Meio Ambiente

Na Faixa de Gaza, o Plástico é Uma Bênção e Uma Maldição

Em Gaza, a recolha e reciclagem de plástico cria empregos e fontes vitais de rendimento – mas os custos ambientais são elevados.quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Por Miriam Berger, Heidi Levine
Um camião da ONU despeja lixo no aterro de Juhor al-Deek, a sudeste da cidade de Gaza. Jovens palestinianos reúnem-se em torno do camião para procurar produtos recicláveis. Alguns destes jovens abandonaram a escola e começam a trabalhar antes do amanhecer, para ganhar menos de 3 euros por dia.

O pequeno enclave costeiro de Gaza é um dos lugares mais densamente povoados do mundo. Governado pelo grupo extremista Hamas e sitiado por um bloqueio liderado por Israel, os seus habitantes têm cada vez menos recursos. Aqui, a questão não gira em torno de uma interdição às palhinhas de plástico, mas sim em como sobreviver com elas.

As Nações Unidas preveem que Gaza fique "inabitável" até 2020, em parte porque 97% da sua principal fonte de água não é potável. A escassez de energia elétrica e os danos provocados pelas guerras fazem com que não existam condições de saneamento adequadas – a água dos esgotos vai para o mar. Para além disso, existem perigos por todo lado, seja nos aterros, onde os plásticos podem permanecer para sempre, ou no mar, onde os pescadores só podem pescar dentro de um espaço muito confinado devido às restrições israelitas.

Apesar de todas estas condições desanimadoras, a reciclagem do plástico está na linha da frente na luta contra o colapso económico, humanitário e ambiental. Nos últimos anos, surgiu uma nova cultura e economia em torno da reciclagem de plástico: desde a recolha e limpeza, passando pela triagem e reutilização, as pessoas criaram oportunidades de negócio extremamente importantes para a sua sobrevivência.

“As pessoas reutilizam tudo porque não têm nada”, diz Ahmed Hilles, diretor do Instituto Nacional para o Ambiente e Desenvolvimento da Cidade de Gaza. “Aqui em Gaza, o cerco de Israel e o encerramento da fronteira exigem que a reciclagem seja feita para além da normalidade.”

Mas, ao mesmo tempo, a negligência e os anos de bombardeamentos criaram fendas nos aterros sanitários. Estas fendas lixiviam substâncias tóxicas plásticas em decomposição para os lençóis de água subterrâneos. Desde 2007, com o bloqueio dos vizinhos Israel e Egito, os plásticos de Gaza, tal como o seu povo, estão numa encruzilhada com poucas soluções.

"Não existem laboratórios decentes para analisar ou diagnosticar o tipo de plásticos e produtos químicos que estão a ser usados", diz Hilles. "A ausência de um governo real em Gaza complica cada vez mais os nossos problemas."

Os coletores
O governo do Hamas – com uma péssima imagem em Gaza devido à repressão, aos impostos elevados e à corrupção – supervisiona os sistemas públicos de gestão de resíduos. Mas o que impulsiona realmente este movimento de reciclagem são os indivíduos, as famílias e os bairros que se organizam com carroças e burros para recolher plástico nas ruas, nas casas, nos caixotes do lixo das praias e nas lixeiras.

No aterro de Juhor al-Deek, um jovem palestiniano segura dois cães enquanto procura por itens.

Os itens que recolhem são vendidos às fábricas, ou em alguns locais de coleta que, por sua vez, os lavam e separam. Às vezes, também moem e vendem os plásticos.

De acordo com Hilles, em Gaza, o plástico representa cerca de 16% dos resíduos sólidos. Grande parte desses resíduos é recolhida. Um quilo de plástico é vendido por cerca de 1 shekel israelita, ou 25 cêntimos. O preço sobe consoante a qualidade e o tipo de plástico, e os itens mais densos estão entre os mais valiosos.

