Tampões, Pensos Higiénicos e Sustentabilidade

A combinação entre tecnologia e pressão social deu origem a produtos de higiene carregados de plástico. Existe uma solução melhor?segunda-feira, 16 de setembro de 2019

O plástico faz parte da vida moderna e a menstruação não é exceção. Muitos dos tampões e pensos higiénicos começaram a incluir plástico no seu design básico em meados do século XX – algumas vezes por razões que "melhoravam" o design, mas muitas vezes por questões mais triviais.

Ter uma noção do lixo plástico presente nos produtos dedicados à menstruação é difícil, em parte porque são rotulados de lixo médico e dispensam rastreio, e em parte porque as investigações sobre a dimensão do problema são escassas. Contudo, as estimativas sobre a produção provável destes produtos são surpreendentes: só em 2018, nos EUA, foram vendidos 5.8 mil milhões de tampões e, ao longo de uma vida, uma mulher usa entre 5.000 e 15.000 pensos higiénicos e tampões, a grande maioria acaba em aterros sob a forma de lixo plástico.

Tentar dissociar o plástico dos cuidados menstruais vai exigir mais do que uma inovação de design, porque as razões pelas quais o plástico está tão enraizado nestes produtos estão entrelaçadas numa teia de cultura, vergonha, ciência e mais.

Problema menstrual do plástico
Nos EUA, a maioria das mulheres é menstruada durante cerca de 40 anos, cerca de 5 dias por mês, ou cerca de 2.400 dias ao longo da vida – ao todo, são cerca de 6 anos e meio.

Todo esse fluido menstrual tem de ir parar a algum lado. Geralmente termina num tampão ou penso higiénico e, depois do seu breve momento de utilidade, esses produtos acabam no lixo.

Os Plásticos Explicados Em Minutos

Os mais comuns são uma verdadeira cornucópia de plástico. Os tampões são embalados em plástico, envoltos em aplicadores de plástico, com fios de plástico e muitos até incluem uma fina camada de plástico na parte absorvente. Os pensos têm geralmente ainda mais plástico, desde as bases à prova de fugas, aos elementos sintéticos que absorvem o fluido.

Para Ann Borowski, que investigou os impactos ecológicos destes produtos de higiene, os números são avassaladores.

"Eu não quero contribuir com 40 anos de lixo para um aterro sanitário, apenas para gerir algo que nem deveria ser encarado como um problema", diz. “Creio que já devíamos ter algum tipo de controlo sobre esta situação. Não quero deixar este fardo no planeta.”

Breve história da gestão menstrual
Na Grécia antiga, o sangue menstrual era visto pelos escritores da época como uma coisa fundamentalmente insalubre, um símbolo do excesso feminino, um “humor” que precisava de ser expulso do corpo da mulher para esta manter o equilíbrio e a saúde. O próprio sangue era considerado doentio – e venenoso. E durante séculos, esta atitude persistiu na sua generalidade.

Em meados do século XVIII, nos EUA, a cultura em torno da menstruação transformou-se numa narrativa simples: o sangue do período era encarado como "sangue mau", sujo e vergonhoso, diz Chris Bobel, especialista em menstruação na Universidade de Massachusetts, em Boston.

Mas a menstruação era uma realidade inevitável que precisava de ser encarada. Nos EUA, antes do século XX, as mulheres usavam uma abordagem de "bricolagem" para gerir a menstruação, convertendo todo o tipo de itens comuns em objetos semelhantes a pensos ou tampões, explica a historiadora Susan Strasser. Ou seja, usavam restos de tecidos, tiras suaves de cascas de árvores ou qualquer outra coisa disponível que fosse absorvente. Mas estas soluções deixavam muito a desejar. Geralmente eram coisas volumosas e difíceis de manusear, e tinham de ser lavadas e postas a secar – o que significava que eram exibidas publicamente, uma situação pouco desejável numa cultura que estigmatizava a menstruação.

Em 1921, a primeira embalagem de Kotex foi vendida numa farmácia. E assim começou uma nova era: a era do produto menstrual descartável.

Os produtos da Kotex eram feitos de Cellucotton, um algodão extremamente absorvente à base de plantas, que tinha sido desenvolvido durante a Primeira Guerra Mundial para ser usado pelos médicos. As enfermeiras começaram a converter este material em pensos absorventes, e a prática continuou.

Algumas mulheres com vidas fisicamente mais exigentes, como bailarinas e atletas, começaram a gravitar para outro produto emergente: os tampões. Na década de 1930, os tampões não eram muito diferentes dos que encontramos atualmente à venda. Geralmente eram feitos de um algodão denso, ou de um material semelhante a papel, com um fio.

O que todos os novos produtos partilhavam em comum era o facto de serem descartáveis. As campanhas publicitárias vendiam a ideia de que estes produtos faziam as "mulheres felizes, equilibradas, eficientes e modernas", livres da tirania das antigas estratégias de improviso. (Descartáveis também significava que precisavam de comprar produtos todos os meses, ficando reféns de um investimento que se prolongaria durante décadas.)

“Desde o início, estas empresas fomentaram a ideia de que as mulheres, para serem modernas, tinham de utilizar produtos descartáveis”, diz Sharra Vostral, historiadora na Universidade de Purdue.

Com o aumento das mulheres no mercado de trabalho, o apelo e omnipresença dos descartáveis também começou a aumentar. Os produtos, prontamente disponíveis em muitas farmácias, ofereciam conveniência e discrição – as mulheres não tinham de se preocupar em levar panos usados do trabalho para casa. E também lhes permitiu passarem despercebidas enquanto escondiam as suas funções corporais de outras pessoas, e o trabalho continuava ininterruptamente.

“A norma tem sido essa”, diz Bobel, “a de que as raparigas e mulheres precisam de se vergar às normas e padrões dos locais de trabalho, para serem ultra eficientes. Vocês não podem deixar que o vosso corpo as abrande, é a mensagem.”

O resultado foi uma mudança de paradigma no mercado. Nos EUA, no final da Segunda Guerra Mundial, as vendas de produtos menstruais descartáveis quintuplicaram.

Plástico nos pensos higiénicos?
Na década de 1960, os engenheiros químicos estavam ocupados a desenvolver plásticos sofisticados e outros produtos sintéticos. A tecnologia evoluiu tão depressa que os fabricantes se viram obrigados a procurar mercados diferentes para incorporar estes novos materiais.

E um dos mercados que encontraram foi o dos produtos de menstruação.

Os pensos higiénicos começaram a ter polipropileno ou polietileno, materiais flexíveis e à prova de fugas (ou, em termos de patente, “folha inferior”). Os avanços nas tecnologias de materiais adesivos reforçaram a utilização de plásticos flexíveis, que possibilitavam a aderência dos pensos à roupa interior, em vez de ficarem presos a um cinto – um sistema complexo e volumoso. No final da década de 1970, os designers perceberam que conseguiam fazer abas de plástico que envolviam a roupa interior, prendendo o penso. E descobriram formas de tecer fibras finas de poliéster, para a parte mais esponjosa do penso, redirecionando o fluido para o interior dos núcleos de absorção, que estavam a ficar cada vez mais pequenos com a chegada de materiais absorventes mais sofisticados.

“Todas estas inovações parecem incrementais”, diz Lara Freidenfelds, historiadora que entrevistou dezenas de mulheres sobre as suas experiências menstruais – para o o livro O Período Moderno –  “mas estes desenvolvimentos trouxeram melhorias significativas”.

“Pensos adesivos, ou com abas, parecem melhorias insignificantes, mas as pessoas falavam sobre isso como se fosse uma coisa realmente importante. E diziam que melhorava substancialmente as suas vidas”, diz Lara.

Os tampões e a invasão do plástico
No início do século XX, muitos dos médicos, e o público em geral, estavam reticentes em relação à ideia de as mulheres – sobretudo as mais jovens – poderem entrar em contacto com os seus órgãos genitais durante a inserção do tampão. Quem o diz é Elizabeth Arveda Kissling, especialista em estudos de género na Universidade Eastern Washington e autora do livro Capitalizar na Maldição: O Negócio da Menstruação.

Os inventores devem ter pensado que, para o tampão poder ser inserido de forma menos "depreciativa" e higiénica, precisavam de um aplicador.

