Greta Thunberg Reflete Sobre o que É Enfrentar Várias Crises Numa ‘Sociedade Pós-Verdade’

Em entrevista exclusiva à National Geographic, a jovem ativista climática considera os sucessos do movimento climático juvenil e os desafios que tem pela frente.

Publicado 4/11/2020, 16:35 WET, Atualizado 5/11/2020, 05:59 WET
Este retrato intitula-se “Greta”.

Este retrato intitula-se “Greta”.

Fotografia de Shane Balkowitsch, Nostalgic Glass Wet Plate Studio

Desde que se manifestou pela primeira vez à porta do parlamento sueco, há mais de dois anos, a mensagem fundamental de Greta Thunberg tem sido clara e consistente: a crise climática é a maior ameaça existencial da humanidade e precisamos de a encarar como tal. Esta mensagem inspirou milhões de jovens ativistas a protestar por uma mudança e deu origem a uma série de discursos virais que definiram a fama global de Thunberg. Greta foi considerada pela revista Time a Personalidade do Ano 2019 e foi nomeada para o Prémio Nobel da Paz durante dois anos consecutivos. Este ano foi distinguida com o Prémio Gulbenkian para a Humanidade.

Agora, com a pandemia de COVID-19 – uma crise global de natureza bastante diferente – e com a saída dos EUA do Acordo de Paris (anunciada após a realização desta entrevista), a ativista de 17 anos está de regresso à escola na Suécia. A National Geographic conversou com Greta Thunberg via Zoom sobre como o seu ativismo mudou ao longo do ano passado e sobre como a sua mensagem conseguirá sobreviver num mundo cada vez mais complexo. (Esta entrevista foi editada por motivos de extensão e clareza).

Oliver Whang: Muita coisa aconteceu nos últimos seis meses ou mais. Como é que o seu trabalho se alterou desde a chegada do coronavírus?

Greta Thunberg: Bem, passámos de muitos encontros presenciais, reuniões, greves e assim por diante, para fazer tudo digitalmente. Mas,  como somos um movimento de pessoas que não voam devido ao impacto ambiental, não tivemos de mudar muita coisa na nossa forma de trabalhar. E em cada país, cada grupo local é diferente. Somos um movimento muito descentralizado. Não temos uma hierarquia de cima para baixo, cada grupo local decide por conta própria o que quer fazer. Portanto, tem sido diferente de cidade para cidade, de país para país.

Oliver Whang: Algum desses países ou cidades se adaptou de uma forma que tenha sido realmente bem-sucedida?

Greta Thunberg: Sim. Alguns fazem greves digitais semanais, que têm sido bem-sucedidas. E muitos têm feito ações simbólicas. Alguns colocaram cartazes ou sapatos junto aos edifícios do parlamento para simbolizar que devíamos estar ali, mas estamos em casa. Portanto, as pessoas adaptaram-se de muitas formas criativas.

Oliver Whang: Pensa que a crise das alterações climáticas ficou um pouco esquecida no meio de todas as outras coisas?

Greta Thunberg: Bem, essa é uma narrativa muito contundente porque, sim, é claro, como acontece com todas as outras questões. Numa emergência como esta, é de esperar que todas as outras coisas fiquem suspensas, como têm ficado.

Oliver Whang: Uma das coisas que me impressionou sobre a resposta mundial à pandemia de coronavírus foi muitos países e empresas terem-se realmente empenhado. Foram aprovados projetos de estímulo e as empresas estão a desenvolver vacinas rapidamente. Acredita que este tipo de resposta pode inspirar algum tipo de ação para lidar com a crise climática?

Greta Thunberg: Bem, não devemos comparar crises diferentes, mas isso mostra que conseguimos tratar uma crise como uma crise. E isso provavelmente irá mudar a forma como encaramos as crises e as respostas às mesmas. Isto prova realmente que a crise climática nunca foi tratada como uma crise. Foi apenas tratada como uma questão pública e importante, como um tópico político. O que não é, porque é uma crise existencial.

Oliver Whang: Mas a resposta ao coronavírus deu-lhe mais esperança? Por exemplo, será que podemos dar uma resposta semelhante à crise climática?

Greta Thunberg: Isto confirmou o que eu já sabia. Que assim que tratarmos a crise climática como uma crise, podemos mudar as coisas e conseguimos alcançar objetivos.

