Meio Ambiente

Ovos de Peixe Não Eclodem Devido à Poluição Luminosa

Quando expostos à luz artificial, durante a noite, os carismáticos peixes-palhaço tentam reproduzir-se, mas os ovos não eclodem.Friday, August 2, 2019

Por Jenny Howard
Dois peixes-palhaço aninhados na sua anémona hospedeira, nas Filipinas.

Os peixes-palhaço, de cor laranja vibrante, protagonistas do filme À Procura de Nemo, enfrentam uma série de problemas na natureza, incluindo a colheita excessiva para aquários domésticos e o branqueamento dos corais e anémonas onde vivem – devido ao aquecimento das águas induzido pelas alterações climáticas. E agora existe um terceiro fator neste tridente mortal: poluição luminosa.

Publicado no início de julho na revista Biology Letters, um novo estudo revela que os peixes-palhaço, que dependem dos recifes de coral, não conseguem ter proles quando estão expostos a luzes artificiais.

A luz produzida pelo homem é projetada na Terra e coloca em risco animais de vários ecossistemas. Durante a noite, as luzes alteram as migrações noturnas das aves. As plantas brotam mais cedo. As tartarugas marinhas evitam aninhar-se em praias muito iluminadas. Os pássaros canoros começam a cantar mais cedo.

"Mas nunca pensamos que os sistemas marinhos subaquáticos podem ser potencialmente afetados", diz Emily Fobert, ecologista marinha na Universidade Flinders, na Austrália, e principal autora do estudo.

"Eu não esperava que o resultado fosse este – não houve uma única eclosão", diz Thomas Davies, ecologista de conservação na Universidade de Bangor, no País de Gales. "É muito preocupante... é um resultado que nos diz muito sobre a forma como a poluição luminosa pode ter um impacto gigantesco nas espécies marinhas."

Acampamento científico de peixes-palhaço
Fobert e a sua equipa analisaram 10 pares de peixes-palhaço em laboratório – cada par de peixes-palhaço tinha o seu próprio aquário, ou “cabana de amor”. Metade dos tanques estava iluminado com uma luz típica de um recife de coral natural – 12 horas de luz e 12 horas de escuridão. Mas a outra metade estava sob níveis mais baixos de luz artificial durante a noite, imitando a poluição luminosa de uma cidade costeira.

Nos 60 dias seguintes, os investigadores fizeram contagens sobre as quantidades de desova, quantos ovos tinham sido fertilizados e quantos eclodiram.

Os resultados foram chocantes: "Na presença de luz não existiram eclosões", diz Fobert. O peixe-palhaço, exposto à luz artificial durante a noite, continua a desovar, e os ovos são fertilizados a um nível semelhante ao dos peixes normais. Mas não eclodem.

Assim que os investigadores retiraram a luz durante a noite, a eclosão recomeçou e a taxa de eclosão normal da espécie foi retomada.

Antes da eclosão, os ovos passam por uma alteração na cor, ficando muito prateados. Todos os ovos adquiriram esta tonalidade, e os ovos do ciclo normal luz-escuridão eclodiram. Mas os investigadores ficaram a observar, durante vários dias, os ovos expostos à luz durante a noite, e estes não eclodiam. A cor prateada desapareceu e ficaram opacos.

Investir todo este tempo e energia e os ovos não eclodirem é uma tragédia maior para os peixes, disse Karen Burke da Silva, coautora na Universidade Flinders, especialista em peixes-palhaço e diretora da organização Saving Nemo.

“Os pais passaram as noites a cuidar destes embriões lindos com muito carinho”, diz Burke da Silva.

Os machos mais pequenos cuidam dos ovos, limpam-nos com as barbatanas e com a boca. Mas como a reprodução destes peixes é extremamente dispendiosa em termos energéticos, disse Fobert, podem existir consequências que ainda não equacionámos.

Stephen Swearer, biólogo marinho na Universidade de Melbourne, na Austrália, e coautor do estudo, disse que, embora não tenham observado uma queda nas taxas de desova e fertilização, os níveis de luz mais elevados, como a luz de um cais, por exemplo – que são 2 mil vezes mais brilhantes que uma lua cheia – podem causar um impacto maior.

Sistemas marinhos brilhantes
Durante a noite, as luzes artificiais irradiam de todas as áreas desenvolvidas: das casas, dos postes de iluminação, dos hotéis e dos escritórios. Em todo o mundo, quase 80% das pessoas vive em áreas com poluição luminosa. E o problema está a aumentar para níveis superiores a 2% ao ano – devido à mudança para as mais eficientes e económicas luzes LED.

Os animais evoluíram os seus relógios internos – para se alimentar, procriar e dormir – com base na duração do dia e da noite. A exposição à luz durante um período que devia ser de escuridão altera os ritmos biológicos.

Para as proles de peixe-palhaço, a escuridão faz com que os ovos eclodam durante um período mais seguro, evitando os predadores. Fobert especula que a exposição à luz durante as horas críticas, após o crepúsculo, pode causar esta redução na eclosão. Se estivesse escuro durante essas horas cruciais, os ovos ainda poderiam eclodir.

Damon Bolton, ecologista marinho na Universidade de Nova Gales do Sul, na Austrália, diz que, para muitos animais, a evolução tem estado intimamente ligada a indicadores luminosos. Portanto, os resultados deste estudo afetam não só os peixes-palhaço, como os outros organismos marinhos. Mas Davies adverte que "aplicar este resultado a todos os peixes pode ser um salto demasiado grande".

Podemos não ver um efeito tão drástico na reprodução de outras espécies, mas os estágios de vida diferentes, como o período larval inicial, podem sofrer alterações.

“É muito preocupante... é um resultado que nos diz muito sobre a forma como a poluição luminosa pode ter um impacto gigantesco nas espécies marinhas.”

por THOMAS DAVIES, ECOLOGISTA NA UNIVERSIDADE DE BANGOR

Olhar para além dos organismos individuais, para as comunidades de espécies e para as suas interações, é fundamental, disse Bolton. "Se esses ovos não eclodem, porque a indicação luminosa não é a correta... então talvez um predador não consiga ter acesso à sua fonte de alimentação, e podemos acompanhar este efeito através da cadeia alimentar.”

Quão brilhante é o futuro de Nemo?
Na natureza, os peixes-palhaço usam as anémonas como se fossem as suas “tendas de amor” individuais, com um par por anémona. A maioria dos peixes-palhaço vive em águas pouco profundas, a 9 metros da superfície da água. Os peixes que vivem em águas mais profundas não são muito influenciados pela luz, diz Fobert, mas as espécies que vivem mais perto da superfície, como os peixes-palhaço, são afetadas.

Os pares de peixes-palhaço que vivem em águas pouco profundas “podem estar perante uma situação muito complicada”, diz Burke da Silva. Encontrar uma nova anémona, com menos luz, é difícil, porque as melhores anémonas já têm dono – os peixes-palhaço são territoriais e protegem ferozmente os seus lares. Uma anémona livre, mais distante, pode ser atraente, mas os peixes-palhaço não nadam bem, e mudar de casa nem sempre é a melhor opção.

"A luz artificial pode ter consequências graves para estas populações", disse Davies. “Níveis de eclosão de 0% é fechar a porta à geração seguinte, e pode provocar a extinção de uma espécie. É muito complicado. Em áreas localizadas, a população pode desaparecer.”

Apesar dos investigadores terem feito esta experiência durante vários meses, o estudo é apenas um primeiro olhar sobre os possíveis efeitos da poluição luminosa. “Esta investigação é realmente interessante, mas levanta muitas outras questões. Estamos apenas a dar os primeiros passos”, diz Fobert.

Swearer diz que o passo seguinte é observar a forma como a poluição luminosa afeta os peixes-palhaço a longo prazo. Estes peixes conseguem viver até aos 30 anos de idade ou mais, e será importante perceber se conseguem adaptar-se à luz, ou se isto afeta a sua vida por completo.

“Apesar de ser deprimente, ainda há esperança”, diz Bolton. Não podemos descartar já os carismáticos peixes-palhaço.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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