Declínio dos Pássaros Canoros Ligado a Inseticida

Os neonicotinóides – pesticidas introduzidos nas plantas durante a fase de constituição – agem como um inibidor de apetite nas aves, fazendo com que percam peso em poucas horas.quinta-feira, 19 de setembro de 2019

O inseticida mais utilizado no mundo tem sido associado ao declínio acentuado de aves canoras. O primeiro estudo a observar este efeito em aves na natureza descobriu que um pássaro canoro migratório, que comeu o equivalente a uma ou duas sementes tratadas com um inseticida neonicotinóide, sofreu perda imediata de peso, forçando-o a atrasar a sua migração.

Embora as aves tenham conseguido recuperar, este atraso pode afetar gravemente as suas probabilidades de sobrevivência e reprodução, afirmam os investigadores canadianos cujo estudo foi publicado no dia 13 de setembro na Science.

"Revelámos uma ligação clara entre a exposição aos neonicotinóides e o impacto nas aves", diz a principal autora do estudo, Margaret Eng, pós-doutoranda no Centro de Toxicologia da Universidade de Saskatchewan.

Na primavera, a migração das aves acontece quando os agricultores estão a plantar, e a maioria das culturas nos Estados Unidos e no Canadá são cultivadas com sementes tratadas com neonicotinóides. As aves podem sofrer de exposição continuada em locais de paragem sucessivos, onde param para descansar e se alimentar. Isto pode prolongar os tempos de migração e tem consequências, conclui o estudo.

Os neonicotinóides, introduzidos no final dos anos 1980, eram suposto ser uma alternativa mais segura aos inseticidas que os antecederam. Mas diversos estudos descobriram que estes inseticidas desempenham um papel fundamental no declínio de insetos, sobretudo nas abelhas. A União Europeia proibiu a utilização de produtos químicos em 2018, porque estavam a matar os polinizadores. Este estudo é mais um elo na cadeia dos problemas ambientais, mostrando que o uso de neonicotinóides está a afetar as aves, colocando consequentemente as suas populações em risco, disse Margaret em entrevista.

É a primeira prova dos "efeitos comportamentais da intoxicação por neonicotinóides em aves que vivem na natureza", diz Caspar Hallmann, ecologista na Universidade Radboud, na Holanda.

É provável que os resultados se apliquem a outras espécies de aves que consomem grãos tratados com pesticidas, disse Hallmann, que não participou neste estudo. Mas Hallman publicou uma investigação que vincula declínios generalizados em aves que comem insetos devido ao uso de neonicotinóides.

Na América do Norte, desde 1966, as populações de mais de 75% dos pássaros canoros, e outras aves, que dependem de habitats agrícolas, diminuíram significativamente. O novo estudo revela como os neonicotinóides podem estar a contribuir diretamente para as taxas de mortalidade. Em agosto, um estudo abrangente concluiu que a utilização generalizada de neonicotinóides tinha tornado a paisagem agrícola dos Estados Unidos 48 vezes mais tóxica para as abelhas, e provavelmente para os outros insetos – um aumento que aconteceu nos últimos 25 anos.

Pássaros canoros magricelas
Para investigar os potenciais impactos em aves selvagens, os investigadores capturaram pardais-de-garganta-branca, durante uma paragem na sua rota migratória de primavera, dos EUA para a região boreal do Canadá. Os pardais individuais foram alimentados com uma dose muito pequena do neonicotinóide mais usado, chamado imidaclopride, ou com uma dose um pouco mais elevada, ou sem inseticida.

Todas as aves foram pesadas e a sua composição corporal foi medida, antes e depois da exposição ao inseticida. As aves que receberam uma dose mais elevada, pesadas 6 horas depois, perderam 6% da sua massa corporal.

Esta dose mais elevada é o equivalente a um décimo de uma única semente de girassol, ou uma semente de milho tratada com imidaclopride, ou 3 ou mais sementes de trigo, diz a coautora do estudo, Christy Morrissey, ecotoxicologista na Universidade de Saskatchewan. "É uma quantidade ínfima, uma pequena fração do que estes pássaros comem diariamente", disse Morrissey em entrevista.

