O Maior Icebergue do Mundo Dirige-se Para a Ilha Geórgia do Sul – e Respetiva Vida Selvagem

Os cientistas receiam que este icebergue possa ser uma “amostra do que está por vir”, à medida que a Antártida começa a aquecer.

Publicado 23/12/2020, 11:54
Imagens de satélite captadas no dia 14 de dezembro mostram o icebergue antártico A-68A (à esquerda) ...

Imagens de satélite captadas no dia 14 de dezembro mostram o icebergue antártico A-68A (à esquerda) a aproximar-se da Ilha Geórgia do Sul (à direita). A Ilha Geórgia do Sul é um santuário marinho no Oceano Atlântico Sul e lar de espécies ameaçadas de extinção, como elefantes-marinhos, pinguins-reais e baleias-azuis. Os cientistas estão a monitorizar esta situação de perto para ver os potenciais impactos do icebergue na vida selvagem da ilha.

Fotografia de NASA

O maior icebergue da Terra dirige-se de forma ameaçadora para um santuário imaculado de vida selvagem na Antártida que abriga pinguins, focas e uma pequena população de baleias-azuis ameaçadas de extinção.

O icebergue, denominado A68, separou-se da plataforma de gelo Larsen C na costa leste da Península Antártica em 2017. Até este ano, o icebergue estava lentamente a dirigir-se para norte, quando uma corrente oceânica o impulsionou rapidamente para o Oceano Atlântico Sul.

Com cerca de 150 quilómetros de comprimento e 50 quilómetros de largura na sua extremidade mais larga, o icebergue cobre uma área de aproximadamente 3890 quilómetros quadrados e estende-se até profundidades de 150 e 180 metros debaixo de água. As imagens de satélite mostram que o icebergue tem o formato de uma mão fechada com o dedo indicador a apontar para a frente.

Os cientistas preveem que o icebergue, que atualmente está a cerca de 50 quilómetros da Ilha Geórgia do Sul, ancore nas águas rasas em torno da ilha, ou que passe pela ilha nos próximos dias. Se o icebergue parar, não se sabe durante quanto tempo pode permanecer intacto no mesmo sítio.

“Há sempre a possibilidade de o icebergue poder seguir para norte, ou pode ficar preso onde está durante algum tempo”, diz Chris Readinger, analista-chefe do Centro Nacional de Gelo dos EUA na Antártida. “Parece que a probabilidade mais elevada é a de se poder deslocar para o sul da ilha.”

Chris diz que as imagens captadas recentemente mostram que o icebergue está a começar a quebrar-se e os cientistas estão a observá-lo impacientemente para ver o que acontece a seguir.

“Não temos muitas informações científicas sobre icebergues como este”, diz Geraint Tarling, ecologista do programa de Observação Antártico Britânico. Geraint descreve a génese do A68 como sendo um evento natural, mas diz que, dado o aquecimento do clima, particularmente na região que gerou este icebergue, “podemos estar perante uma amostra do que está por vir”.

Linha temporal do A68

A Península Antártica é uma das regiões de aquecimento mais acelerado na Terra, e as plataformas de gelo ao longo da sua costa leste estão a quebrar-se. A plataforma de gelo Larsen A, perto da ponta norte da península, colapsou em 1995; a sua vizinha mais a sul, a Larsen B, foi captada em imagens espetaculares de satélite a fazer o mesmo em 2002.

A Larsen C é a plataforma de gelo seguinte e também é de longe a maior das três. Em 2010, nesta plataforma, começou a surgir uma enorme e profunda fenda que continuou a crescer até julho de 2017, momento em que fraturou. O icebergue A68 tinha nascido – um pedaço de gelo com cerca de 5000 quilómetros quadrados, uma massa com perto de 10% da própria plataforma que o gerou.

Durante grande parte de 2017, o icebergue não se moveu muito. Mas em 2018 começou a flutuar para norte e teve várias rotações, de acordo com os registos da Universidade Brigham Young. Ao longo de 2019, o icebergue deambulou para norte, através do Mar de Weddell da Antártida, até ser capturado pela forte Corrente Circumpolar Antártica, uma corrente oceânica no sentido oposto ao dos ponteiros do relógio que circunda este continente.