Em Khan Younis, no sul de Gaza, Nafez Abo Jamee, com 49 anos, dirige um dos maiores locais de recolha de plástico. Abo Jamee entrou neste ramo em 2007, quando a sua infraestrutura de construção civil foi desativada. As fronteiras fecharam e, de repente, viu-se com veículos enormes que eram perfeitos para transportar lixo.

Em 2014, no conflito entre Israel e Gaza, Israel bombardeou o primeiro local de recolha de Abo Jamee. “Ainda estou à espera que o governo do Hamas me indemnize pelos danos”, diz. Agora, no calor do verão, Abo Jamee tem apenas um toldo a cobrir parte do seu empreendimento.

Ainda assim, Hilles consegue ver alguma beleza nesta realidade.

"Dadas as circunstâncias, estes trabalhadores, amigos do ambiente, são os intervenientes mais importantes", diz Hilles com orgulho. Refere-se a um grupo de trabalhadores de Abo Jamee – estão todos suados, com as roupas esfarrapadas e sujas de poeira. Estas pessoas começam a trabalhar com o romper do dia, separando pilhas enormes de plástico por tipo e cor, removendo também os itens problemáticos, como a borracha.

“Eles têm muita experiência”, diz Hilles com entusiasmo. “São peritos na sua área.”

A equipa de Abo Jamee consegue realmente ver novas utilizações em cada item – futuras cadeiras e mesas de plástico, bicicletas para crianças, tapetes, escovas para vassouras e aditivos que conferem mais elasticidade a outros plásticos, entre muitas outras possibilidades.

Ao início da manhã, enquanto os trabalhadores limpam as ruas da Cidade de Gaza, um burro vasculha um monte de lixo e plástico.

Apesar disso, tanto Hilles como Abo Jamee temem que a poluição por plástico, juntamente com os resíduos perigosos, estejam a entrar no ciclo de nutrição de Gaza e a afetar as pessoas e a terra. As garrafas de vidro e plástico, e outros itens de plástico com BPA, por exemplo, não podem ser reciclados e reutilizados em recipientes para comida ou bebida. Mas Hilles diz que, geralmente, os inspetores governamentais das fábricas de plástico não têm os recursos, as capacidades ou o interesse em inspecionar realmente as instalações. Ou seja, não garantem o cumprimento das regras locais – que se baseiam em padrões internacionais. Por exemplo, os agricultores desesperados podem usar água contaminada na irrigação das suas terras, expondo praticamente tudo e todos no processo.

O aumento da reciclagem em Gaza deve-se, em parte, às campanhas de consciencialização feitas por associações como o centro de Hilles. Num vídeo feito para a televisão local, Hilles mergulhou na poluída costa mediterrânica de Gaza para mostrar às pessoas os efeitos do lixo plástico na água e os perigos de comer peixe que consome plástico.

Mas em Gaza não existe uma supervisão adequada. Os estudos sobre os efeitos da produção e consumo de plástico na saúde e no ambiente são escassos.

"Se o plástico for produzido e usado corretamente, os impactos na saúde são limitados", diz Khaled Tibi, de 47 anos, chefe de Estudos Ambientais no Ministério da Saúde de Gaza. "O problema é o uso indevido do plástico."

“Os regulamentos que temos são limitados. As possibilidades são limitadas. Não temos especialistas que consigam fazer estudos específicos.”

O produtor
A movimentada fábrica de plásticos Ramlawi, que fica a leste da cidade de Gaza, numa zona industrial em ruínas, é uma história de sucesso local.

“Cada vez recebemos mais e mais materiais [reciclados]”, diz Khalil Ramlawi, de 30 anos, que gere o negócio de família. Esta fábrica de plástico é atualmente a maior da região. “Hoje existem mais informações sobre reciclagem. E a cultura em torno do plástico mudou. Agora temos uma cultura onde eu posso vender o plástico e beneficiar com isso.”