O imidaclopride, mesmo em doses extremamente baixas, inibe o apetite nos pardais. Ficam letárgicos e perdem o interesse na comida. "Num estudo feito anteriormente, com aves em cativeiro, aconteceu exatamente o mesmo.”

O estudo a que Morrissey se refere foi publicado em 2017 na Scientific Reports.

Isto não é surpreendente, porque quimicamente os neonicotinóides são semelhantes à nicotina e estimulam as células nervosas – e em doses elevadas podem matar as células. O envenenamento por nicotina em humanos é raro, porque o consumo em excesso deixa as pessoas demasiado doentes para conseguirem continuar a consumir. Em doses baixas, a nicotina também suprime o apetite nos humanos. Parece que está a acontecer o mesmo com as aves.

Ressaca de neonicotinóide
Os pardais capturados foram libertados depois da segunda pesagem – e ficaram com um transmissor minúsculo colado entre as asas. O transmissor permitiu rastrear os seus movimentos na natureza. Os pardais expostos à dosagem não continuaram logo a sua migração, ao contrário do que aconteceu com os outros. Os pardais com dosagens mais elevadas ficaram no local durante mais de 72 horas, a recuperar da intoxicação e do peso perdido, concluiu o estudo.

Felizmente, o imidaclopride metaboliza rapidamente nas aves. Mas este atraso extra na migração pode significar que esses pardais perdem a possibilidade de procriar, diz Morrissey. "Os pássaros pequenos só se reproduzem uma ou duas vezes durante a vida, e perder essa oportunidade pode desencadear o declínio de uma população".

"Quando as aves migram, precisam desesperadamente de ganhar peso nos pontos de paragem, ao longo do caminho, para suportar a jornada", diz Steve Holmer, da American Bird Conservancy.

O novo estudo mostrou que os pardais com dosagens mais baixas perderam gordura corporal crucial, com uma média de 9%, enquanto que nas aves com doses mais elevadas esse número subiu para os 17%. A exposição a um neonicotinóide pode fazer com as aves não tenham a "energia necessária para procriar com sucesso, depois de voarem até às zonas de acasalamento", escreveu Holmer por email.

David Fischer, cientista-chefe da divisão de segurança de polinizadores da Bayer Crop Science, a principal fabricante de imidaclopride, diz não existirem evidências de que os níveis de dosagem administrados no estudo "sejam representativos dos níveis de exposição encontrados pelas aves nos campos agrícolas do mundo real".

Os pássaros mais pequenos, como os pardais-brancos-coroados, são "incapazes de engolir sementes grandes, como milho ou soja", escreveu Fischer por email.

Contudo, num novo estudo publicado no dia 10 de setembro, na Science of The Total Environment, Charlotte Roy apresenta registos de diferentes espécies de pardais e outras aves, juntamente com ratos, veados e até ursos, que comem sementes tratadas de milho, soja e trigo. Charlotte, ecologista de vida selvagem no Departamento de Recursos Naturais do Minnesota, diz que as aves mais pequenas partem as sementes grandes e comem o que fica lá dentro ou os seus fragmentos.

“As aves não precisam necessariamente de consumir a semente toda para ficarem expostas”, disse Charlotte em entrevista.

No seu estudo, Charlotte e a equipa simularam derramamentos de sementes durante o plantio da primavera, para ver se os animais selvagens eram atraídos para essa fonte de alimento. Em média, os pássaros encontraram os derramamentos em pouco mais de 24 horas. E a equipa também encontrou sementes tratadas com neonicotinóides na superfície do solo, em 35% dos 71 campos plantados recentemente.

Foi um primeiro olhar para saber se as sementes tratadas estavam prontamente disponíveis para serem consumidas pela vida selvagem na América do Norte. "A taxa de derramamento de sementes foi muito maior do que se esperava", diz Charlotte.

“Os agricultores não fazem geralmente ideia do mal que estas sementes tratadas fazem à vida selvagem.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler