Microplásticos Descobertos no Ponto Mais Alto de Sempre: Perto do Cume do Evereste

Desde o degelo dos glaciares à poluição por plástico, uma série de novos estudos descobre sinais alarmantes da nossa pegada ambiental.

Publicado 27/11/2020, 13:04 WET, Atualizado 9/12/2020, 14:18 WET
Em maio de 2019, alpinistas aguardavam na fila de espera para chegar ao topo do Monte ...

Em maio de 2019, alpinistas aguardavam na fila de espera para chegar ao topo do Monte Evereste. O fluxo de pessoas que chega ao cume todos os anos acaba por deixar inadvertidamente a sua marca na montanha na forma de pequenos detritos de plástico que se soltam dos materiais sintéticos que geralmente são usados no fabrico de vestuário para atividades ao ar livre.

Fotografia de Mark Fisher, National Geographic

PARA OS AVENTUREIROS de todo o mundo, o Monte Evereste é uma visão inesquecível – uma pluma majestosa de neve flutua no cume enquanto gelo desce pelos seus flancos. Mas se observarmos mais atentamente esta vista deslumbrante, como uma equipa de cientistas climáticos está a fazer, começamos a reparar nos sinais reveladores do impacto humano.

Hoje, a superfície de gelo no acampamento-base do Nepal está a mais de 45 metros abaixo do que estava há 35 anos, resultado do degelo glaciar provocado pelo aquecimento constante do clima. As zonas de gelo de alta altitude que outrora eram consideradas protegidas do aquecimento estão agora a começar a diminuir. A própria neve também já não é tão pura. A 8440 metros de altitude, está contaminada com microplásticos – o ponto mais elevado do planeta onde foram encontrados.

Tudo isto está refletido numa série de novos artigos publicados na semana passada numa edição especial da revista One Earth. Estes estudos fazem parte de um conjunto crescente de investigações que emergem de um esforço ambicioso para estudar a forma como as alterações climáticas e outras ações humanas estão a afetar o Evereste e a região circundante, um projeto organizado pela National Geographic Society e apoiado pela Rolex na Iniciativa Perpetual Planet.

Entre abril e junho do ano passado, uma equipa interdisciplinar de mais de trinta cientistas investigou o Vale de Khumbu, no Nepal, onde instalaram cinco estações meteorológicas e recolheram centenas de amostras de rocha, água, neve, gelo e muito mais. Os resultados apresentados nesta edição especial sublinham o impacto dos humanos sobre o ambiente, mesmo nos pontos mais altos do planeta.

Esquerda: Heather Clifford, cientista climática da Universidade do Maine, recolhe amostras de água de um riacho a sul da aldeia de Pheriche, no Nepal. Mais tarde, estas amostras seriam testadas para a presença de microplásticos.
Direita: As amostras de neve recolhidas a mais de 8230 metros de altura no Monte Evereste, num ponto de descanso onde os alpinistas param antes de tentarem alcançar o cume, revelaram a presença de pequenas fibras de plástico feitas de materiais que se encontram no vestuário para atividades ao livre.

Fotografia de PAUL MAYEWSKI, NATIONAL GEOGRAPHIC (ESQUERDA) E IMOGEN NAPPER, NATIONAL GEOGRAPHIC (DIREITA)

Embora algumas das descobertas, como a presença de microplásticos, não representem uma ameaça ambiental imediata, outras são muito mais preocupantes. Por um lado, os próprios glaciares mais altos do mundo estão a perder gelo a um ritmo acelerado. Em risco, para além das comunidades locais e da indústria vital do turismo de montanhismo do qual dependem, estão também os milhões de pessoas que vivem a jusante e que dependem dos glaciares para obter água doce.

“É um verdadeiro sinal de alerta”, diz Paul Mayewski, líder da expedição e diretor do Instituto de Alterações Climáticas da Universidade do Maine. “Apesar de esta região ter uma altitude muito elevada, está a ser gravemente afetada.”

