Relatório Afirma que a Proteção de Terras e Animais Pode Mitigar os Efeitos de Futuras Pandemias

Os mesmos processos que impulsionam a extinção, a perda de habitat e as alterações climáticas também irão dar origem a futuras pandemias, afirma um grupo internacional de cientistas.

Publicado 2/11/2020, 12:33 WET, Atualizado 5/11/2020, 05:59 WET
Em 2019, fumo de um incêndio florestal cobria uma quinta de gado no estado brasileiro de ...

Em 2019, fumo de um incêndio florestal cobria uma quinta de gado no estado brasileiro de Mato Grosso. Um grupo internacional de cientistas afirma que a perda de florestas, como as da Amazónia, dá origem a novos surtos virais, como a COVID-19.

Fotografia de Victor Moriyama, The New York Times/Redux

Sem alterações políticas significativas e milhares de milhões de dólares investidos na proteção de terras e vida selvagem, o mundo pode assistir a outra pandemia devastadora como a COVID-19, alertou no dia 29 de outubro um grupo internacional de cientistas.

Conservar a biodiversidade pode preservar vidas humanas, de acordo com o novo relatório, que analisa as investigações mais recentes sobre a forma como o declínio de habitat e vida selvagem expõe os humanos a novas doenças emergentes.

“A ciência está completamente de acordo sobre este tema. A desflorestação é a principal força motriz das pandemias”, diz Lee Hannah, cientista climático da Conservation International que se especializou nos efeitos da perda florestal. Lee fez a revisão do relatório, que foi compilado num seminário virtual em finais de julho pela Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistémicos (IPBES), um grupo de cientistas, governos e organizações sem fins lucrativos.

“Sem estratégias preventivas”, afirma o relatório, “as pandemias irão surgir com mais frequência, propagar-se mais depressa, matar mais pessoas e afetar a economia global com um impacto mais devastador do que nunca”.

Destruição de habitat e doenças – qual é a ligação?
As recomendações do relatório seguem uma abordagem preventiva para conter a propagação de doenças que normalmente emergem de animais.

As chamadas doenças zoonóticas – que incluem COVID-19, VIH e influenza, e os vírus Ébola, Zika e Nipah – surgem de micróbios que vivem na vida selvagem e que podem infetar humanos. Morcegos, pássaros, primatas e roedores são fontes comuns de transmissão.

O novo coronavírus SARS-CoV-2 foi rastreado até um mercado de vida selvagem em Wuhan, na China, podendo ter sido a fonte do surto original de COVID-19 nos humanos.

Os cientistas estimam que existem 1.7 milhões de vírus desconhecidos à espreita em aves e mamíferos, metade dos quais pode ter a capacidade de infetar humanos. Não é uma coincidência, dizem os autores do relatório, que as pandemias estejam a aumentar à medida que as atividades humanas colocam mais pressão sobre o meio ambiente, e à medida que os contactos de proximidade entre humanos e vida selvagem também aumentam.

Em novembro de 2019, os cientistas já alertavam que o aumento da desflorestação estava a criar condições mais favoráveis para os surtos de doenças. Embora a perda de habitat em grande escala represente uma ameaça, Lee Hannah chama a atenção para as florestas em específico, porque têm uma densidade muito elevada de biodiversidade e, portanto, apresentam mais oportunidades para os portadores de doenças. Lee cita como exemplo a desflorestação na Amazónia brasileira, onde muitas vezes as florestas são destruídas para dar lugar a pastagens de gado. O gado também pode atuar como um intermediário entre vida selvagem infetada e as pessoas, que trabalham em estreita proximidade com o gado.

O relatório diz que a destruição de habitat de vida selvagem também obriga os animais a procurarem novos territórios, incluindo morcegos e pássaros, para encontrarem novos lares em ambientes urbanos.

Soluções de elevado custo
“Acho que o mais importante é compreender a escala que precisamos de abranger”, diz Lee. “Não se trata de aumentar o nível das coisas; trata-se de levar as coisas até um nível que nunca foram levadas antes.”

O relatório propõe o lançamento de um conselho internacional para supervisionar a prevenção de pandemias, incentivando financeiramente a conservação de biodiversidade e fomentando os investimentos em investigação e educação. Os cientistas esperam que estas mudanças institucionais reduzam o alcance de indústrias como a produção de óleo de palma, a extração madeireira e atividades pecuárias.

Isto também pode ajudar a identificar os pontos emergentes de foco e fornecer cuidados de saúde mais robustos para as pessoas em maior risco de exposição.

Os autores do estudo estimam que a implementação de uma estratégia abrangente, algo que consiga reduzir o perigo de futuras pandemias, pode custar entre 40 e 58 mil milhões de dólares todos os anos. Mas também acrescentam que isso compensaria as perdas económicas de uma pandemia, perdas que podem atingir os biliões de dólares anuais. Um estudo publicado no início de outubro afirmava que, até agora, a COVID-19 já custou 16 biliões de dólares aos EUA.

Trinta países comprometeram-se em apoiar a “Campanha pela Natureza”, uma meta global que visa proteger 30% das terras e mares do planeta até 2030. Mas Brian O'Donnell, diretor da campanha, diz que há vários passos necessários para transformar estas promessas em realidade. (A Campanha pela Natureza é apoiada pela National Geographic Society.)

Em maio de 2021, os países vão reunir-se na Convenção da ONU sobre Diversidade Biológica, onde terão a oportunidade de desenvolver estratégias para contribuir para esta meta de conservação global.

“Precisamos que todos os países estejam de acordo”, diz Enric Sala, Explorador da National Geographic, sobre o apoio às ambiciosas metas de conservação. “Sobretudo aqueles que abrigam as maiores florestas que ainda existem na Terra, que para além de serem os maiores reservatórios de biodiversidade, também podem oferecer as maiores soluções baseadas na natureza para ajudar a mitigar as alterações climáticas.”

Brian O’Donnell está preocupado com os atrasos no avanço destes planos devido à COVID-19, dizendo que um ano de atraso já é um risco.

“Ainda não vimos compromissos financeiros tangíveis para a conservação da natureza, mesmo com os governos a gastarem somas exorbitantes em estímulos.”

Para além da COVID-19, Brian O’Donnell diz que os obstáculos incluem a falta de financiamento e o apoio de países onde acontece a maior desflorestação, como é o caso do Brasil.

Brian espera que esta pandemia global seja uma “grande chamada de atenção”.

“Alguns estão a ouvir o alarme. Mas há demasiados sonâmbulos.”

Se não for pelo apreço pelo mundo natural e vida selvagem em perigo, Lee Hannah espera que este novo relatório ajude pelo menos as partes interessadas a perceber que a saúde humana é uma razão convincente para conservar a natureza.

“Existe uma razão egoísta para fazer isto, que é a nossa própria proteção”, diz Lee.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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