Maior Área Marinha Protegida do Atlântico Quase Oficial

Uma pequena ilha, no cume de uma vasta cadeia montanhosa subaquática, abriga uma diversidade enorme de espécies.segunda-feira, 2 de setembro de 2019

A colónia de andorinhas-escuras-do-mar na Ilha de Ascensão.
A colónia de andorinhas-escuras-do-mar na Ilha de Ascensão.
fotografia de Clare Fieseler, Nat Geo Image Collection

Os mais de 440.000 km2 de mar que rodeiam a Ilha de Ascensão, um dos ecossistemas oceânicos mais imaculados e bio diversificados do mundo, estão prestes a ser oficialmente protegidos.

À superfície, a Ilha de Ascensão – um ponto vulcânico minúsculo no meio do Oceano Atlântico, entre o Brasil e a costa oeste de África – parece remota e isolada.

A pequena ilha fica no cume de um vulcão subaquático que tem mais de 3.000 metros, na cordilheira do Atlântico, uma das cadeias montanhosas mais longas do planeta.

No dia 24 de agosto, o governo da Ilha de Ascensão anunciou planos para converter as suas águas nacionais em área marinha protegida e, dois dias depois, o governo do Reino Unido revelou que ia dedicar 7 milhões de libras (7.6 milhões de euros) à conservação marinha.

Em princípio, parte desse dinheiro será usado na manutenção da área marinha protegida (AMP) da Ilha de Ascensão, que custa cerca de 165.000 euros por ano. A área total protegida tem quase o dobro do tamanho de todo o Reino Unido, e é maior do que o estado da Califórnia.

O governo do Reino Unido ainda não avançou detalhes sobre o orçamento, e a AMP só entrará oficialmente em vigor quando isso acontecer. (Até ao momento da publicação deste artigo o governo do Reino Unido ainda não tinha fornecido informações adicionais.)

"Estamos a 90% do caminho", diz Adrian Gahan, diretor-geral do projeto Pristine Seas da National Geographic Society no Reino Unido – uma iniciativa que visa proteger 20 dos lugares mais selvagens do oceano até 2020. Gahan esteve envolvido nas negociações deste parque marinho. A Ilha de Ascensão será a 22ª reserva marinha que o projeto Pristine Seas ajuda a criar.

“A comunidade local estava a pedir isto. E o governo do Reino Unido, em princípio, pode suportar esta iniciativa. A tecnologia está disponível. Só falta o governo britânico assumir um compromisso por escrito a dizer que financia a AMP", diz.

O que tentam proteger?
Em questão está um vasto ecossistema subaquático com inúmeras espécies marinhas.

Rebentação de uma onda inesperada.
Rebentação de uma onda inesperada.
fotografia de Clare Fieseler, Nat Geo Image Collection

Em 2017, o Pristine Seas fez uma expedição à ilha para avaliar a riqueza de espécies nas suas águas nacionais. Paul Rose, o líder da expedição, ficou tão impressionado que nem conseguia decidir qual era a espécie que devia catalogar primeiro. Encontraram tubarões que raramente são vistos, atuns em migração e espécies de plâncton até então desconhecidas.

“É incrivelmente bonito”, diz Paul, “e a abundância de vida marinha é impressionante.”

“Estar no mar e conhecer uma vasta cadeia montanhosa nas profundezas transmite uma sensação de energia, beleza e poder", acrescenta.

A nova AMP vai vedar o acesso às indústrias de pesca comercial e à extração mineira. Os especialistas dizem que as AMP ajudam a manter números elevados de populações essenciais de peixe. E podem originar o chamado "efeito de transbordamento", onde o número crescente de peixes dentro de uma AMP gera pescarias mais abundantes em regiões onde a pesca comercial é legal.

"Não existem dúvidas de que, para sobrevivermos enquanto espécie, vamos continuar a precisar de proteína do mar", diz Paul. "Áreas marinhas protegidas significam mais peixe para todos."

Parques marinhos – no papel e em prática
O governo do Reino Unido defende que 30% dos oceanos mundiais devem ser protegidos até 2030, e a ONU aproxima-se rapidamente do prazo delineado para proteger 10% dos oceanos até 2020.

Charles Darwin ficou tão fascinado com a singularidade desta formação geológica que lhe deu o nome de “Escola de Equitação do Diabo”.
Charles Darwin ficou tão fascinado com a singularidade desta formação geológica que lhe deu o nome de “Escola de Equitação do Diabo”.
fotografia de Clare Fieseler, Nat Geo Image Collection

As áreas marinhas protegidas já foram alvo de críticas por serem o que se chama de “parques de papel”, declarados no papel, mas nunca postos em prática ou monitorizados.

Gahan acredita que a AMP de Ascensão possa servir de modelo para a conservação marinha bem-sucedida, em parte porque a reserva foi negociada com a adesão de todos os habitantes locais. A ilha abriga menos de 1.000 pessoas, a maioria das quais trabalha na base militar ou no comércio local. Não tem população indígena.

Grande parte da monitorização será feita por satélite.

“Há muitos anos, a única forma de monitorizar as atividades ilegais era através de aeronaves de reconhecimento ou embarcações de patrulha”, diz Paul. "Agora, temos uma observação por satélite muito eficaz."

Os 165.000 euros da manutenção anual da AMP serão usados em barcos e viagens de patrulha, e em equipas de monitorização.

“Se o governo do Reino Unido não avançar com o financiamento, será apenas outro parque de papel. Não teremos a equipa, o barco e a infraestrutura para o proteger", alerta Gahan.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler