Meio Ambiente

Bali Luta Para Salvar Praias Maravilhosas do Desperdício Plástico

Desde plásticos descartáveis à educação, Bali está a tentar preservar a sua reputação imaculada e salvar a indústria do turismo.terça-feira, 22 de outubro de 2019

Por Amanda Tazkia Siddharta
Fotografias Por Nyimas Laula
Turistas a passear a cavalo na praia de Kedonganan, em Bali, no dia 27 de janeiro de 2019. Todos os anos, durante a estação das chuvas, entre novembro e março, toneladas de lixo dão à costa, ganhando o apelido de estação do lixo.
Turistas a passear a cavalo na praia de Kedonganan, em Bali, no dia 27 de janeiro de 2019. Todos os anos, durante a estação das chuvas, entre novembro e março, toneladas de lixo dão à costa, ganhando o apelido de estação do lixo.

Quando pensamos em Bali, qual é a primeira coisa que nos vem à cabeça? Muito provavelmente as suas belas praias imaculadas. Mas no arquipélago indonésio, as praias desta ilha paradisíaca têm cada vez mais plástico e menos conchas.

O desperdício plástico está a acumular-se em Bali, alimentado pela falta de infraestruturas – ou de um plano oficial – para lidar com a situação. O problema é exacerbado pelo crescimento do turismo, com as praias repletas de sacos e garrafas de plástico, para além das práticas culturais de longa data e da falta de uma consciencialização sobre o ciclo de vida do plástico, desde o momento em que é descartado no mar até que dá à costa sob a forma de lixo.

Em 2015, num estudo publicado na Science sobre os 20 países com a pior gestão de lixo plástico, a Indonésia estava em segundo lugar. Em 2010, o país gerou 3.2 milhões de toneladas de plástico e quase metade acabou no mar. Neste estudo, a China ficou em primeiro lugar e os Estados Unidos em vigésimo. O governo indonésio emitiu números para a National Geographic que eram inferiores aos do estudo, mas o resultado final é o mesmo: na Indonésia, a maioria do lixo plástico não tem uma boa gestão.

Bali está a tentar lidar com o problema do plástico e existem alguns destaques neste esforço. No final de 2018, o governador de Bali, Wayan Koster, anunciou a proibição de sacos de plástico, do poliestireno e das palhinhas de plástico. O governo indonésio também prometeu reduzir o lixo plástico marinho em 70% até 2025. E o governo de Bali está a converter o maior aterro da ilha, o aterro de 32 hectares de Suwung, na capital Denpasar, num parque ecológico para produzir energia a partir de resíduos.

Mudar a mentalidade

Esquerda: Os visitantes costumam levar comida para a praia de Tegal Wangi, para assistirem ao pôr do sol, mas geralmente deixam o lixo para trás.
Direita: Turistas ajudam a limpar a praia de Batu Bolong.
Esquerda: Os visitantes costumam levar comida para a praia de Tegal Wangi, para assistirem ao pôr do sol, mas geralmente deixam o lixo para trás. Direita: Turistas ajudam a limpar a praia de Batu Bolong.

Alguns balineses estão a começar a agir, entre eles estão Melati e Isabel Wijsen, duas irmãs adolescentes que, há 6 anos atrás, quando tinham 12 e 10 anos, criaram a Bye Bye Plastic Bags. Esta organização tornou-se numa das maiores organizações ambientais sem fins lucrativos de Bali.

“Mudar a mentalidade das pessoas está na nossa essência. Queremos ajudar as pessoas a compreender a importância do motivo pelo qual devem dizer não ao plástico”, diz Melati, agora com 18 anos.

E também diz que, desde que a Bye Bye Plastic Bags começou, muitos dos jovens em Bali começaram a ganhar mais consciência sobre o problema do lixo plástico.

“Há 6 anos, quando fomos a uma apresentação numa escola primária com 150 alunos, eles estavam todos muito animados. Mas quando fizemos a pergunta: o plástico é bom ou mau? Responderam todos em uníssono que o plástico era bom”, diz Melati.

