Os Materiais de Fabrico Humano Têm Agora o Mesmo Peso de Toda a Vida na Terra

A quantidade de betão, asfalto, metal e plástico na Terra está a crescer rapidamente. Este ano pode marcar o ponto em que as coisas artificiais superam os seres vivos.

Publicado 14/12/2020, 16:23
De acordo com um novo estudo, o peso de todas as coisas produzidas pelos humanos – ...

De acordo com um novo estudo, o peso de todas as coisas produzidas pelos humanos – desde pontes de betão, edifícios de vidro e metais, computadores e vestuário – está prestes a ultrapassar o peso de todos os seres vivos do planeta.

Fotografia de McNair Evans/Redux

Os ambientalistas costumam dizer que a humanidade precisa de diminuir a sua pegada planetária. Agora, um novo estudo demonstra literalmente o quão grande é essa pegada.

Embora a massa das formas de vida na Terra ronde os cerca de 1.1 biliões de toneladas métricas e não se tenha alterado muito nos últimos anos, a chamada “massa antropogénica” de materiais artificiais está a crescer exponencialmente. A massa de tudo o que os humanos construíram e produziram, desde pavimentos de betão, arranha-céus de vidro e metal a garrafas de plástico, roupas e computadores, está agora perto da massa dos seres vivos na Terra e pode ultrapassar esse peso este ano, de acordo com uma investigação publicada na revista Nature.

Esta descoberta pode reforçar o argumento de que a Terra entrou no Antropoceno, uma suposta época geológica na qual os humanos são a força dominante que molda o planeta. De acordo com as palavras de um dos autores principais do estudo, Ron Milo, do Instituto de Ciência Weizmann em Rehovot, Israel, “o mundo está a passar por uma transição material que não acontece apenas uma vez na vida, mas sim uma vez numa era”.

Embora esta perspetiva tenha mais importância simbólica do que científica, a escala material do empreendimento humano ajuda a explicar como é que conseguimos transformar os ciclos globais dos nutrientes, alterar o clima e empurrar inúmeras espécies para a beira da extinção.

Esta não foi a primeira vez que se tentou avaliar o impacto da humanidade no planeta. Em 2016, uma equipa de cientistas estimou o peso da “tecnosfera” – incluindo não só os edifícios e produtos completamente artificiais, mas também o peso estimado do solo e do fundo do mar que escavámos, modificámos ou dragámos para construir cidades, plantações, criar gado e pescar. A equipa chegou a um valor de 30 biliões de toneladas. Outros estudos feitos mais recentemente calcularam apenas as mudanças no mundo biológico, como a quantidade de carbono armazenado nas plantas ou o número de galinhas no planeta.

Mas, tanto quanto os autores do estudo sabem, nunca houve uma análise abrangente que olhasse para as alterações entre o peso do mundo artificial e biológico em simultâneo, mas também em separado. Traçar uma comparação entre maçãs e maçãs – ou maçãs e iPhones – dificultou a tarefa aos cientistas

Uma explosão de coisas

Para preencher esta lacuna, Ron Milo e os seus colegas reuniram vários conjuntos de dados publicados anteriormente sobre a massa de materiais artificiais e formas de vida, e construíram uma linha temporal de como ambos mudaram desde o início do século XX até aos dias de hoje. A equipa obteve estimativas da massa antropogénica para os últimos 120 anos a partir de trabalhos recentes no campo da ecologia industrial; e os dados de satélite e modelos de vegetação global forneceram informações históricas sobre as alterações na biomassa global. As descobertas são dramáticas.

No início do século XX, a massa de coisas criadas pelo homem pesava 35 mil milhões de toneladas, ou cerca de 3% da biomassa global. Desde então, a massa antropogénica cresceu exponencialmente para cerca de 1.1 biliões de toneladas. Agora, acumula-se com uma taxa de 30 mil milhões de toneladas por ano, ou seja, é o equivalente a cada pessoa na Terra gerar mais do que o seu próprio peso em produtos manufaturados todas as semanas.

