Meio Ambiente

O que as Cidades Devem Fazer Para Cumprir os Objetivos Climáticos Globais até 2050

Até 2050, a maior parte das pessoas vai viver nas cidades. Um novo relatório define formas para manter as emissões controladas.quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Por Alejandra Borunda
A cidade de Munique, na Alemanha, tem planos para depender completamente de energias renováveis até 2025. O município já assinou um contrato para fornecer energia ao seu sistema ferroviário urbano, o S-Bahn, com energia vinda de um parque eólico ao largo do Mar do Norte.

Até 2050, cerca de 70% da população mundial vai fazer a sua vida quotidiana nas cidades. Isto inclui comer, viajar de casa para o trabalho e para a escola, refrescar durante os verões mais quentes, aquecer nos invernos mais frios e muito mais.

Atualmente, todas estas experiências têm custos energéticos com níveis de carbono muito elevados. Os habitantes das cidades, como um todo, são responsáveis por 75% de todas as emissões atuais de gases de efeito estufa. Mas não é imperativo que assim seja, destaca um novo relatório da Coalition for Urban Transitions – até 2050, com as tecnologias e políticas já existentes, as cidades podem reduzir as emissões de carbono em 90%.

A acontecer, seria um corte profundo nas emissões globais, levando-nos perto dos 60% dos cortes necessários para evitar o aquecimento, sem ultrapassar a meta dos 2 graus Celsius do Acordo de Paris de 2015.

"Grande parte da população vive nas cidades e a maioria das emissões também vem das cidades", diz Christiana Figueres, vice-presidente do Pacto Global Pelo Clima e Energia. "O clima evolui com as cidades."

Edifícios, edifícios, edifícios
As tecnologias e as políticas para tornar as cidades mais amigas do ambiente já existem, diz o relatório.

No Mar do Norte, o parque eólico DanTysk fornece energia sem carbono à cidade de Munique.

De acordo com os cálculos presentes no relatório, se os edifícios forem energeticamente mais eficientes, cerca de 30% de todas as emissões urbanas podem ser reduzidas até 2050. Os outros 30% podem ser atingidos eletrificando os grandes consumidores de energia que atualmente funcionam sobretudo através de combustíveis fósseis – como os sistemas de aquecimento e refrigeração, luzes e fogões – através de fontes renováveis, tanto solares como eólicas.

Isto significa selar todas as fugas nos edifícios, para não deixar sair o calor ou o ar frio. O melhor seria repensar as formas de construção para não dependermos tanto das tecnologias que necessitam de energia, e que se tornaram na norma em muitos dos projetos europeus e norte-americanos.

“Nós construímos edifícios com sistemas dispendiosos de climatização e iluminação, como se fossem correções técnicas, mas se o mesmo edifício fosse construído de uma forma que levasse em consideração o movimento da luz e do ar – algo que costumávamos fazer antes de esta tecnologia existir – provavelmente conseguíamos fazer uma coisa menos complexa”, diz Maureen Guttman, arquiteta e especialista em design de edifícios amigos do ambiente.

Redesenhar e modernizar os edifícios é um desafio enorme, mas sabemos como o fazer, diz Debbie Weyl, especialista em edifícios no World Resources Institute, que recentemente fez um relatório separado sobre o futuro dos edifícios sem emissões de carbono. Muitas das cidades estão a pedir ajuda para fazer exatamente isso. Na Cidade do México, por exemplo, um dos projetos que visa ajudar alguns edifícios a eliminar carbono tem tido muito sucesso. Em 2015, só existiam 4 edifícios neste programa, número que subiu depois para os 15. Atualmente, cerca de 800 edifícios por toda a cidade estão envolvidos em enormes projetos de redução de carbono.

O progresso tem de ser rápido e deve começar de imediato, salienta Weyl. As investigações anteriores sugerem que, para atingir as metas de Paris, os edifícios de todo o mundo precisam de ser cerca de 3% mais eficientes a cada ano, diz Weyl.

Outras questões por resolver
Adaptar os edifícios pode cortar 60% das emissões urbanas de carbono. Outra grande parte, pouco mais de 15%, recai na utilização de materiais diferentes na construção de edifícios, veículos, estradas e linhas férreas que sustentam a existência humana. Isto significa menos betão, aço e vidro.

“O edifício mais amigo do ambiente já existe”, diz Guttman.

Podemos obter outra redução de 20% se os transportes não dependerem de carbono. Nas cidades, isto pode ser conseguido através da construção de sistemas eficazes de transportes públicos, ou pela troca dos carros pessoais por sistemas de partilha.

Pessoas a esquiar em "Copenhill", uma pista de esqui artificial e área de caminhada no topo de uma incineradora, em Copenhaga, na Dinamarca. Para além de ser um espaço de lazer, esta instalação também evita o desperdício de energia e calor, desempenhando um papel importante na meta da cidade em atingir as emissões zero até 2025.

Até agora, mais de 10.000 cidades já assumiram o compromisso para reduzir drasticamente as suas emissões de carbono até 2050. Provavelmente, estas cidades conseguem atingir cerca de um terço dessa meta por conta própria, diz o relatório. Mas não conseguem atingir os tipos de metas que desejam – quase zero de emissões líquidas – sem a cooperação e colaboração dos governos nacionais.

Por exemplo, para reduzir as emissões nos edifícios, os tipos de alterações que as cidades conseguem controlar diretamente – como sistemas de isolamento nas paredes – podem cumprir 50% dos objetivos. Mas, para que isso aconteça, os edifícios precisam de funcionar com eletricidade amiga do ambiente, algo que exige mudanças na rede energética, fator que só pode ser controlado pelas autoridades governamentais.

"Isto não é uma coisa que os municípios consigam fazer sozinhos", diz Sarah Colenbrander, autora principal do relatório. "Não podemos continuar a colocar a responsabilidade em cima dos municípios na esperança de que resolvam todos os problemas.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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