Meio Ambiente

Verão é Sinónimo de Insetos Portadores de Doenças. Eis o que Deve Saber.

As doenças transmitidas por carraças, mosquitos e percevejos estão a aumentar – uma tendência que, segundo os especialistas, vai continuar com o aquecimento do planeta.segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Por Sarah Gibbens
Um mosquito da febre amarela (Aedes aegypti), no Laboratório de Entomologia Urbana da Universidade da Flórida, em Gainesville.

De acordo com os especialistas do Centro de Controlo de Doenças (CDC) – que monitoriza doenças transmitidas por vetores – à medida que o planeta aquece, os insetos transmissores de doenças também se começam a disseminar de forma mais ampla e transmitem doenças ainda mais rapidamente.

"Os mosquitos são altamente sensíveis às alterações climáticas", diz Lyric Bartholomay, biólogo de vetores na Universidade de Wisconsin-Madison. "Penso que não existem quaisquer dúvidas de que, à medida que as temperaturas mudam, o alcance dos insetos também se altera."

Em finais de julho, a empresa de investimentos financeiros Morgan Stanley previu que os fabricantes de medicamentos poderão ver os seus lucros aumentar durante as próximas décadas – à medida que as alterações climáticas expõem mais de mil milhões de pessoas por todo mundo a doenças infecciosas, como a febre amarela e o dengue, disseminadas por insetos.

Eis a explicação dos especialistas para a forma como os pequenos parasitas portadores de doenças se estão a adaptar ao clima mais quente.

Carraças
Atualmente, o CDC já está a observar um aumento acentuado nas doenças transmissíveis por carraças, como a doença de Lyme e a febre maculosa das Montanhas Rochosas. Em 2017, o ano mais recente para o qual existem dados disponíveis, as doenças transmitidas por carraças aumentaram cerca de 20%, e os casos duplicaram nos últimos 10 anos.

"Estamos a assistir à expansão destas populações de carraças para norte", diz Ben Beard, vice-diretor da Divisão de Doenças Transmitidas por Vetores no CDC. "Com temperaturas mais quentes, as capacidades de reprodução das carraças também aumentam, reproduzindo-se e atingindo ciclos de vida mais rapidamente".

De acordo com o CDC, as carraças ficam à espera para se agarrarem às pessoas e aos animais. Com as patas traseiras seguras a uma folha ou a um ramo, usam as patas dianteiras para se prender a qualquer coisa que passe por si. Quando estão num corpo, enterram-se na pele e inserem um tubo de alimentação farpado na carne. Transmitem doenças com a de Lyme através da saliva, e o processo de alimentação pode demorar entre 10 minutos a duas horas.

Muitas das espécies de carraças ficam adormecidas durante o inverno e só emergem quando a temperatura sobe e os dias se tornam mais longos, durante a primavera. Beard disse que o CDC tem assistido a casos de doenças de Lyme a surgir cada vez mais cedo a cada ano que passa.

As alterações nos terrenos também ajudam as populações de carraças a crescer. O reflorestamento de antigas terras agrícolas e a expansão dos subúrbios também ajudaram a criar mais condições para os humanos e as carraças entrarem em contacto. E nos EUA, sem a presença de predadores, as populações de veados portadores de carraças também aumentaram rapidamente.

"Isto resultou num aumento do habitat, em torno de casas, onde as carraças prosperam e as pessoas podem ficar expostas", diz Beard. A maioria das pessoas é mordida por carraças nos seus próprios quintais.

Mosquitos
Antes de 1999, os Estados Unidos não tinham casos conhecidos do vírus do Nilo Ocidental. Desde então, já foram relatados mais de 41.000 casos.

Bartholomay diz que a melhor época para a transmissão do vírus do Nilo Ocidental está neste momento a decorrer nos EUA.

Assim que as temperaturas sobem, o mosquito-tigre-asiático, portador do vírus, começa rapidamente a alimentar-se e a reproduzir-se.

