Meio Ambiente

Alterações Climáticas: Países que Estão a Atingir as Metas

Depois da cimeira nas Nações Unidas sobre as alterações climáticas, que teve lugar no dia 23 de setembro, analisamos as nações que estão bem encaminhadas para cumprir as metas climáticas e as que não estão a conseguir.quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Por Kieran Mulvaney
A enorme estação de energia solar de Marrocos, aqui retratada, gera eletricidade suficiente para abastecer duas cidades do tamanho de Marraquexe. Marrocos é um de dois países que estão a atingir as metas para limitar as emissões aos níveis do Acordo de Paris.

Passaram quase 4 anos desde que 196 países negociaram o Acordo de Paris, onde se comprometeram a tomar medidas para limitar a subida da temperatura média global, durante este século, para níveis inferiores a 2 graus Celsius relativamente aos níveis pré-industriais e, finalmente, limitar a subida aos 1.5 graus. Nos termos do acordo, cada signatário submete o seu próprio plano nacional, estabelecendo metas para a redução das emissões e especificando as vias pelas quais pretende alcançar esse objetivo.

Apesar do acordo de 2015, as emissões globais de carbono aumentaram 1.7% em 2017 e outros 2.7% em 2018. Estima-se que a taxa de aumento para 2019 esteja entre as mais altas algumas vez registadas. Os últimos 4 anos também foram os mais quentes de que há registo, com 2019 a continuar essa tendência, passando para 5 anos de temperaturas recorde. Mas as análises sugerem que, se agirmos de imediato, conseguimos reduzir as emissões de carbono dentro de 12 anos e manter os aumentos globais abaixo dos 2 graus e, com sorte, nos 1.5 graus.

Há países a fazer progressos? De que forma? Reunimo-nos com o Climate Action Tracker (CAT) para saber quais são as nações que se estão realmente a esforçar e as que continuam a manter uma atitude negligente. O CAT abrange todos os grandes emissores de carbono, e também abrange uma amostra representativa dos emissores mais pequenos. Os dados cobrem cerca de 80% das emissões globais e aproximadamente 70% da população mundial, e classificam os países com base na probabilidade de cumprirem as metas do Acordo de Paris. Os dados também analisam se estas ações, caso sejam replicadas por outras nações, conseguem limitar o aquecimento aos 1.5 graus.

"Os grandes emissores que estão a adotar medidas para limitar a subida das temperaturas aos 1.5 graus são poucos, mas alguns, como a Índia, a União Europeia e a China, podem avançar com metas mais exigentes", diz Bill Hare, CEO da Climate Analytics, uma das organizações constituintes do CAT.

“No entanto, mesmo que todos os governos consigam atingir a meta do Acordo de Paris, calculamos que o mundo ainda possa assistir a uma subida de 3 graus. Este aquecimento pode ser ainda mais elevado, já que a maioria dos países não está a tomar as medidas necessárias para atingir as suas próprias metas. Ainda temos um longo caminho para percorrer”, diz Hare.

Eis um resumo das nações que se estão a esforçar e as que ainda não despertaram.

MELHORES CLASSIFICADOS
Marrocos:
De acordo com o CAT, Marrocos é um dos dois únicos países com um plano para reduzir as suas emissões de CO2 a um nível consistente com a limitação da subida da temperatura de 1.5 graus. A Estratégia Nacional de Energia de Marrocos pretende atingir uma produção de eletricidade a partir de fontes renováveis a rondar os 42% até 2020, e atingir os 52% até 2030. Neste momento, está em 35%, sobretudo devido aos investimentos feitos em projetos como o complexo Noor Ouarzazate, a maior quinta solar concentrada do mundo, que cobre uma área do tamanho de 3.500 campos de futebol e gera eletricidade suficiente para abastecer duas cidades do tamanho de Marraquexe.

Gâmbia: O outro país com uma estratégia para reduzir as emissões e atingir os 1.5 graus é a Gâmbia. Tal como em Marrocos, um dos principais caminhos para esta redução recai na utilização de energias renováveis, na forma de um programa que aumentará a capacidade de eletricidade do país em 80%, em parte através da construção de uma das maiores estações fotovoltaicas da África Ocidental. O país também lançou um enorme projeto para restaurar 10.000 hectares de florestas, zonas húmidas e savanas. E também está substituir os arrozais de irrigação por campos de arroz de sequeiro, e a promover a adoção de fogões eficientes para reduzir o uso excessivo de recursos florestais.

Índia: País que emergiu como líder global em energias renováveis e, de facto, está a investir mais neste tipo de energias do que em combustíveis fósseis. Tendo estabelecido o objetivo de obter 40% da sua energia através de fontes renováveis até 2030, o progresso da Índia foi tão rápido que o país consegue facilmente atingir esta meta com uma década de antecedência, existindo até a possibilidade de estabelecer uma meta mais eficiente. O CAT calcula que o plano da Índia é compatível com o aumento de 2 graus, mas o Plano Nacional de Energia desta nação pode ser compatível com os 1.5 graus, isto se o país abandonar os planos que tem para construir novas fábricas a carvão.

