As Árvores Ginkgo Estavam Perto da Extinção. Descubra Como Salvámos Estes ‘Fósseis Vivos’.

Estas árvores antigas persistiram durante quase 200 milhões de anos, até que começaram a desaparecer. Agora alinham-se em ruas citadinas.

Publicado 4/12/2020, 13:42
Uma árvore ginkgo no outono com as suas folhas amarelas. Ao contrário da maioria das árvores, ...

Uma árvore ginkgo no outono com as suas folhas amarelas. Ao contrário da maioria das árvores, que perdem gradualmente as folhas, os ginkgo tendem a perder todas as folhas de uma só vez.

Fotografia de Werner Layer, Mauritius Images GmbH/Alamy

Nas ruas de Manhattan e Washington D.C., e nos bairros de Seul e parques de Paris, as árvores ginkgo estão a perder as suas folhas amarelas em reação à primeira vaga de ar gelado do inverno.

Esta queda de folhas, gradual ao início, e depois repentina, cobre todos os anos as ruas com folhas douradas em forma de leque. Mas, pelo mundo inteiro, cientistas estão a documentar evidências de que este evento vai acontecer cada vez mais tarde, uma possível indicação das alterações climáticas.

“As pessoas perguntavam-nos quando é que o ginkgo atingia o seu pico de cor? E nós respondíamos que era no dia 21 de outubro”, diz David Carr, diretor da Quinta Experimental Blandy da Universidade da Virgínia, que abriga o The Ginkgo Grove, um arboreto com mais de 300 árvores ginkgo.

David Carr, que trabalha no The Ginkgo Grove desde 1997, diz que a tendência de outonos mais quentes e a coloração das folhas mais para o final desta estação é notável. “Hoje em dia parece acontecer mais perto do final de outubro, ou na primeira semana de novembro.”

Mas esta não é a primeira vez que esta espécie antiga enfrenta enormes alterações climáticas. E a história dos ginkgo não é a narrativa familiar da negligência humana para com a natureza.

Graças aos fósseis encontrados no Dakota do Norte, os cientistas sabem que a espécie Ginkgo biloba existe na sua forma atual há 60 milhões de anos; e que tem antepassados geneticamente semelhantes que datam desde há 170 milhões de anos até ao Período Jurássico.

“Na sua linha cronológica de quase 200 milhões de anos, estas árvores foram desaparecendo gradualmente. Estiveram muito perto da extinção. Depois, tiveram um ressurgimento devido à sua associação com os humanos”, diz Peter Crane, autor do livro Ginkgo e um dos maiores especialistas mundiais em árvores ginkgo.

De acordo com a União Internacional para a Conservação da Natureza, a organização que rastreia a sobrevivência das espécies na Terra, esta árvore está em perigo de extinção na natureza. Acredita-se que existam apenas algumas populações raras, sobretudo na China. Neste outono, quando andamos sobre aqueles leques dourados espalhados por uma calçada escurecida pela chuva, estamos a ter um encontro de proximidade com uma coisa rara – uma espécie que os humanos resgataram do esquecimento e espalharam pelo mundo. “É uma história evolutiva maravilhosa”, diz Peter Crane, “e também é uma história cultural maravilhosa”.

A última do seu género

Atualmente existem cinco tipos diferentes de plantas que produzem sementes na Terra: plantas com flores, as mais abundantes; coníferas, plantas com cones; gnetófitas, um grupo diverso de cerca de 70 espécies que inclui arbustos do deserto, árvores tropicais e vinhas; cicadáceas, outro grupo antigo de árvores semelhantes a palmeiras – e o solitário ginkgo. Na família Ginkgoaceae do reino vegetal, há apenas uma espécie viva, o Ginkgo biloba.

Os cientistas acreditam que o nosso planeta também já albergou muitas espécies diferentes de ginkgo. As plantas fossilizadas encontradas numa mina de carvão na região centro da China, que datam de há 170 milhões de anos, mostram árvores parecidas com o ginkgo que têm apenas pequenas variações na forma das suas folhas e no número de sementes.

Um arranjo de folhas ginkgo, que têm uma cor verde brilhante antes de adquirirem um tom amarelado no outono.

Fotografia de Darlyne A. Murawski, Nat Geo Image Collection

Esta espécie é muitas vezes chamada de fóssil vivo – uma categoria que também inclui o caranguejo-ferradura e o feto-real, entre outros – porque é remanescente de um grupo diversificado que existiu há milhões de anos. Como o ginkgo é uma espécie muito antiga, retém características que raramente são encontradas nas árvores mais modernas.

As árvores ginkgo são macho ou fêmea e reproduzem-se quando um espermatozoide de uma árvore macho, que é transportado nos grãos de pólen que flutuam com o vento, se liga a uma semente de uma árvore fêmea e a fertiliza – muito semelhante ao processo de fertilização humano. Estas árvores também mostram potenciais sinais de mudança de sexo, de macho para fêmea. Este fenómeno é raro nos ginkgo e não é totalmente compreendido, mas acredita-se que os machos conseguem produzir ramos femininos que atuam como um sistema de proteção para garantir a reprodução.

Uma das teorias para o desaparecimento da espécie ginkgo começa há 130 milhões de anos, quando as plantas com flor se começaram a diversificar e a espalhar. Existem agora mais de 235.000 espécies de plantas com flor. Estas espécies evoluíram e proliferaram rapidamente, usando frutos para atrair herbívoros e pétalas para atrair mais polinizadores do que as gingko

“É possível que os [ginkgo] tenham sido empurrados para fora do caminho quando enfrentaram a concorrência das plantas mais modernas”, diz Peter Crane.

Enquanto competiam pela sobrevivência, os ginkgo começaram a desaparecer da América do Norte e da Europa durante o período Cenozoico, uma época de arrefecimento global que começou há cerca de 66 milhões de anos. Quando a última idade do gelo terminou, há 11.000 anos, os gingko sobreviventes foram relegados para a China.

Adoção humana

As árvores ginkgo são conhecidas pelo seu forte odor. As fêmeas produzem sementes com uma camada exterior que contém ácido butírico, que tem o cheiro característico do vómito humano.

Em relação ao motivo pelo qual desenvolveram um odor tão forte, Peter Crane diz: “O meu palpite é o de que eram comidas por animais que gostavam de coisas com odores fortes. E depois passavam pelos intestinos e germinavam.”

Há cerca de mil anos, estas mesmas sementes podem ter ajudado o ginkgo a ser acolhido pelos humanos. Depois de removida a camada exterior, as sementes de ginkgo fazem lembrar pistácios. Pode ter sido por isso que, quando estas árvores já tinham desaparecido há muito tempo de outros lugares, as pessoas na China começaram a plantá-las, para comer as suas sementes, diz Peter. (As sementes de ginkgo só são comestíveis depois de removida a camada tóxica exterior.)

Acredita-se que só em finais do século XVII, quando o naturalista alemão Engelbert Kaempfer fez uma viagem ao Japão e alegadamente adquiriu árvores ginkgo na China, é que a planta foi trazida para a Europa. Hoje, o ginkgo é uma das árvores mais comuns na costa leste dos Estados Unidos. Aparentemente, esta árvore tem uma resistência natural a insetos, fungos e a níveis elevados de poluição do ar, e as suas raízes conseguem prosperar debaixo do betão.

Esta espécie foi considerada extinta na natureza até ao início do século XX, até que uma população supostamente não domesticada foi encontrada no oeste da China. Mas um artigo publicado em 2004 discordava da sua origem selvagem e sugeria que essas árvores tinham sido cultivadas por antigos monges budistas – e sugeria que havia outros pontos de abrigo para os ginkgo no sudoeste do país.

Depois, em 2012, um novo artigo citava evidências de que realmente existia uma população selvagem nas montanhas de Dalou, no sudoeste da China.

“Acredito que [também] possam existir algumas populações selvagens de ginkgo na região subtropical da China. Mas são necessárias mais investigações para o confirmar”, diz Cindy Tang, ecologista da Universidade de Yunnan e autora do artigo de 2012. Estas populações selvagens são um potencial tesouro de diversidade genética para os criadores que querem melhorar as espécies domesticadas.

Peter Crane não está preocupado com o futuro desta árvore: a popularidade da espécie vai ajudá-la a sobreviver. “Embora o seu estatuto na natureza possa ser precário e de difícil acesso, é uma planta que dificilmente se extinguirá.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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