Os icebergues do tamanho do A68 são tão massivos, e estendem-se tão profundamente debaixo de água que, muitas vezes, é necessária uma corrente considerável para os impulsionar. Ao longo de 2020, o A68 avançou lentamente para norte e leste, ziguezagueando e rodando ocasionalmente – mas avançando sempre de forma constante em direção à Ilha Geórgia do Sul.

“Provavelmente não se consegue aproximar mais da ilha”, diz Chris Readinger. “O oceano nesta região tem cerca 150 metros de profundidade e o icebergue atinge praticamente [essa profundidade].”

O icebergue pode parar abruptamente na plataforma subaquática rasa que rodeia a ilha e não colidir com terra seca. Chris salienta que o icebergue está em águas mais quentes do que as que consegue suportar e que provavelmente já se está a começar a quebrar.

“Existem icebergues mais pequenos, com perto de dois quilómetros de comprimento, que já se estão a soltar”, diz Chris. “Eu não ficaria surpreendido se um pedaço grande se soltasse e o chamássemos de A68d.”

Esquerda: O A68 separou-se da plataforma de gelo Larsen C em julho de 2017. Esta imagem foi captada durante um voo sobre o icebergue no dia 12 de novembro desse mesmo ano. Durante três anos, o enorme icebergue flutuou lentamente para norte, até que uma forte corrente oceânica o impulsionou para o Oceano Atlântico.
Direita: Uma imagem do A68 de novembro de 2017 mostra as extremidades íngremes do icebergue. Os cientistas estimam que estes penhascos têm quase sete andares de altura, cerca de 30 metros. Em 2020, à medida que o icebergue se movia para as águas mais quentes do Atlântico, começou a quebrar-se, gerando icebergues mais pequenos que se estão lentamente a desgastar.

Fotografia de JOHN SONNTAG, NASA (ESQUERDA) E ICEBRIDGE DIGITAL MAPPING SYSTEM (DIREITA)

Os pedaços que se separaram do A68 nos últimos três anos foram denominados A68b e A68c.

“O icebergue está a ficar muito perto de encalhar, o que significa que vai atingir a plataforma subaquática. Se fizer isso, vai ficar preso ou pode sofrer uma rotação”, diz David Long, diretor do centro de sensoriamento remoto da Universidade Brigham Young, um laboratório que monitoriza os movimentos deste icebergue. David diz que o icebergue pode encalhar com a sua “extremidade pontiaguda”, o que pode fazer com que se quebre mais depressa, e as correntes marítimas podem forçar o resto do icebergue a fazer uma rotação para norte, passando pela Ilha Geórgia do Sul. David espera que o icebergue sofra uma rotação para leste antes de continuar para norte.

Um vislumbre do que está por vir?

As plataformas de gelo como a Larsen C são as extremidades flutuantes dos glaciares terrestres. À medida que um glaciar escoa para o mar, há icebergues que se separam das extremidades das plataformas de gelo que estão viradas para o oceano. Num mundo que não estivesse em aquecimento, estes processos naturais seriam normais. A Larsen C existe há pelo menos 10.000 anos.

O colapso deste icebergue devido ao aquecimento global foi previsto pela primeira vez há mais de 40 anos, mas isso não significa que o aquecimento global tenha impulsionado o A68. “Quando tentamos atribuir algo às alterações climáticas, não o podemos atribuir a um só evento”, diz Kelly Brunt, geofísica da Universidade de Maryland. “As alterações climáticas são um jogo de estatísticas.”

Mas será que este fator pode enviar mais icebergues para a Ilha Geórgia do Sul?

Cerca de 90% dos icebergues que se separam da Antártida viajam no sentido oposto ao dos ponteiros do relógio em torno deste continente, abraçando a costa até atingiram o Mar de Weddell; de onde seguem para norte em direção à Ilha Geórgia do Sul através de uma região designada “beco dos icebergues”.

Em 2002, David Long rastreou todos os icebergues que conseguiu identificar desde 1978 até agora. O resultado foi um aumento exponencial no número de icebergues, aparentemente uma indicação das alterações climáticas. Mas, ao rastrear os icebergues até aos seus pontos de origem, David descobriu que este aumento pode dever-se, em parte, a um ciclo natural de crescimento e deterioração da plataforma de gelo. Portanto, embora não se possa culpar o aquecimento da região através dos dados obtidos naquela época, “não foi descartado que o aquecimento estava a contribuir para esta situação”, diz David.