Costa Rica: País que pretende que a sua produção de eletricidade seja 100% renovável até 2021, e já está muito perto de o conseguir: em 2018, gerou 98% a partir de fontes renováveis – principalmente hidroelétricas – pelo quarto ano consecutivo. Na Costa Rica, os transportes públicos são responsáveis por cerca de 66% das emissões e o país fez com que o uso de energia renovável fosse uma prioridade nacional nas suas estradas. O Plano Nacional de Transportes Elétricos exige que pelo menos 5% da frota de autocarros seja substituída por veículos elétricos a cada 2 anos. E também exige que pelo menos 10% das novas licenças para táxis sejam concedidas a veículos elétricos. Para além disso, em fevereiro de 2019, a Costa Rica prolongou a sua moratória sobre a extração e exploração de petróleo, de 2021 para finais de 2050.

União Europeia: A UE adotou relativamente cedo as metas climáticas. Em 2009, estabeleceu o objetivo de reduzir as emissões em 20% até 2020; a meta de Paris aumentou essa redução para os 40% até 2030. As políticas atuais da UE, se forem completamente promulgadas, podem permitir que se ultrapasse este objetivo. Em maio, a UE adotou formalmente uma série de medidas que incluem uma meta vinculativa para atingir os 32% da produção de eletricidade através de fontes renováveis até 2030. Para alcançar este número em toda a UE, os vários países da união adotaram diferentes metas nacionais: por exemplo, a meta para as fontes renováveis em Malta está nos 10%, enquanto que na Suécia está nos 49%.
O CAT calcula que o cumprimento desta e de outras metas contidas no pacote "Energia limpa para todos os europeus" da Comissão Europeia pode resultar numa redução nas emissões a rondar os 48% até 2030; um estudo separado concluiu que melhorar ainda mais as metas de eficiência energética, fechando as fábricas de carvão na UE até 2030, pode alavancar ainda mais esse número para os 58%. Contudo, como a UE é coletivamente o terceiro maior emissor de CO2, a seguir à China e aos Estados Unidos, esta meta pode colocar os países europeus na faixa de redução compatível com os 2 graus.

COM POTENCIAL
Noruega:
As emissões da Noruega devem diminuir apenas 7% até 2030, e as políticas implementadas pelo país são consistentes com um aquecimento entre os 3 e os 4 graus. No entanto, existem sinais de progresso – o estabelecimento de uma meta ambiciosa para uma redução de 40% nas emissões até 2030; e a adoção de uma legislação que compromete o país a reduzir as emissões entre os 80% e os 95% até 2050. Em junho, o parlamento norueguês concordou em reduzir os investimentos do seu Fundo Soberano, de 1 bilião de euros, no petróleo, gás e carvão, desviando recursos para projetos de energia renovável. A Noruega também é líder mundial na adoção de veículos elétricos; em março, quase 60% dos carros novos vendidos no país eram elétricos. A sua cobertura florestal também está a aumentar e a produção de eletricidade provém quase inteiramente de fontes renováveis: 96% de fontes hidroelétricas e 2% de parques eólicos.

China: As boas notícias: a China está a caminho de cumprir as suas metas do Acordo de Paris. As más notícias, de acordo com o CAT: estas metas são lamentavelmente inadequadas e pouco ambiciosas para limitar o aquecimento aos 2 graus, muito menos atingir os 1.5 graus, conforme exigido pelo Acordo. As emissões de CO2 da China – atualmente as maiores do mundo – registaram um aumento estimado de 2.3% em 2018. Com as políticas atuais, estima-se que as emissões da China aumentem até pelo menos 2030, embora um estudo recente tenha concluído que podem atingir o pico uma década mais cedo. O governo chinês financiou fortemente o fabrico de carros elétricos e procurou reduzir o número de carros a gasolina nas estradas; em 2018, os consumidores chineses compraram 1.1 milhões de veículos elétricos – mais do que o resto do mundo todo combinado. A China é o maior fabricante de tecnologia solar do mundo, mas também é o maior consumidor de carvão e está a financiar a construção de fábricas a carvão pelo mundo inteiro.

Reino Unido: O Reino Unido é um caso interessante. Por um lado, entre 1990 e 2018, o país reduziu as suas emissões em 44% e a economia cresceu 75%. O governo declarou uma emergência climática e, em junho, aprovou uma legislação que codifica uma meta de zero emissões líquidas até 2050. (Isto com o governo anterior; o novo primeiro-ministro, Boris Johnson, não acredita nas alterações climáticas.) No entanto, o próprio Comité Sobre Alterações Climáticas do governo britânico informou que o país está muito atrasado em relação a muitos dos seus objetivos climáticos a longo prazo, e a nação está repleta de incertezas políticas que podem afetar diretamente as políticas nesta área. Se a Grã-Bretanha abandonar a União Europeia com um Brexit sem acordo, fica excluída do Sistema de Comércio de Emissões da UE, por exemplo.