Oliver Whang: Aqui nos EUA, para além das eleições, o nosso país irá retirar-se do Acordo de Paris no dia 4 de novembro. O nosso presidente promete fazer isso há anos – diz que o acordo é injusto para os Estados Unidos. E há muitas pessoas, não a maioria dos americanos, mas muitos deles, que concordam com o presidente e com a decisão de sairmos do acordo. O que diria a essas pessoas?

Greta Thunberg: Nada. Faço o que faço sempre, remeto as coisas para a ciência. Há pessoas que têm tentado impactar essas pessoas durante muito tempo e não conseguiram. Então, por que razão deveria ser eu a fazer isso? Porque é que comigo seria diferente? Se não ouvem, não compreendem e não aceitam a ciência, então não há realmente nada que eu possa fazer. Essa mudança tem de acontecer a um nível muito mais profundo.

Oliver Whang: E o que poderá ser isso?

Greta Thunberg: Atualmente vivemos numa sociedade pós-verdade, não nos importamos por termos perdido a empatia. De certa forma, parámos de cuidar uns dos outros. Parámos de pensar a longo prazo e na sustentabilidade. E isso é algo muito mais profundo do que algumas pessoas que negam a crise climática.

Oliver Whang: Portanto, acredita que, para enfrentarmos a crise climática, precisamos de uma mudança cultural ou de paradigma, em vez de dependermos apenas da aprovação de impostos e legislação sobre carbono, da influência de líderes e do desenvolvimento de tecnologia?

Greta Thunberg: Bem, se eu disser isso, as pessoas vão interpretar essa citação fora de contexto e vão dizer que eu quero uma revolução ou algo assim. Mas o que eu quero dizer é que a crise climática não é o único problema. É apenas um sintoma de uma crise maior. Como a perda de biodiversidade, a acidificação dos oceanos, a perda de solo fértil e assim por diante. E estas coisas não são resolvidas apenas com a interrupção das nossas emissões de gases de efeito estufa. A terra é um sistema muito complexo. Se pegarmos numa coisa e lhe retirarmos o equilíbrio, isso terá um impacto em coisas para além da nossa compreensão. E isto também é válido para a igualdade. Os humanos fazem parte da natureza e, se não estivermos bem, então a natureza não está bem, porque nós somos natureza.

Thunberg posa para uma fotografia, “Representando Todos Nós”.

Fotografia de SHANE BALKOWITSCH, NOSTALGIC GLASS WET PLATE

Oliver Whang: Não a incomoda poder estar a passar ao lado de todas as pessoas que até aceitam que as alterações climáticas são uma realidade e que são uma crise, mas que dão prioridade ao desemprego ou ao acesso à alimentação, ou a outras questões em vez da crise climática? Não sente que está a passar ao lado dessas pessoas?

Greta Thunberg: Não, isso não me incomoda. Não fomos informados sobre a crise climática – a crise climática nunca foi tratada como uma crise, então como é que podemos esperar que as pessoas se preocupem com ela? Se nem sequer estamos cientes dos factos básicos, como é que podemos esperar que as pessoas queiram ações climáticas? E isso é algo que precisa de mudar. Precisamos de compreender que não estamos a lutar por causas separadas. Estamos todos a lutar pela mesma causa, embora possa não parecer. É uma luta pela justiça climática, justiça social. Seja qual for o problema, é uma luta por justiça.

Oliver Whang: Desde que se começou a manifestar, há mais de dois anos, acredita que fizemos algum progresso significativo em relação à crise climática?

Greta Thunberg: Depende da perspetiva. De certa forma, sim. Parece que o debate mudou e que mais e mais pessoas estão lentamente a começar a compreender a crise climática e a dar-lhe prioridade. Mas, por outro lado, nunca foi tratada como uma crise. E as emissões ainda continuam a aumentar. Portanto, depende da perspetiva.

O que eu quero dizer é que não podemos esperar que este movimento mude o mundo. Se acharmos que é esse o caso, então não compreendemos a crise climática. As pessoas podem dizer que o meu movimento falhou porque não atingi os meus objetivos. Mas, quero dizer, quais são os nossos objetivos? Não temos objetivos. O nosso objetivo é fazer o máximo possível para sermos uma pequena parte de uma grande mudança, para sermos um dos incontáveis ativistas que pressionam na mesma direção a partir de perspetivas diferentes. É esse o nosso objetivo. Não podemos esperar que um movimento ou uma iniciativa, uma solução, mude tudo ou nos coloque na direção correta. A crise climática é muito complexa. Não é assim tão simples.

