de um instrumento de radar muito delicado que mede o movimento natural do glaciar. Também foram usadas câmaras de vídeo, para criar imagens aceleradas, para medir o fluxo dos glaciares. Desta forma, é possível saber a velocidade a que o gelo se move em direção ao oceano, diz Jason Amundson, glaciologista na Universidade do Alasca e coautor do estudo.

O gelo acelera quando se aproxima da frente do glaciar, onde cai para o oceano, disse Moon. Esse movimento do gelo é semelhante ao apertar de uma pasta de dentes: quando a pasta está quase a acabar, não tem nada a bloquear a sua saída, move-se mais rapidamente. O gelo perto da face do glaciar pode mover-se até 20 metros por dia, e saber essa velocidade com precisão é essencial para calcular o degelo.

A partir dos conjuntos de dados, os investigadores conseguiram calcular uma taxa de degelo total para a porção subaquática do glaciar: duas ordens de magnitude acima do que esperavam. Rignot disse que um dos modelos teóricos, usado durante mais de 20 anos, era conhecido por ser uma versão básica e por não funcionar na perfeição.

Num glaciar de mar acontecem vários processos de degelo, razão pela qual os cientistas abordaram o mistério do degelo de diversas perspetivas. Se um enorme bloco de gelo estiver numa banheira, e não estiver mais nada a acontecer, está apenas a derreter com uma velocidade de fundo.

Quando um corpo de água doce, do degelo à superfície, entra no fiorde, atinge o fiorde perto da face do glaciar. A água doce é mais flutuante e eleva-se à superfície, enfraquecendo e erodindo a face do glaciar.

E depois temos o degelo submarino que acontece onde o oceano está em contacto com o glaciar. A parte realmente interessante deste novo método, disse Sutherland, é podermos identificar a localização exata do degelo mais acentuado.

“Uma quantidade considerável do gelo que é empurrado para o oceano derrete-se assim que entra em contacto com a água... o que significa que o glaciar está de facto a perder uma massa enorme devido a esse fator”, diz Enderlin.

“Uma grande percentagem do gelo que flui para o oceano derrete nas águas oceânicas mais quentes”, diz Amundson.

A equipa calculou que, em agosto, o degelo submarino do glaciar atinge velocidades a rondar os 1,5 e os 5 metros por dia. No LeConte Bay, a água tem temperaturas a rondar os 6 graus, é quente em relação ao gelo e até mesmo em relação a outros fiordes de todo o mundo.

E os outros glaciares?
O sucesso deste novo método “abre as portas para os investigadores poderem fazer o mesmo no resto do mundo”, diz Sutherland. O que se aprendeu com o glaciar LeConte, no Alasca, pode ser usado para estudar os glaciares na Gronelândia e na Antártida. “O degelo submarino é importante em todo o lado”, diz Enderlin.

Apenas 50, dos cerca de 100.000 glaciares do Alasca, são glaciares de mar, mas também são alguns dos maiores. “Estes glaciares, devido aos processos que acontecem exatamente onde desaguam no oceano, podem mudar muito mais depressa do que os glaciares nos vales”, diz Amundson.

A Gronelândia, que primariamente é uma camada de gelo, tem cerca de 200 glaciares envolventes, mas a água nessa região é muito mais fria.

E no Alasca, os glaciares sofrem sobretudo de degelo à superfície, dado que poucos acabam no oceano, diz Rignot. A Gronelândia tem degelo à superfície e, devido ao derretimento dos seus glaciares de mar, também tem degelo submarino. Mas na Antártida só existe degelo submarino, por isso, compreender os processos fora do Alasca é muito importante.

Se adicionarmos os efeitos do clima, como as alterações climáticas, diz Sutherland, aumentamos a temperatura do ar e da água e acabamos logicamente por ter mais degelo. No entanto, isto é algo que pode ser difícil de dissociar das condições naturais deste processo.

"Estas observações demonstram claramente que existem coisas que nos estão a escapar", diz Moon. "É uma verdadeira chamada de atenção para agirmos, para compreendermos melhor como funcionam estes sistemas.”

Felizmente, os cientistas ainda têm algum tempo para perceber o que está a acontecer.

“Estes glaciares não vão desaparecer de repente... vão ficar connosco durante muitas décadas”, diz Sutherland.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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