Meio Ambiente

Efeitos das Alterações Climáticas Numa Aldeia do Alasca

Depois de 20 anos de degelo do pergelissolo, os residentes de Newtok são agora obrigados a mudar de casa e muitas das pessoas não estão contentes por abandonar um lugar que conheceram a vida inteira.quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Por Craig Welch
Fotografias Por Katie Orlinsky
A aldeia de Newtok, no Alasca, é ladeada pelos rios Ninglik e Newtok. A aldeia, nesta imagem, está a afundar-se rapidamente devido ao clima quente, ao degelo do pergelissolo e à erosão. Newtok é a primeira comunidade do Alasca forçada a mudar-se devido aos efeitos das alterações climáticas – tornando-se pioneira num processo que muitas outras vilas e aldeias do Alasca poderão em breve ser forçadas a seguir.
A aldeia de Newtok, no Alasca, é ladeada pelos rios Ninglik e Newtok. A aldeia, nesta imagem, está a afundar-se rapidamente devido ao clima quente, ao degelo do pergelissolo e à erosão. Newtok é a primeira comunidade do Alasca forçada a mudar-se devido aos efeitos das alterações climáticas – tornando-se pioneira num processo que muitas outras vilas e aldeias do Alasca poderão em breve ser forçadas a seguir.

A população Yup'ik fez as malas, empilhou caixas com os seus pertences em barcos e disse adeus aos vizinhos.

Durante o mês de outubro, um grupo pioneiro de habitantes da aldeia de Newtok, no Alasca, começou finalmente a estabelecer-se numa zona diferente. Neste processo, tornaram-se nas primeiras pessoas a mudarem-se devido às alterações climáticas na América do Norte.

A erosão já eliminou mais de 1 km de terra em Newtok, com o degelo do pergelissolo a acentuar rapidamente este processo.
A erosão já eliminou mais de 1 km de terra em Newtok, com o degelo do pergelissolo a acentuar rapidamente este processo.

Esta aldeia do povo Yup'ik, perto do Mar de Bering, que tem cerca de 380 pessoas, passou mais de duas décadas a preparar-se para mudar de sítio. O degelo do pergelissolo e a erosão aumentaram os riscos de inundações e fez com que a terra em torno das suas casas se começasse a desmoronar e a afundar. O aterro sanitário da comunidade desapareceu, os tanques de armazenamento de combustível estão precariamente inclinados e algumas das casas já foram demolidas devido ao risco de desabamento.

Depois de vários anos de planeamento e construções, as famílias começaram a rumar à aldeia recém-criada de Mertarvik, a cerca de 16 km a sudeste da Ilha Nelson. Em outubro, durante as pausas nos ventos fortes e nas chuvadas que atingiram o Delta do Yukon, 18 famílias começaram a mudar-se e a habitar as casas novas.

“Estamos literalmente a fazer as mudanças entre as tempestades”, diz Andrew John, administrador tribal da aldeia de Newtok.

Durante as próximas semanas, mais algumas famílias vão fazer esta transição, mas ainda não existem casas para todos – algo que deve acontecer até 2023. Até lá, a comunidade de Newtok-Mertarvik vai funcionar em dois locais separados.

"Vai ser um desafio enorme, mas esta comunidade é muito forte", diz Gavin Dixon, gestor para o desenvolvimento do Consórcio de Saúde Tribal Nativa do Alasca que está a ajudar os habitantes de Newtok nas mudanças.

Não é a primeira vez que esta comunidade é obrigada a mudar-se. Em 1949, a Agência de Assuntos Indígenas (BIA) construiu escolas em todas as comunidades nativas do Alasca, depois de décadas onde as crianças eram obrigadas a sair de casa para frequentar internatos. Na altura, a BIA escolheu o local onde agora fica Newtok para estabelecer a comunidade Yup'ik.
Não é a primeira vez que esta comunidade é obrigada a mudar-se. Em 1949, a Agência de Assuntos Indígenas (BIA) construiu escolas em todas as comunidades nativas do Alasca, depois de décadas onde as crianças eram obrigadas a sair de casa para frequentar internatos. Na altura, a BIA escolheu o local onde agora fica Newtok para estabelecer a comunidade Yup'ik.

Enorme degelo
Durante milhares de anos, até ao início do século XX, os Yup'ik eram caçadores nómadas sazonais que se moviam enquanto caçavam focas, alces e bois-almiscarados e colhiam bagas e verduras silvestres. Embora esta comunidade ainda mantenha um estilo de vida de subsistência, em 1949 foi forçada a estabelecer-se em Newtok, depois de a Agência de Assuntos Indígenas ter escolhido o local para construir uma escola, sem primeiro consultar a opinião dos Yup'ik.

Desde então, com as alterações climáticas a aquecerem o planeta, o solo congelado, que fica abaixo da superfície, começou a derreter – ao longo de mais de 23 milhões de km quadrados. Este processo fez com que as estradas, as tubagens e as fundações dos edifícios começassem a ceder e, ao mesmo tempo, a libertar mais gases de efeito estufa, acentuando o aumento da temperatura global. Enquanto isso, à medida que o gelo marinho diminui e se move em direção ao mar, vai corroendo as margens dos rios e afunda as comunidades. E a subida do nível do mar também acelera esta erosão.

