Esta Pulga-de-água Voraz Está a Dizimar os Grandes Lagos

Uma espécie invasora minúscula, a pulga-de-água espinhosa, está a dizimar plâncton nos lagos, afetando um ecossistema que sustenta pescarias valiosas.

Por Tim Folger
Publicado 9/12/2020, 15:11 WET
Uma pulga-de-água espinhosa no dedo indicador de um investigador.

Uma pulga-de-água espinhosa no dedo indicador de um investigador.

Fotografia de CENTRO DE PESQUISA DE ESPÉCIES AQUÁTICAS INVASORAS DO MINNESOTA

DULUTH, MINNESOTA – Numa manhã amena de setembro, no convés da popa do navio de investigação Blue Heron, Donn Branstrator cheirou o conteúdo de um recipiente de amostras que os seus alunos de pós-graduação tinham acabado de retirar das profundezas do Lago Superior. “É por isso que os peixes têm este odor”, disse Donn, ecologista da Universidade do Minnesota, em Duluth. O odor a peixe vinha dos crustáceos planctónicos que têm apenas alguns milímetros de comprimento e que são uma fonte primária de alimento para todos os peixes no lago.

Os mais importantes pertencem ao género Daphnia – que abrange cerca de 100 espécies de água doce. Estes pequenos animais são essenciais para a saúde do lago: para além de fornecerem comida para os peixes, alimentam-se de algas flutuantes, agitando as patas de forma constante para criar micro-correntes que puxam as algas em direção às suas mandíbulas em miniatura. Ao manter as algas sob controlo, os crustáceos Daphnia ajudam a manter o sistema em equilíbrio.

Mas estes crustáceos estão em declínio no Lago Superior e em quase todos os outros corpos de água na região dos Grandes Lagos. Os seus números têm sido dizimados por um predador invasor voraz, a pulga-de-água espinhosa.

O Bythotrephes longimanus é um crustáceo várias vezes maior do que os crustáceos Daphnia – com pouco mais de um centímetro de comprimento, tem dimensões que podem ser consideradas titânicas para o mundo de plâncton. Este predador visual, com uma única mancha negra, tem mandíbulas proeminentes e uma cauda farpada que perfaz cerca de 70% do seu comprimento. Nativo do Lago Ladoga, perto do Mar Báltico na Rússia, o Bythotrephes longimanus chegou ao Lago Ontário, no início da década de 1980, quando embarcações vindas de portos europeus descarregaram água de lastro no Rio São Lourenço. Em 1987, este crustáceo já tinha alcançado o Lago Superior. Agora, está estabelecido em dezenas de lagos mais pequenos por toda a região, onde se alimenta de Daphnia e outro zooplâncton, dizimando-os com as suas mandíbulas.

O Bythotrephes, uma pulga-de-água que tem uma longa cauda espinhosa, come zooplâncton e compete com outros peixes por comida. Agora está disseminado pelos lagos da região do Minnesota.

Fotografia de FIORELLA IKEUE (ILUSTRAÇÃO)

Os estudos feitos recentemente descobriram que, desde a chegada da pulga-de-água espinhosa, as populações nativas de plâncton em alguns dos lagos do Minnesota tiveram um declínio de até 60%. A extinção do plâncton, por sua vez, afeta a perca-amarela, o picão-verde e outros peixes nativos. Os peixes nos lagos invadidos pela pulga-de-água espinhosa crescem mais lentamente durante o seu primeiro ano de vida, ficando assim mais vulneráveis a predadores. “A pulga-de-água espinhosa é realmente um predador voraz de plâncton”, disse Donn. “Portanto, é um golpe direto na energia e nutrição que sustenta o peixe. Os peixes jovens alimentam-se todos de plâncton.”

No pequeno laboratório do navio Blue Heron, Megan Corum, uma das estudantes de pós-graduação de Donn Branstrator, usou um microscópio ligado a um monitor para me mostrar algumas destas criaturas, capturadas numa porção de água do Lago Superior. Não havia pulgas-de-água espinhosas à vista, mas Megan apontou para um crustáceo Daphnia, com as suas antenas eriçadas e olhos negros. Megan concentrou-se na criatura durante alguns momentos. Através da concha transparente, conseguíamos ver o seu delicado coração tubular castanho-avermelhado a bater suavemente.

Esquerda: O plâncton no Lago Superior está a ser vítima da pulga-de-água espinhosa, que por sua vez está a ameaçar os peixes no lago. Os peixes não podem comer o crustáceo devido à sua cauda espinhosa, que fica presa na garganta.
Direita: Daphnia, o plâncton vítima da pulga-de-água espinhosa, mantém as algas dos Grandes Lagos sob controlo, ajudando a manter o sistema em equilíbrio.

