Meio Ambiente

Amazónia Não Produz Realmente 20% do Oxigénio Mundial

Entre as inúmeras questões importantes relacionadas com os fogos que lavram na maior floresta tropical do mundo, o oxigénio não é uma delas.terça-feira, 10 de setembro de 2019

Por Katarina Zimmer
Uma vista aérea da Amazónia perto de Porto Velho, no estado brasileiro de Rondônia, no dia 21 de agosto de 2019.

À medida que as notícias dos incêndios na Amazónia se espalhavam, o mesmo aconteceu com uma afirmação enganosa – mas muitas vezes repetida – sobre a floresta tropical: a Amazónia produz 20% do oxigénio do planeta.

Esta alegação apareceu na cobertura noticiosa de cadeias como a CNN, ABC News, Sky News, e outros, e em publicações de políticos e celebridades nas redes sociais, como o presidente francês Emmanuel Macron, a senadora e candidata à presidência dos EUA Kamala Harris, e o ator e ambientalista Leonardo DiCaprio.

Algumas pessoas acreditam que estamos em risco de comprometer o abastecimento de oxigénio mundial. "Precisamos de O2 para sobreviver!", disse no Twitter o antigo astronauta, Scott Kelly, no dia 22 de agosto.

Contudo, estes números – que valeram à floresta tropical o título de "pulmão do planeta" – são uma estimativa muito acima da realidade. Tal como já foi apontado por diversos cientistas nos últimos dias, a contribuição da Amazónia para o oxigénio que respiramos ronda provavelmente os zero porcento.

"Existem várias razões pelas quais devemos querer manter a Amazónia intacta, mas o oxigénio não é uma delas", observa o cientista de sistemas da Terra, Michael Coe, que dirige o programa amazónico no Centro de Investigação Woods Hole, no Massachusetts.

Fisicamente impossível
Para Coe, esta alegação "não faz sentido em termos físicos", porque não existe dióxido de carbono suficiente na atmosfera para que a fotossíntese das árvores alimente um quinto do oxigénio do planeta.

Ou seja, para cada lote de moléculas de dióxido de carbono que as árvores extraem do ar, expelem um número comparável de moléculas de oxigénio. Mas como a atmosfera contém menos de metade da percentagem de dióxido de carbono, e 21% de oxigénio, não é possível que a Amazónia consiga gerar tanto oxigénio.

Existem estimativas mais precisas avançadas por muitos cientistas. Yadvinder Malhi, ecologista de ecossistemas no Instituto de Alterações Ambientais da Universidade de Oxford, baseia os seus cálculos num estudo de 2010 que estima que as florestas tropicais são responsáveis por cerca de 34% da fotossíntese que acontece em terra. Com base na sua dimensão, a Amazónia representaria cerca de metade disso. Isto significa que a Amazónia gera cerca de 16% do oxigénio produzido em terra, explica Malhi, que detalhou os seus cálculos numa publicação recente no seu blog.

Essa percentagem cai para os 9% quando se leva em consideração o oxigénio produzido pelo fitoplâncton no oceano. (O cientista climático Jonathan Foley, que dirige o projeto sem fins lucrativos Drawdown e investiga soluções para as alterações climáticas, publicou uma estimativa mais conservadora de 6%).

Mas existem mais dados a ter em conta. As árvores não se limitam a exalar o oxigénio – também o consomem num processo conhecido por respiração celular, onde convertem os açúcares que acumulam durante o dia em energia, usando o oxigénio para alimentar o processo. Depois, durante a noite, quando não há sol para a fotossíntese, absorvem oxigénio. A equipa de investigação de Malhi calcula que, dessa forma, as árvores inalam pouco mais de metade do oxigénio que produzem. O restante é provavelmente usado pelos inúmeros micróbios que vivem na Amazónia, e que inalam oxigénio para decompor matéria orgânica morta da floresta.

“O efeito geral do oxigénio da Amazónia, ou de qualquer outro bioma, ronda os zero porcento.”

Devido a este equilíbrio entre produção e consumo de oxigénio, os ecossistemas modernos alteram muito pouco os níveis de oxigénio na atmosfera. Em vez disso, o oxigénio que respiramos é um legado do fitoplâncton no oceano, que acumulou oxigénio ao longo de milhares de milhões de anos, tornando a atmosfera respirável, explica Scott Denning, cientista atmosférico na Universidade Estadual do Colorado.

Este oxigénio só se acumulou porque o plâncton ficou preso no fundo do oceano antes de entrar em decomposição – caso contrário, a sua decomposição por outros micróbios teria consumido esse oxigénio. Os processos que determinam a quantidade de oxigénio encontrado na atmosfera ocorrem, em média, em vastas escalas de tempo geológicas, e não são realmente influenciados pela fotossíntese que está acontecer agora, explica Denning num artigo da The Conversation.

Berço de biodiversidade
Ainda assim, o mito dos 20% já circula há décadas, embora não se conheça exatamente a sua origem. Malhi e Coe calculam que isso se deva ao facto de a Amazónia contribuir com cerca de 20% do oxigénio produzido pela fotossíntese em terra – algo que pode ter entrado erradamente no domínio público como "20% do oxigénio na atmosfera".

É óbvio que nada disto interfere com a extrema importância da Amazónia que, no seu estado imaculado, contribui significativamente para a recolha de dióxido de carbono da atmosfera. Coe não compara a Amazónia a uns pulmões, mas sim a um ar condicionado gigante que arrefece o planeta – um dos sistemas mais poderosos que temos para mitigar as alterações climáticas, juntamente com outras florestas tropicais de África e da Ásia, algumas das quais também enfrentam incêndios neste momento.

E a Amazónia também desempenha um papel importante na estabilização dos ciclos das chuvas na América do Sul, para além de ser crucial para os povos indígenas e inúmeras espécies de animais e plantas.

“Há poucas pessoas a falar sobre a biodiversidade, mas a Amazónia é o ecossistema terrestre mais biodiversificado, e as alterações climáticas e a desflorestação estão a colocar em risco essa riqueza”, observa o cientista climático Carlos Nobre, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo.

Dada a importância que tem para o mundo, a Amazónia pode muito bem ser um par metafórico de pulmões, e essa analogia pode ter sido útil para galvanizar ações contra a desflorestação. Mas, para a maioria dos investigadores, não faz muito sentido – até porque os pulmões reais inspiram oxigénio ao invés de expirarem.

"Se as pessoas quiserem relacionar a Amazónia com uma parte fundamental do  nosso corpo, uma parte que mantém a estabilidade, a vida e o bem-estar – simbolicamente, podem fazer esse tipo de associação", diz Nobre. "Mas, fisicamente falando, a Amazónia não é de todo o pulmão do planeta."
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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