Em 2017, quando o A68 se separou da plataforma Larsen C, o programa de Observação Antártico Britânico chegou a uma conclusão semelhante, dizendo que as alterações climáticas podiam ter desempenhado um papel, mas que o ciclo de vida natural da plataforma de gelo também desempenhava um papel.

Contudo, o colapso da Larsen B em 2002 demonstrou como uma atmosfera em aquecimento pode ajudar a acabar repentinamente com este ciclo de vida. Lagoas de água derretida formaram-se na superfície da Larsen B, e a água que escorreu pelo gelo ajudou a transformar a plataforma numa armada de icebergues.

O trabalho feito mais recentemente por David Long com cientistas do Centro Nacional de Dados de Neve e Gelo sugere que as plataformas de gelo remanescentes na Península Antártica podem ser muito vulneráveis a este mecanismo de “hidrofratura”. Com base nestas evidências, David diz que podemos esperar mais icebergues à medida que o aquecimento continua.

Saber quantos icebergues irão conseguir chegar à Ilha Geórgia do Sul já é outra questão. Mesmo que os icebergues se tornem mais comuns na região, os que têm o tamanho de um país, como o A68, podem continuar a ser raros. Chris Readinger diz que, desde a década de 1970, o número destes gigantes no “beco dos icebergues” não aumentou ou diminuiu de forma mensurável.

E os icebergues mais pequenos tendem a quebrar-se antes de atingirem a área em torno da Ilha Geórgia do Sul.

“Os icebergues precisam de ser enormes para conseguirem chegar até à Ilha Geórgia do Sul”, diz David Long. “É difícil saber se vamos assistir a um aumento.”

Ameaça para a vida selvagem

Por enquanto, o A68 representa uma enorme ameaça para a vida selvagem e para a biodiversidade marinha da região.

Os grandes icebergues com quilhas profundas “roçam no fundo do mar”, explica Geraint Tarling. “O que é realmente importante sobre a Ilha Geórgia do Sul é o facto de ser incrivelmente diversa no fundo do mar. É uma diversidade quase equivalente à das Galápagos.”

Nos fundos marinhos em torno da Ilha Geórgia do Sul, os cientistas encontraram comunidades frágeis e abundantes de estrelas-do-mar, ouriços-do-mar, vermes e esponjas. Estas zonas também são o lar de uma abundância de peixe e krill antártico, uma parte essencial de uma cadeia alimentar que alimenta focas, pinguins e uma variedade de espécies de baleias.

Se o icebergue encalhar, as focas e os pinguins carismáticos desta região também podem ser afetados, porque pode criar uma parede entre terra e as suas zonas de alimentação nas extremidades da plataforma costeira.

Esquerda: Os elefantes-marinhos podem atingir os seis metros de comprimento e pesar até 4000 quilos. De acordo com o programa de Observação Antártico Britânico, cerca de 50% da população mundial de elefantes-marinhos-do-sul reproduz-se na Ilha Geórgia do Sul.
Direita: Uma colónia enorme de pinguins-reis num vale montanhoso na Ilha Geórgia do Sul. Se o icebergue encalhar na costa da ilha, pode transformar-se numa parede mortal entre os pinguins e os seus locais de alimentação.

Fotografia de MACDUFF EVERTON, NATIONAL GEOGRAPHIC IMAGE COLLECTION (ESQUERDA) E ANDREW COLEMAN, NATIONAL GEOGRAPHIC IMAGE COLLECTION (DIREITA)

“É um momento muito importante no ciclo de vida destes animais, quando os adultos estão a cuidar das suas crias e precisam frequentemente de fazer pequenas viagens para as áreas de alimentação”, diz Geraint Tarling.

Geraint alerta que, mesmo que o icebergue se parta, a frota resultante de pequenos icebergues pode bloquear os trajetos de alimentação dos animais.

O A68, que contém centenas de milhões de toneladas de água doce, vai acabar por derreter, tornando as condições de vida mais difíceis para criaturas como algas e plâncton que se adaptaram para viver em água salgada.

No final de janeiro de 2021, uma equipa de cientistas liderada pelo programa de Observação Antártico Britânico vai partir das Ilhas Malvinas para o icebergue para estudar os seus efeitos no ecossistema. As informações desta investigação serão cruciais para compreender de que forma o ecossistema pode mudar caso o aquecimento resulte em mais icebergues no futuro.
 

 Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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