Durante anos, os habitantes de Newtok observaram enormes pedaços de solo outrora estável a desmoronar no rio Ninglick, aproximando a água das casas, às vezes até 25 metros por ano. Estas inundações isolam frequentemente famílias. Um estudo feito no início dos anos 2000 mostrou que vastas secções da aldeia podem desaparecer até 2027.

Crianças a brincar nas decrépitas instalações de tratamento de água de Newtok.
Crianças a brincar nas decrépitas instalações de tratamento de água de Newtok.

Mas, tal como acontece com muitas comunidades isoladas do Alasca que enfrentam condições semelhantes, garantir um lar alternativo e arranjar dinheiro para as mudanças é um processo moroso. E dado o estatuto temporário de Newtok, as agências governamentais não estavam dispostas a investir em infraestruturas. Durante décadas, os habitantes viveram sem saneamento, recolhendo água potável em garrafões. A falta de saneamento adequado originou problemas de saúde, sobretudo entre as crianças.

Em 2003, o Congresso americano concordou finalmente em criar a nova aldeia de Mertarvik em terrenos vulcânicos mais elevados. Em troca, Newtok deve ceder as suas terras ao Refúgio Nacional de Vida Selvagem do Delta do Yukon.

Esquerda: Kaliegh Charles recolhe ovos de ganso com a sua família ao longo do rio Ninglick. As práticas baseadas em subsistência, como a recolha de ovos, a caça e a pesca, são um modo de vida crucial nesta região, não só em termos culturais e económicos, como nutritivos e de sobrevivência.
Direita: As mulheres reúnem-se na casa de Lisa e Jeff Charles para uma celebração de caça tradicional, após a primeira caçada bem-sucedida da filha Rayna.
Esquerda: Kaliegh Charles recolhe ovos de ganso com a sua família ao longo do rio Ninglick. As práticas baseadas em subsistência, como a recolha de ovos, a caça e a pesca, são um modo de vida crucial nesta região, não só em termos culturais e económicos, como nutritivos e de sobrevivência. Direita: As mulheres reúnem-se na casa de Lisa e Jeff Charles para uma celebração de caça tradicional, após a primeira caçada bem-sucedida da filha Rayna.

Desde então, o dinheiro das agências estaduais e federais para construir estradas, um centro comunitário, um aterro sanitário e uma estação elétrica começou a chegar lentamente. A estação de tratamento de águas ficará concluída dentro de algumas semanas e uma nova escola estará em funcionamento ainda em novembro. E também está planeada uma pista de aterragem.

Mas, das cerca de 60 casas novas necessárias, só foram construídas 21. A comunidade já tem eletricidade, mas ainda não tem acesso a sistemas públicos de água ou esgotos – e a comunidade preferia que se construísse e ocupasse o maior número de casas possível. E conseguir dinheiro suficiente para as instalações de saneamento pode demorar vários anos.

Para já, os Yup'ik querem começar a transformar Mertarvik numa nova comunidade – enquanto mantêm a comunidade antiga a vários quilómetros de distância.

Mudança difícil
Mas não vai ser fácil. Para já, alguns oficiais tribais vão viver em Mertarvik, enquanto que outros vão permanecer em Newtok. Ambas as aldeias vão ter professores, mas algumas das aulas serão feitas através de vídeo.

Em Newtok, Reese John brinca com a sua fisga em cima de uma estaca de uma …
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“Com 40 estudantes numa comunidade e 60 noutra, metade dos amigos vão estar a 16 km de distância”, diz Dixon.

As emoções sobre estas mudanças são variadas. A casa de Martha Kasaiuli, de 19 anos, já foi demolida em Newtok. A sua família mudou-se para Mertarvik em meados de outubro, mas ela quer ficar com os amigos mais alguns meses. Martha expressou os seus pensamentos num poema:

As sensações indesejadas sobre a mudança estão a crescer.

Mas ficar aqui não é divertido.

Com o passar dos anos este lugar vai morrer.

E nós vamos para um lugar desconhecido.

Durante quase 20 anos, estes 3 edifícios eram tudo o que existia em Mertarvik. Desde então, foram aqui construídas 21 casas, uma estação de eletricidade, uma estação de tratamento de águas, um aterro sanitário, uma estação de tratamento de esgotos e uma escola.
Durante quase 20 anos, estes 3 edifícios eram tudo o que existia em Mertarvik. Desde então, foram aqui construídas 21 casas, uma estação de eletricidade, uma estação de tratamento de águas, um aterro sanitário, uma estação de tratamento de esgotos e uma escola.

Dixon diz que muitas das pessoas não estão contentes por abandonar um lugar que conheceram a vida inteira. Mas algumas delas estão entusiasmadas por finalmente irem viver para um lugar com melhores condições.

John diz que alguns dos habitantes estão aliviados, mas outros estão ansiosos e já sentem esta separação. E outros estão demasiado ocupados a colher comida para o inverno e não têm tempo para pensar nisso.

“Esta mudança vai afastar alguns dos habitantes dos seus territórios de caça tradicionais, mas é um pequeno preço a pagar pelas condições de segurança que vão usufruir”, diz John.

“Penso que, enquanto povo, o nosso grande trunfo é a capacidade de adaptação. O nosso povo é flexível, vamos encontrar uma solução.”

“A nossa história está a desenrolar-se para ter um final melhor, mesmo que não queiramos abandonar este local”, diz Kasaiuli.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Monica Kasayuli seca arenques antes de se mudar para a nova aldeia em Mertarvik.
Monica Kasayuli seca arenques antes de se mudar para a nova aldeia em Mertarvik.
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