Oliver Whang: Houve alguma coisa feita por si ou por outros jovens ativistas que ache que foi particularmente bem-sucedida? Ou houve qualquer tipo de manifestação que você fez na política ou na economia que acredite que seja um exemplo do seu sucesso?

Greta Thunberg: Sim, temos muitos exemplos. Sobretudo exemplos ao nível local. Mas acho que a nossa maior conquista foi colocar o foco na ciência. Dizemos apenas: ‘Não queremos que nos ouçam, queremos que ouçam a ciência’. Esta não é uma questão sobre política, não é a nossa opinião. Não queremos que as emissões diminuam, é o que a ciência diz ser necessário se queremos cumprir os nossos compromissos. Não queremos que as coisas sejam assim. Mas, infelizmente, é onde estamos. E continuaremos a pressionar para que as pessoas ouçam a ciência.

Oliver Whang: Alguma vez teve dúvidas sobre o seu trabalho? Já duvidou de si própria ou até sobre o que tem feito?

Greta Thunberg: Não, porque sei que estou a fazer o que é correto. Estamos num momento em que devemos sair da nossa zona de conforto. Sinto que tenho o dever moral de fazer o que posso, já que sou uma cidadã. E isso faz com que eu seja parte de algo que é o meu dever, o meu dever moral, a minha responsabilidade moral, para fazer tudo o que puder.

Oliver Whang: E isso nunca esteve em questão para si?

Greta Thunberg: Não. Quero dizer, eu não quero ser ativista. Não creio que exista um ativista climático que faça isto porque quer. Fazemos isto porque não há mais ninguém que o esteja a fazer e porque precisamos de fazer algo. Alguém precisa de fazer alguma coisa, e nós somos esse alguém.

Oliver Whang: Estou curioso para saber se sente que os seus deveres morais ou a sua responsabilidade mudaram consoante o seu nome se tornou mais reconhecido.

Greta Thunberg: Bem, sim. Claro que todos temos uma responsabilidade, quanto maior for a nossa plataforma, maior será a nossa responsabilidade. E quanto maior for o nosso poder, maior será a nossa responsabilidade. Quanto maior for a nossa pegada de carbono, maior será o nosso dever moral. Tal como eu atingi uma plataforma maior, isso também acarreta uma responsabilidade maior. Devo usar estes canais para educar, para espalhar a consciencialização.

E estas coisas, todos os recursos que tenho, um dia vão desaparecer. Não vou ser esta pessoa durante muito tempo. Logo as pessoas irão perder o interesse em mim e já não serei “famosa”. E então terei de fazer outra coisa. Portanto, estou a tentar usar esta plataforma enquanto a tiver.

Oliver Whang: Como acha que vai prosseguir daqui para a frente? Quer ir para a universidade? Tem algum plano?

Greta Thunberg: Bem, na realidade não sei. Eu apenas faço o que quero no momento. Acabei de começar o ginásio (nota editorial: “ginásio” é o equivalente sueco ao ensino secundário). E lá estarei nos próximos três anos. E a não ser que eu queira fazer outra coisa, quero dizer, logo veremos. O mundo muda todos os dias, pelo que só precisamos de nos adaptar, acho eu.

Oliver Whang: Como é que planeia manter este movimento? Há coisas específicas que são necessárias fazer e que são diferentes daquilo que era preciso fazer há dois anos, há um ano, ou há oito meses atrás?

Greta Thunberg: É muito complexo, mas agora parece que batemos numa parede. Não restam mais argumentos. Não há mais desculpas. Agora, ou tentamos minimizar a crise, ou simplesmente negamos a crise por completo, ou então desviamo-nos do tema. Precisamos apenas de começar a tratar a crise como uma crise e continuar a elevar a ciência, mas agora todos se culpam uns aos outros e estamos presos num ciclo. Não vamos chegar a lado nenhum a não ser que alguém quebre esta corrente, por assim dizer. Alguém precisa de fazer algo. É óbvio que muitas pessoas têm de fazer muitas coisas, mas a não ser que alguém com uma enorme plataforma ou responsabilidade faça algo para começar a tratar esta crise como uma crise – por exemplo, a comunicação social – não conseguiremos sair desta situação.
 

O fotógrafo Shane Balkowitsch, sediado em Bismarck, no Dakota do Norte, usou o processo de placa húmida de colódio, inventado em 1848, para criar estas imagens. Pode encontrar mais trabalhos de Shane Balkowitsch no Instagram @balkowitsch.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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