MAIS NEGLIGENTES
Rússia:
O quarto maior emissor de gases de efeito estufa e o único grande emissor que ainda não tinha ratificado o Acordo de Paris, embora o tenha feito recentemente na cimeira da ONU, a Rússia está a caminho de cumprir a sua meta de Paris. Mas o seu compromisso é muito fraco: permitindo um aumento de emissões no país entre os 6% e os 24% até 2020, e de 15% a 22% até 2030. A meta também não exige que o governo adote uma estratégia de desenvolvimento económico de baixo carbono. Os dados internos sobre as emissões são escassos, opacos e desatualizados, dificultando a confirmação sobre o progresso ou sua ausência.
Pela primeira vez, a Rússia está a considerar uma legislação para regular as emissões e o presidente Vladimir Putin reconheceu que a Rússia está sentir os impactos das alterações climáticas. No entanto, o presidente russo também se mostrou contra o "abandono por completo da energia nuclear ou de hidrocarbonetos", perguntando metaforicamente se seria "confortável para as pessoas viverem num planeta coberto de turbinas eólicas e com inúmeras camadas de painéis solares". E também disse que "as turbinas vibram tanto que os vermes até saem do chão.”

Arábia Saudita: A Arábia Saudita parece estar a recuar nos seus esforços para reduzir as emissões. A estratégia Visão 2030 de 2016 do governo é menos ambiciosa do que um plano de 2013 que pedia ao setor energético do país para diversificar a sua dependência de petróleo. Embora a estratégia Visão 2030 afirme que a Arábia Saudita tem planos para eliminar gradualmente o financiamento dos combustíveis fósseis, em dezembro de 2017 o governo anunciou que reduziria faseadamente os financiamentos para "melhorar a economia". E o reino mantém uma cláusula de retirada das metas do Acordo de Paris caso decida que o mesmo impõe um “ónus anormal” sobre a sua economia, reduzindo os rendimentos obtidos através de combustíveis fósseis.
Em março de 2018, a Arábia Saudita e o Grupo SoftBank assinaram um memorando de entendimento para construir uma estação de energia solar de 200 gigawatts, o maior projeto solar individual do mundo; mas em dezembro, o projeto foi cancelado. O CAT estima que os planos atuais podem resultar num aumento de emissões a rondar os 80%, relativamente aos níveis de 2015, até 2030.

Turquia: A Turquia é um dos dois únicos países do G20 que não ratificou o Acordo de Paris e, embora o governo se tenha comprometido a investir quase 11 mil milhões de euros em medidas de eficiência energética, o país espera alcançar a autossuficiência energética através de uma expansão maciça de fábricas a carvão. No total, existem 80 fábricas novas em construção, o equivalente à capacidade de todo o setor energético do Reino Unido. A fábrica de Afşin-Elbistan, no sul da Turquia, está a ser remodelada para se tornar na maior fábrica a carvão do mundo. A CAF (Estrutura Comum de Avaliação) classificou as metas de Paris da Turquia como "criticamente insuficientes", calculando que se a maioria dos outros países seguisse a abordagem da Turquia, o aquecimento global excederia os 3 ou 4 graus.

Ucrânia: País que parece estar a dirigir-se na direção errada. Na Ucrânia, os dados mais recentes (de 2016) mostram que as emissões, a indústria, a agricultura e as fontes de resíduos caíram 64% abaixo dos níveis de 1990, algo que se pode dever à queda da antiga União Soviética. Ainda assim, o CAT realça que "a atual meta climática da Ucrânia pode aumentar substancialmente as suas emissões em relação aos níveis atuais".
Em 2018, a Ucrânia publicou uma Estratégia de Desenvolvimento de Baixas Emissões para 2050 que, se for completamente implementada, pode permitir o alcance das metas do Acordo de Paris. No entanto, o governo anterior disse que só iria rever o seu compromisso depois de "restaurar a integridade territorial e a soberania do Estado", levando os ativistas a acusar o país de usar o conflito contra os rebeldes apoiados pela Rússia para justificar a inação climática.

Estados Unidos: Por onde começar? O CAT já classificou as metas de Paris dos EUA como "insuficientes" e, com a hostilidade contínua do governo Trump em relação às ações climáticas, os esforços do país estão agora classificados como "criticamente insuficientes", a classificação mais baixa. Entre as mudanças que a atual administração está a tentar fazer nas políticas climáticas do governo anterior estão: tentar reverter o Plano de Energia Limpa; alargar os limites nos padrões de eficiência dos veículos (a tal ponto que até os próprios fabricantes de automóveis se opuseram); anunciar planos para enfraquecer os limites de emissão de hidrofluorcarboneto; e regular as fugas de metano na produção de petróleo e gás.
O governo tem trabalhado para censurar ativamente as ciências climáticas dentro das suas próprias agências e estabeleceu um painel de revisão que tem como objetivo questionar as conclusões da Avaliação Nacional do Clima do país. O líder do supracitado painel também nega a existência das alterações climáticas e afirma que "a demonização do dióxido de carbono é igual à demonização dos pobres judeus feita por Hitler".
O CAT estima que, se forem implementadas na sua totalidade, as políticas desta administração podem provocar um aumento nas emissões anuais até 2030, atingindo números equivalentes aos das emissões anuais totais do estado da Califórnia.
E a atual administração também mostrou a intenção de se retirar do Acordo de Paris em 2020.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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