Fotografia de KEITH LADZINSKI, NATIONAL GEOGRAPHIC

Uma praga entre muitas

Esta pulga destruidora de plâncton é apenas um dos muitos invasores dos Grandes Lagos, que albergam mais espécies invasoras – mais de 180 – do que qualquer outro sistema de água doce do planeta. Há lampreias que vieram do Atlântico através de canais de navegação, chegando ao Lago Ontário em meados do século XIX. Estes predadores estabeleceram-se há muito tempo na região e prendem trutas com as suas bocas dentadas em forma de disco e drenam os fluidos corporais dos peixes. As barragens, venenos e armadilhas conseguiram impedir que as lampreias destruíssem a pescaria multimilionária dos Grandes Lagos.

Mas há outros invasores que chegaram pela mesma rota que a pulga-de-água espinhosa, nos tanques de lastro dos cargueiros oceânicos. Nos últimos 30 anos, o mexilhão Quagga, outro intruso vindo do Báltico, transformou por completo a ecologia dos lagos Michigan e Huron. Agora, com centenas de biliões de indivíduos só no Lago Michigan, os mexilhões filtram cerca de metade da água do lago a cada poucos dias, sugando algas microscópicas. Ao contrário dos crustáceos Daphnia e de outras criaturas nativas, os mexilhões sugam quase tudo na coluna de água.

“O Lago Michigan parece agora as águas abertas das Caraíbas”, disse Hugh MacIsaac, biólogo de espécies invasoras da Universidade de Windsor, em Ontário. Há apenas duas décadas, estas águas eram acastanhadas e estavam repletas de plâncton. Hoje, as águas límpidas do lago parecem apelativas, mas esta transparência é um sintoma da ausência de vida – a queda na população de plâncton teve efeitos na cadeia alimentar.

O estado do Minnesota abastece agora o lago com menos salmão – uma espécie não nativa que é deliberadamente introduzida no lago e que se tornou no principal impulsionador de uma atividade de pesca desportiva que gera receitas na ordem dos 7 mil milhões de dólares – porque as presas de salmão diminuíram. “Algumas das principais espécies de presas de salmão estão a crescer a metade do ritmo com que cresciam antes da presença dos mexilhões”, disse Edward Rutherford, biólogo de pescarias do Laboratório de Pesquisa Ambiental dos Grandes Lagos, em Ann Arbor, no Michigan.

Contudo, em relação às espécies invasoras, as novas leis de água de lastro fecharam o que antigamente era uma porta aberta. Desde 2008, todos os navios vindos do Atlântico que entram no Rio São Lourenço são obrigados a lavar os seus tanques de lastro com água salgada, processo que mata qualquer criatura de água doce que tenha vindo à boleia. Em 2017, um regulamento das Nações Unidas determinou que todos os novos navios fossem equipados com sistemas de tratamento de águas de lastro. Os resultados têm sido evidentes.

“Na última década, passámos de quase duas espécies invasoras por ano [vindas na água de lastro] para zero”, disse Rochelle Sturtevant, ecologista da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional.

Esquerda: Pulgas-de-água espinhosas aglomeradas numa linha de pesca.
Direita: Estes panos da loiça são impressos com dicas para reduzir a propagação de pulgas-de-água espinhosas.

Fotografia de MINNESOTA SEA GRANT (ESQUERDA) E CENTRO DE PESQUISA DE ESPÉCIES AQUÁTICAS INVASORAS DO MINNESOTA (DIREITA)

Demasiado tarde

Mas, em muitos casos, os danos já foram feitos. Não há formas eficazes para controlar os mexilhões invasores ou as pulgas-de-água espinhosas. Os peixes não comem as pulgas: as suas caudas farpadas ficam presas nas gargantas dos peixes, e acabam por ser cuspidas. As populações de pulga-de-água espinhosa podem tornar-se tão densas que chegam até a atormentar os pescadores, porque obstruem as linhas de pesca e impedem a linha de passar pelo ilhó de uma cana de pesca.

As criaturas humildes como os crustáceos Daphnia passam muitas vezes despercebidas para a maioria das pessoas. Porém, a alteração completa das comunidades de plâncton nos lagos de água doce pode ter efeitos mais abrangentes sobre a biodiversidade do que a extinção de espécies mais icónicas. É uma experiência ecológica não intencional que correu mal, e que se desenrola perante os nossos olhos com resultados desconhecidos. Embora seja pouco provável que a pulga-de-água espinhosa elimine por completo os Daphnia ou outro plâncton nos Grandes Lagos, este invasor minúsculo já alterou de forma permanente a base da cadeia alimentar da qual todos os peixes dos lagos dependem. O que isto significa para o futuro dos Grandes Lagos ainda não está claro.

“Nós gostamos de elefantes, gostamos de girafas”, disse Hugh MacIsaac. “Não queremos que os rinocerontes desapareçam. Mas o que será que acontece se começarmos a perder as nossas espécies nativas de plâncton? A maioria das pessoas não se importa.” Um estudo feito recentemente descobriu que a pulga-de-água espinhosa já exterminou três espécies de plâncton num só lago no norte de Ontário.

“Pense nisso”, disse Hugh. “Se tivermos 150 lagos colonizados por pulgas-de-água espinhosas – pode vir a ser muito mais do que isso – multiplicado por três espécies por lago, são 450 populações de zooplâncton exterminadas por um único invasor.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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