Instalações de reciclagem de plástico em Beit Hanoun, Gaza.

A família Ramlawi fundou o negócio em 1986, quando as fronteiras ainda estavam abertas, e produziam sacos, recipientes, garrafas e tubos – feitos de plástico de polietileno em bruto (o mais omnipresente e entre os mais seguros) importado de Israel.

Mas em 2007, o Hamas, que segundo os EUA é um grupo terrorista, assumiu o controlo do pequeno território costeiro do seu rival, que é apoiado pelo Ocidente, a Autoridade Palestiniana liderada pela Fatah. Os vizinhos Israel e Egito estabeleceram um bloqueio terrestre e marítimo para tentar expulsar o Hamas. Em 10 anos, os israelitas e o Hamas envolveram-se em três guerras, com inúmeros conflitos sangrentos pelo meio.

Agora, 12 anos depois, com pouca eletricidade e recursos limitados, a fábrica de Ramlawi é mais pequena. Grande parte do seu plástico é recolhido dentro da Faixa de Gaza. A fábrica ainda importa polipropileno e plástico de polietileno de baixa densidade de Israel para transformar em nylon e sacos do lixo. Mas, por vezes, as importações param; o polietileno está na lista de itens reutilizáveis banidos por Israel, ou seja, o seu uso está classificado como tendo fins civis e militares.

Para além dos materiais importados, a fábrica também transforma itens de plástico – comprados aos coletores – em sacos do lixo e sacos para estufas, tubos de irrigação e outros itens, consoante as necessidades.

De acordo com Sami Nafar, chefe da Federação dos Plásticos de Gaza, quando as importações de Israel estão estáveis, cerca de 10% dos produtos de plástico são provenientes de itens reciclados localmente, e 90% do polietileno pronto para ser utilizado é produzido em Israel e em outros países, como os Estados Unidos e os Emirados Árabes Unidos.

Hamed Mahoud Hegazy, 72 anos, com uma das suas máquinas, na sua fábrica de tapetes, na cidade de Gaza. Hamed usa plástico reciclável para fazer tapetes tradicionais.

Ramlawi costuma ver vídeos no YouTube sobre a reciclagem de plástico noutros países. Está interessado em tecnologias emergentes que criem alternativas, como a  dissolução dos sacos de plástico – só que Gaza está muito longe dessa realidade. Ramlawi quer ir para o estrangeiro para estudar melhor o setor, mas para isso precisa de um visto e de uma forma de sair da região.

Os efeitos do plástico
Khaled Tibi, do Ministério da Saúde, não tem dúvidas de que o trabalho de pessoas como Wissam Adel, que tem 15 anos – e passa os seus dias a separar pilhas de lixo num aterro em putrefação – está a prejudicar a sua saúde a longo prazo.

Wissam Adel abandonou a escola para separar plástico com os seus irmãos. Mas só o facto de respirar naquele local, onde passa o dia inteiro, provoca dores nos pulmões. Adel usa roupas rasgadas e sandálias de plástico velhas, e todos os dias caminha uma hora desde a sua casa, que fica num bairro densamente povoado da cidade de Gaza, até ao aterro de Juhoor ad deek. Num dia bom, Wissam consegue ganhar 15 shekels (€3,50). Ele e o seu grupo estão à espera de um camião da ONU, para vasculhar os espólios da descarga. Ali perto, do outro lado da fronteira com Israel, as gruas de construção preenchem o cenário.

"Nós queremos viver", explica Wissam, ecoando um canto feito pelos moradores da Faixa de Gaza em protestos recentes contra as restrições do Hamas e de Israel. Mas Wissam não consegue encontrar outro trabalho.

Para Hilles, é por estas razões que a reciclagem do plástico deve ser levada mais a sério em Gaza.

"O planeta é uma responsabilidade de todos", diz. “O ambiente onde vivemos deve ser preservado para as gerações futuras. Nós, em Gaza, fazemos parte deste mundo.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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