A primeira patente para tampões registada nos EUA, em 1929, incluía um design para um tubo aplicador feito de cartão. Mas também existiam propostas com aço inoxidável e até vidro. Na década de 1970, os plásticos podiam ser moldados em formas arredondadas, finas e flexíveis – perfeitas para aplicadores de tampões, pensaram alguns designers.

Mas não é só o aplicador que é feito de plástico: muitos tampões têm bocados de plástico no próprio absorvente – uma camada fina que mantem o algodão no lugar. E em alguns casos, o fio é feito de poliéster ou polipropileno.

Opções de privacidade
Nos EUA, em meados do século XX, as empresas mais proeminentes no mercado de produtos menstruais competiam ferozmente por clientes, mas sem os avanços tecnológicos que as distinguissem. Assim, encontraram formas de oferecer cada vez mais opções de discrição na compra, utilização e descarte.

A obsessão com a discrição era um desejo antigo. Na década de 1920, a Johnson & Johnson começou a imprimir cupões nos seus anúncios publicitários em revistas, para os absorventes do modelo “Modess”. As mulheres podiam entregar discretamente estes cupões nas farmácias para receberem uma embalagem – quase sem identificação – em troca.

Mas, à medida que as atenções se viravam para os produtos descartáveis e para a portabilidade, e com os próprios produtos a diminuírem de tamanho, o foco das embalagens passou a ser o produto individual. As mulheres precisavam de poder guardar higienicamente os produtos na sua mala, transportá-los da secretária até à casa de banho e daí para o caixote do lixo.

Isto significava embalagens de plástico para tudo. Em 2013, os projetos para embalagens mais discretas atingiram o seu auge, quando a Kotex introduziu um tampão com um "invólucro mais macio e discreto", projetado para ser desembrulhado silenciosamente. E também existem plásticos que ajudam no processo de descarte dos produtos. Algumas casas de banho públicas têm sacos de plástico perfumados, prontos para guardar disfarçadamente os tampões e pensos depois de usados.

“Continuamos a vender vergonha com os produtos para a menstruação”, diz Kissling.

O plástico é o futuro?
Os novos modelos com embalagens de plástico melhoraram bastante a experiência de muitas mulheres. Mas também fizeram com que gerações de mulheres, menstruadas ou não, ficassem dependentes de produtos de plástico que permanecerão no ambiente, pelo menos durante 500 anos, após o seu breve tempo de vida útil.

Mas não é obrigatório que assim seja. Na Europa, muitos dos tampões são vendidos sem aplicadores. Nos EUA, o interesse em alternativas está a crescer: numa sondagem feita recente, quase 60% das mulheres inquiridas estavam a considerar mudar para produtos reutilizáveis (cerca de 20% já os usam).

PLANETA OU PLÁSTICO?
Coisas que pode fazer para ajudar:
1. Experimente copos de menstruação ou produtos reutilizáveis.
2. Opte por tampões feitos de fibras naturais e sem aplicador.

"É uma grande mudança na forma como as mulheres encaram a gestão da menstruação", diz Susannah Enkema, investigadora que trabalhou na sondagem do Shelton Group.

Uma das alternativas populares é o penso reutilizável, uma versão melhorada de uma tecnologia muito antiga. Mas também há quem adote os copos de menstruação, outra tecnologia antiga que viu a sua popularidade ressurgir recentemente. Algumas empresas estão a projetar roupa interior que absorve diretamente o sangue da menstruação, podendo ser lavada e usada repetidamente, enquanto que outras mulheres optam por sangrar livremente durante o período, ignorando o estigma tradicional que recai sobre uma das realidades biológicas mais básicas.

E derrubar o estigma em torno da menstruação, diz Bobel, é fundamental para rumarmos em direção a um futuro social e ambientalmente mais consciente.

“Não estou a dizer que não precisamos de algo para o sangue menstrual, mas, ao mesmo tempo, também reconheço que nos estamos a enganar a nós próprias quando dizemos que a promoção de determinado produto vai acabar com o estigma... porque não vai.”

Bobel acredita que essas mudanças vão acontecer, mas só depois do tom das conversas se alterar.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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