A maior parte deste material é betão – o material de construção de eleição da humanidade – seguido de gravilha, tijolos, asfalto e metais. Se as tendências atuais continuarem, estes materiais manufaturados vão pesar mais do que o dobro de toda a vida na Terra em 2040, ou cerca de 2.2 biliões de toneladas.

Por outro lado, cerca de 90% do mundo vivo é composto por plantas, sobretudo árvores e arbustos. Mas, enquanto os humanos continuam a produzir cada vez mais materiais artificiais todos os anos, o peso das plantas na Terra mantém-se relativamente estável, devido a fatores que os autores do estudo descrevem como uma “interação complexa” entre desflorestação, regeneração florestal e crescimento da vegetação estimulado pelo aumento dos níveis de dióxido de carbono na atmosfera.

Os resultados deste estudo oferecem uma ilustração impressionante do impacto da humanidade de uma forma que nunca vimos antes, diz Jan Zalasiewicz, professor emérito de paleobiologia na Universidade de Leicester que não participou nesta investigação.

“Ficamos com outra perspetiva sobre a velocidade e escala de transformação da superfície da Terra pela humanidade”, diz Jan. “É uma espécie de visão panorâmica de mudança.”

Impacto geológico

Esta visão panorâmica pode complementar o debate sobre se a atividade humana empurrou o planeta para o Antropoceno, uma questão que está a ser investigada pelo Grupo de Trabalho do Antropoceno na Comissão Internacional de Estratigrafia, o corpo de especialistas que supervisiona a escala de tempo geológica da Terra.

Jan Zalasiewicz, que presidiu este grupo de trabalho durante muitos anos, diz que o novo estudo suporta o conceito de que o Antropoceno é “real no sentido físico”. A evidência física do Antropoceno é agora “bastante extensa”, diz Jan, e é provável que deixe uma marca clara no registo fóssil.

Embora a comparação entre massa biológica e massa produzida pelo homem seja um indicador claro do nosso impacto, é importante salientar que a biomassa da Terra também foi profundamente alterada pela humanidade. De acordo com o estudo, pode ter existido duas vezes mais biomassa vegetal na Terra no início da revolução agrícola, há cerca de 12.000 anos, antes de os humanos começarem a limpar vastas áreas de floresta para cultivar o solo. Os humanos e o seu gado ultrapassam agora todos os mamíferos e aves selvagens na Terra por um fator de quase 20.

Com cerca de 4 mil milhões de toneladas, a massa de todos os animais na Terra tem agora apenas metade da massa de plástico produzido (mais de 8 mil milhões de toneladas).

Ron Milo diz que estas alterações na massa e composição da biosfera da Terra são “outro dos aspetos dos impactos da humanidade” que mostra o nosso “efeito dramático” no planeta.

Erle Ellis, cientista ambiental da Universidade de Maryland, no condado de Baltimore, diz que o novo estudo fornece um “conjunto muito bom de ilustrações” do impacto da humanidade. Mas Erle não acredita que seja possível datar com precisão quando é que a massa viva e a massa produzida pelo homem vai atingir um ponto de cruzamento, como este estudo tenta fazer.

“Não se trata de uma questão de precisão científica, pois existem inúmeras formas para calcular números como estes e outras tantas incertezas em muitos destes números”, diz Erle.

Os autores do estudo também reconhecem as incertezas dos dados, incertezas que tornam difícil afirmar com exatidão quando é que a Terra será mais artificial do que biológica em termos de massa. Emily Elhacham, uma das autoras principais do estudo, diz que a maior incerteza está na estimativa da atual biomassa vegetal. O estudo também assume que a fração mais pequena de biomassa animal e microbiana permaneceu constante ao longo do tempo, mas esta suposição pode não ser passível de confirmação através de futuras investigações.

Contudo, é pouco provável que o cenário geral mude, mesmo que os números finais se alterem ligeiramente, diz Jan Zalasiewicz.

“Estou certo de que os números podem ser alterados por estatísticas diferentes. Mas, dada a escala de diferença entre o início do século XX, meados e final desse século, e o início do século XXI, é difícil ver como é que este padrão pode ser alterado.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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