"Quando um vírus entra num mosquito, tem de se replicar primeiro nos seus intestinos", diz Bartholomay. “Movendo-se assim para as glândulas salivares. Quando o mosquito se alimenta, liberta saliva e o vírus. Com temperaturas mais quentes, todos estes processos acontecem mais rapidamente.”

Mas nem todas as alterações ambientais favorecem os mosquitos. No estado do Iowa, a drenagem de terrenos com águas paradas, para criar campos planos para o cultivo, destruiu zonas de reprodução essenciais para os mosquitos. Mas, à medida que as temperaturas aumentam, o CDC prevê que o alcance dos mosquitos também pode expandir. Com o crescimento do comércio e das viagens, os cientistas temem que doenças que antigamente não existiam nos EUA, como a febre do Vale do Rift e a chikungunya, se possam disseminar pela primeira vez no país. A chikungunya, uma doença viral encontrada nos trópicos, é uma questão de quando chega, não se, diz Bartholomay.

"É uma situação que nos mantém acordados durante a noite, porque seria algo completamente devastador", diz Bartholomay, sobre a febre do Vale do Rift. A doença consegue matar facilmente números elevados de gado e pessoas.

Percevejos
Com o aumento das temperaturas, tal como as carraças e os mosquitos, os percevejos também podem aumentar o seu alcance para norte. Estes insetos conseguem viver em espaços suburbanos comuns, como arbustos ou fendas no betão.

Um estudo da Universidade Texas A&M descobriu que, no Texas, cerca de metade dos percevejos abrigavam um parasita chamado Trypanosoma cruzi no seu sistema digestivo. E perto de 30% das pessoas infetadas com o parasita irão desenvolver a doença de Chagas, uma doença que pode dar origem a insuficiência cardíaca.

"Ocasionalmente, quando somos infetados pela primeira vez, podemos sentir logo os sintomas, mas na maioria das vezes não se sente nada. O problema com esta doença é o de poder demorar entre 30 a 50 anos até percebemos que se está a desenvolver”, diz Maria Elena Bottazzi, cientista que estuda a doença de Chagas na Universidade Baylor.

“Isto não se deve apenas às alterações climáticas”, diz Maria sobre o aumento do alcance dos insetos, “mas também à desflorestação e à desestabilização através de conflitos.”

Normalmente, os casos da doença de Chagas encontram-se apenas na América Central e do Sul, e sem cuidados de saúde adequados, os portadores da doença podem inadvertidamente transportá-la para norte e ajudar na sua disseminação – depois dos mosquitos se alimentarem e transmitirem o seu sangue infetado. De 2013 a 2016, os centros de saúde do Texas relataram 91 casos de Chagas, 20 dos quais provenientes de pessoas que foram infetadas nos EUA. Embora alguns estudos afirmem que o aquecimento do planeta possa estar a empurrar a doença para norte, Bottazzi diz que não se sabe se as populações de insetos estão realmente a crescer, ou se os médicos estão a ficar cada vez melhores na deteção destes casos.

Futuro contagioso
Nos EUA, o CDC fornece informações sobre o tipo de roupa e repelentes de insetos que se podem usar para prevenir as picadas, e também sobre como evitar surtos de insetos no quintal.

Bottazzi realça que os infetados podem variar de acordo com a sua situação socioeconómica, e considera Chagas uma “doença de pobreza”.

"Nos EUA é diferente, geralmente temos casas com mosquiteiros nas janelas e ar condicionado", acrescenta Bartholomay. "Uma das coisas que temos a nosso favor é que temos algumas barreiras adequadas e acesso rápido a repelentes".

Sobre o crescimento da taxa de doenças transmitidas por vetores, Beard diz que, segundo o CDC, “esta tendência vai continuar”.

“Nos Estados Unidos não existem vacinas para nenhuma das doenças transmitidas por vetores. A proteção contra carraças e mosquitos depende, para já, de medidas de proteção pessoal.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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