Meio Ambiente

Algas Marinhas Podem Ajudar a Combater Alterações Climáticas

Cultivar algas marinhas e depois afundar as plantas no oceano pode ser uma maneira eficaz de combater o aquecimento. Então, porque razão não o fazemos?quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Por Todd Woody
Uma mistura de algas, musgo e alface-do-mar na costa do Maine.

Enquanto a Amazónia arde, o interesse em cultivar florestas capazes de absorver as emissões de carbono que aquecem o planeta – e que sejam à prova de fogo – começa a aumentar.

Isto porque estamos a falar de florestas subaquáticas.

Cada vez existem mais investigações que documentam o potencial das plantações de algas marinhas no combate às alterações climáticas, já que o desflorestamento dizima florestas tropicais e outros elementos cruciais de absorção de carbono de todo o planeta. As selvas submarinas de algas e macroalgas de crescimento rápido são altamente eficazes a armazenar carbono. E as algas marinhas também ajudam a mitigar a acidificação, desoxigenação e outros impactos marinhos do aquecimento global – que ameaça a biodiversidade dos mares, a fonte de alimentação e os meios de subsistência de centenas de milhões de pessoas.

“As algas marinhas estão finalmente nas luzes da ribalta”, diz Halley Froehlich, cientista marinha na Universidade da Califórnia, em Santa Barbara.

Halley é a autora principal de um novo estudo que, pela primeira vez, quantifica a capacidade global do cultivo em grande escala de algas marinhas, para compensar as emissões de carbono terrestre, e mapeia áreas do oceano adequadas ao cultivo de macroalgas.

De acordo com o artigo publicado na revista Current Biology, o cultivo de algas marinhas em apenas 3.8% das águas federais ao largo da costa da Califórnia – ou seja, 0.065% do oceano global adequado ao cultivo de macroalgas – poderia neutralizar as emissões da indústria agrícola (de 45 mil milhões de euros) deste estado norte-americano.

Atualmente, as algas marinhas são cultivadas em pequena escala para serem usadas na alimentação, em medicamentos e em produtos de beleza. Mas os cientistas propõem a criação de quintas de dimensões industriais para cultivar algas. Depois, as algas seriam colhidas e afundadas no fundo do oceano, onde o dióxido de carbono capturado ficaria sepultado durante centenas ou milhares de anos.

Os cientistas descobriram que a criação de macroalgas, em apenas 0.001% das águas propícias ao seu crescimento, poderia compensar todas as emissões de carbono da indústria global de aquicultura, que fornece metade do marisco do planeta. No total, o oceano tem quase 48 milhões de quilómetros quadrados adequados ao cultivo de algas, conclui o estudo.

Mas há um senão
A tecnologia para colher algas marinhas nas profundezas do oceano ainda não existe, realça Halley. “Com sorte, este estudo pode impulsionar o interesse dos engenheiros e economistas sobre a necessidade de colocar esta ideia em prática.”

Em abril, Carlos Duarte, um cientista na vanguarda de diversos ramos da ecologia marinha, do Centro de Investigação do Mar Vermelho, na Arábia Saudita, participou numa apresentação sobre os resultados deste artigo.

"Este novo estudo vem juntar-se a investigações anteriores e estimativas globais que designam a aquicultura de algas marinhas como um rumo importante para mitigar as alterações climáticas", escreve por email Duarte, realçando que ainda não fez a revisão do artigo final. "Na minha opinião, as estimativas até são demasiado conservadoras, porque se a colheita for mantida de forma adequada, o potencial é muito maior.”

Mas Duarte opõe-se ao afundamento das algas.

“As algas são um material muito valioso e existem melhores formas de as usar no combate às alterações climáticas do que deixá-las no fundo do mar”, diz.

Halley e outros ecologistas marinhos apelidam as algas marinhas de "carbono carismático", devido às capacidades das macroalgas em lidar com uma miríade de problemas ambientais, tanto no oceano como em terra.

Para além do potencial que têm no combate à acidificação, desoxigenação, absorção de nutrientes em excesso e no fornecimento de habitats para a vida marinha, as algas também podem ser transformadas em biocombustível. E as investigações revelam que adicionar algas às rações para animais pode reduzir as potentes emissões de metano das vacas e de outros animais de pasto até 70% – uma fonte significativa dos gases de efeito estufa. As algas também podem ser usadas como um suplemento agrícola no solo, substituindo os fertilizantes à base de petróleo.

"Os cálculos demonstram que as algas podem ser uma ferramenta muito eficaz no combate às alterações climáticas, mas precisam de ser validadas pelo mercado", diz Scotty Schmidt, diretor executivo da Primary Ocean, uma empresa de Los Angeles que trabalha num projeto financiado pelo governo dos Estados Unidos para desenvolver tecnologias de cultivo de algas marinhas em grande escala.

“De momento, cultivar algas marinhas apenas para absorver carbono não é um negócio viável porque, na prática, não existe um mercado de carbono disposto a aceitar ‘créditos de compensação’ pelo carbono das algas marinhas.”

A estratégia da Primary Ocean passa pela extração de material das algas marinhas que pode ser vendido para uso agrícola. Se existissem créditos de carbono e fosse possível obter lucro com a sua venda, a empresa poderia aproveitar o desperdício das macroalgas, diz Schmidt.

Conseguir que os contadores internacionais de créditos de carbono aceitem as algas como uma fonte legítima de redução de gases de efeito estufa é um dos maiores desafios.

“A demanda por esta tecnologia existe, mas precisamos de um catalisador que faça a com que a produção consiga responder aos níveis de procura”, afirma Duarte. "Precisamos de protocolos de créditos de carbono que possam ser usados pela aquicultura de algas marinhas. E também precisamos de um ambiente regulador que facilite as concessões de licenças para a aquicultura de algas marinhas."

Apesar de a sua enorme linha costeira ser adequada ao cultivo de algas marinhas, os EUA quase não têm operações de aquicultura ao largo da costa. Espera-se que a China e outras nações asiáticas, que têm as maiores produções de algas marinhas no mundo, assumam a liderança no estabelecimento das macroalgas como uma fonte de "carbono azul" – carbono capturado pelos ecossistemas oceânicos costeiros.

“Nos EUA, provavelmente é mais fácil obter uma licença para uma plataforma petrolífera do que para a aquicultura de algas marinhas,” diz Duarte.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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