Neve suja

Numa manhã clara de maio do ano passado, o glaciologista Mariusz Potocki observou um fluxo constante de alpinistas a marchar pela “Varanda”, um planalto arejado a 8380 metros de altitude, a poucas horas de escalada do cume do Evereste. Mariusz, glaciologista da Universidade do Maine, esperava conseguir perfurar um núcleo de gelo na neve compactada pelo vento no topo da montanha. Mas as multidões ali presentes fizeram com que Mariusz e a sua equipa desistissem da subida. (Mariusz conseguiu eventualmente recolher um núcleo de gelo na região mais elevada do mundo, a 8077 metros de altitude, num ponto conhecido por Colo Sul). Em vez disso, Mariusz subiu algumas dezenas de metros pelo trilho para encher um pequeno frasco de aço inoxidável com neve.

As análises posteriores revelaram que a amostra – e outras 10 recolhidas entre o acampamento-base e a “Varanda” – estava repleta de pequenas fibras encaracoladas de microplástico.

“As concentrações de microplásticos na montanha são surpreendentes”, diz Imogen Napper, cientista marinha que analisou as amostras de neve no seu laboratório, na Universidade de Plymouth, no Reino Unido. “É um lugar que ainda considero um dos mais remotos e intocados na Terra.”

Na verdade, talvez isto não devesse ter sido uma surpresa tão grande. Praticamente em todos os lugares onde os investigadores procuraram, encontraram microplásticos, desde os recantos mais profundos do oceano até às vastas planícies abertas. Algumas destas partículas foram transportadas juntamente com poeira ao longo de grandes distâncias pelo vento ou pelas correntes oceânicas. Mas no Evereste, de acordo com as descobertas de Imogen, os caminhantes e montanhistas são os culpados.

Os tecidos sintéticos libertam constantemente fibras com o desgaste. Um estudo descobriu que um grama de roupa sintética liberta 400 fibras microplásticas a cada 20 minutos de utilização, podendo resultar na perda total de mil milhões de fibras por ano para um casaco que pesa cerca de um quilo.

Os microplásticos no Evereste são maioritariamente compostos por poliéster, seguidos de acrílico, nylon e polipropileno – materiais vulgarmente usados nos equipamentos para atividades ao ar livre. Os plásticos também estão em maior concentração nas zonas onde os humanos costumam acampar. Portanto, embora os plásticos descartáveis tenham sido recentemente proibidos em todo o Vale de Khumbu, e a comunidade de montanhistas tenha feito progressos na recolha de lixo nas encostas do Evereste, os microplásticos provavelmente vão continuar a acumular-se na região. Também é possível que os ventos transportem microplásticos adicionais para a montanha, diz Paul Mayewski.

Demasiado pequenos para serem vistos a olho nu, os microplásticos são terrivelmente difíceis de limpar e muitas vezes são deixados de fora dos debates sobre resíduos, debates que frequentemente se concentram na redução, reutilização e reciclagem de itens maiores. “Estas ações são necessárias e importantes”, diz Imogen Napper. “Mas as soluções precisam de se expandir para inovações e avanços tecnológicos mais profundos.”

Apesar de estarmos frequentemente em contacto com microplásticos no nosso quotidiano, Imogen diz que esta descoberta a alta altitude é uma revelação. “Já encontrámos microplásticos desde as profundezas do oceano até praticamente o cume da montanha mais alta da Terra.”

Esquerda: Alex Tait, geógrafo da National Geographic Society, usa a tecnologia LIDAR, uma forma de varredura a laser, para investigar a topografia da área em torno do acampamento-base do Evereste com uma resolução extremamente elevada.
Direita: Durante a caminhada até ao acampamento-base do Evereste, a equipa de mapeamento aperfeiçoou os seus métodos de varredura LIDAR num antigo monumento budista, ou estupa, na aldeia de Phortse, no Nepal. Os mesmos métodos foram posteriormente utilizados para mapear o acampamento-base e o glaciar Khumbu circundante.