Mas agora, nas salas de aula que visitam, praticamente todas as crianças dizem não aos sacos de plástico. “Tornou-se num tópico enraizado no quotidiano dos jovens”, acrescenta Melati. "Para nós, este é o grande impacto."

Soluções criativas

Esquerda: Perto de Tahura Ngurah Rai, as zonas húmidas intocadas estão poluídas com lixo plástico.
Direita: Gede Hendrawan, cientista marinho na Universidade de Udayana, diz que, nos últimos anos, as zonas húmidas transformaram-se em armadilhas para os resíduos de plástico.
Esquerda: Perto de Tahura Ngurah Rai, as zonas húmidas intocadas estão poluídas com lixo plástico. Direita: Gede Hendrawan, cientista marinho na Universidade de Udayana, diz que, nos últimos anos, as zonas húmidas transformaram-se em armadilhas para os resíduos de plástico.

A recente interdição governamental aos sacos de plástico descartáveis deu origem a contestações por parte dos produtores indonésios de plástico, que estão preocupados com o facto de a proibição prejudicar a sua indústria. Os produtores estão convencidos de que a gestão de resíduos deve ser melhorada, para além da redução na sua utilização. A Associação da Indústria de Plásticos da Indonésia (INAPLAS) disse que a proibição também iria dificultar as soluções criativas na gestão de resíduos plásticos.

A EcoBali é uma empresa que oferece precisamente essa solução. A separação do lixo é quase inédita em Bali, geralmente só o lixo doméstico é que é recolhido, e vai diretamente para o aterro.

Paola Cannucciari, que vive na Indonésia há mais de duas décadas, fundou a EcoBali em 2006. "Somos uma das organizações pioneiras na separação de resíduos, e só recolhemos produtos não orgânicos. Relativamente ao lixo orgânico, esperamos que as pessoas comecem a fazer compostagem e que consigam utilizar o nosso sistema de compostagem”, diz Paola.

A EcoBali recolhe resíduos não orgânicos separados e leva-os para uma instalação de triagem em Canggu, que envia depois o plástico reciclável para os centros em Java.

Esquerda: Trabalhadores colocam materiais de plástico no tapete rolante para serem lavados e triturados nas instalações de reciclagem Re>Pal, em Pasuruan, Java. Esta instalação transforma os sacos de plástico, as embalagens de plástico e algumas embalagens de alimentos em paletes de plástico que chegam a atingir uma tonelada.
Direita: Uma palete de plástico recém-moldada é inspecionada nas instalações de reciclagem Re>Pal, que processa 10.000 toneladas de plástico por ano – 240 toneladas vêm de Bali.
Esquerda: Trabalhadores colocam materiais de plástico no tapete rolante para serem lavados e triturados nas instalações de reciclagem Re>Pal, em Pasuruan, Java. Esta instalação transforma os sacos de plástico, as embalagens de plástico e algumas embalagens de alimentos em paletes de plástico que chegam a atingir uma tonelada. Direita: Uma palete de plástico recém-moldada é inspecionada nas instalações de reciclagem Re>Pal, que processa 10.000 toneladas de plástico por ano – 240 toneladas vêm de Bali.

A Avani Eco, empresa fundada por Kevin Kumala, desenvolveu um saco biodegradável, embalagens de alimentos e palhinhas de mandioca – um vegetal de raiz amiláceo que pode ser usado como uma alternativa ao plástico. Kumala afirma que o seu produto compostável é solúvel em água e não é tóxico.

"Acredito que existe algo para além da redução, reutilização e reciclagem", diz Kevin. "Também precisamos de redirecionar e substituir. Se continuarmos com as noções antigas, não é suficiente."

“Para este país conseguir escapar da epidemia do plástico, precisamos de ser mais criativos nas soluções que oferecemos.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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