Fotografia de BRITTANY MUMMA, NATIONAL GEOGRAPHIC (ESQUERDA) E DIRK COLLINS, NATIONAL GEOGRAPHIC (DIREITA)

Tapete rolante glaciar

Enquanto Mariusz Potocki recolhia amostras de neve nas encostas superiores do Evereste, outros trabalhavam no sopé da montanha. Alex Tait, geógrafo da National Geographic Society, liderou uma equipa que fez o levantamento mais preciso de sempre do acampamento-base e do glaciar Khumbu circundante. A equipa usou a tecnologia LIDAR (um tipo de varredura a laser) e fotogrametria (fotografia de vários ângulos) para criar um modelo tridimensional que capta todos os detalhes com uma resolução de poucos centímetros – tendas, pedras e tudo o resto.

“Os cientistas estão a elogiar este conjunto de dados fornecido pela tecnologia LIDAR”, diz Alex Tait. “Embora seja apenas um único retrato, fornece contexto para uma compreensão histórica.”

Um dos investigadores que elogia a qualidade dos dados é Owen King, glaciologista da Universidade de St. Andrews, no Reino Unido, que comparou as novas imagens com fotografias históricas de levantamentos aéreos e de satélites espiões, cujos materiais foram entretanto abertos ao público. Owen fez reconstruções digitais da superfície do glaciar Khumbu, e de outros 78 glaciares próximos do Evereste, remontando até 1962.

Os dados, para além de servirem de base para quantificar a futura perda de gelo na região, também revelam um cenário nítido da situação que se vive atualmente nas montanhas. Desde 1962, os glaciares nos Himalaias têm derretido de forma consistente. E agora, estão a diminuir a um ritmo 50% mais acelerado do que há seis décadas. As temperaturas mais elevadas podem estar a impulsionar esta mudança, com um aumento de cerca de um grau Celsius nas encostas sul dos Himalaias durante o período estudado.

Para os cientistas, a descoberta mais preocupante talvez seja o degelo em altitudes acima dos 6100 metros. “Admito que isso me surpreendeu um pouco”, diz Owen King. A essa altitude, explica Owen, o gelo deve permanecer completamente congelado durante o ano inteiro, e a neve devia estar a acumular-se para alimentar o sistema glaciar.


A investigação de Owen também revela que os glaciares dos Himalaias estão a encolher – perdendo gelo de cima para baixo, em vez de retrocederem para o vale. “Podemos pensar num glaciar como se fosse um tapete rolante”, diz Owen. A neve acumula-se na parte superior do glaciar e compacta-se no gelo que desce até ao sopé. Mas, à medida que as temperaturas aumentam e a neve cai, o tapete fica mais lento e o glaciar começa a encolher.

Paradoxalmente, este encolhimento é menos pronunciado nas zonas baixas de muitos dos grandes glaciares dos Himalaias, onde as temperaturas são mais altas, mas o tapete rolante acumulou uma espessa camada de detritos rochosos que protege o gelo do sol. O encolhimento costuma ser mais intenso em trechos do glaciar de maiores altitudes, onde há menos cobertura dos detritos, deixando o gelo vulnerável ao derretimento com o aumento das temperaturas.

Ainda assim, a própria cobertura rochosa nem sempre é suficiente para proteger o sopé do glaciar. A ação de tapete rolante também cria uma colina de cascalho que circunda as suas extremidades, chamada moreia terminal. Esta barreira rochosa pode capturar a água do degelo, formando um lago que frequentemente acelera o degelo glaciar.

O que reserva o futuro para o Evereste e para os Himalaias? A equipa espera que o seu trabalho sirva de trampolim para identificar as melhores formas de ação.

Uma coisa é certa, diz Paul Mayewski: “Onde quer que as pessoas vão, deixamos a nossa marca, e essa marca nem sempre é positiva.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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