Estes 6 Números Definem os Desafios Climáticos da Nova Presidência dos EUA

Joe Biden assume o cargo durante uma crise climática cada vez mais óbvia e destrutiva. Para a controlar, Biden terá de manter estes 6 números em mente.

Publicado 21/01/2021, 13:57
O presidente eleito Joe Biden discursa enquanto a vice-presidente eleita Kamala Harris assiste, no teatro The ...

O presidente eleito Joe Biden discursa enquanto a vice-presidente eleita Kamala Harris assiste, no teatro The Queen em Wilmington, no estado de Delaware, no dia 16 de novembro de 2020.

Fotografia de Ruth Fremson, The New York Times/Redux

Os números não mentem: 2020 igualou 2016 em termos do ano mais quente de que há registo, um sinal claro de um planeta em perigo.

Estes resultados não são surpreendentes. Apesar de uma queda de 7% nas emissões de carbono dos combustíveis fósseis em 2020 – queda impulsionada pelas disrupções económicas relacionadas com a COVID-19 – os humanos acrescentaram cerca de 40 mil milhões de toneladas de dióxido de carbono à atmosfera, para além dos biliões de toneladas que libertámos desde o século XIX. Com esta pressão sustentada, as temperaturas médias globais vão continuar a subir.

O novo presidente dos EUA, Joe Biden, prometeu enfrentar a crise climática assim que assumisse o cargo no dia 20 de janeiro. Biden prometeu regressar ao Acordo de Paris, cancelar a construção do oleoduto Keystone XL e adotar um programa ambicioso para diminuir de forma consistente as emissões dos EUA. Conforme começa uma nova era na política americana, eis seis números que definem o desafio climático.

1,25°C  |  GRAUS QUE A TERRA AQUECEU

Foi este o aumento médio da temperatura da Terra em 2020, em comparação com o final do século XIX, de acordo com uma análise europeia abrangente. As outras estimativas, da NASA, NOAA, UK Met Office e de outras agências, dizem que o aumento pode ter chegado aos 1,29°C.

O facto de 2020 ter sido tão quente quanto 2016 é particularmente alarmante porque em 2016 o planeta estava a lidar com um poderoso evento El Niño, evento que eleva temporariamente as temperaturas globais em alguns graus. Em 2020, uma ligeira La Niña (a contraparte do El Niño, que normalmente arrefece ligeiramente o planeta) desenvolveu-se no final do ano – mas mesmo isso não conseguiu compensar o efeito estufa do carbono extra.

“Adicionámos um calor forte do género El Niño desde 2016”, diz Zeke Hausfather, cientista climático do Instituto Breakthrough, que trabalhou na estimativa da temperatura anual da organização Berkeley Earth.

Em 2015, quase todas as nações do mundo assinaram o Acordo de Paris, comprometendo-se a manter o aquecimento planetário “muito abaixo” dos 2°C relativamente aos níveis pré-industriais, tendo como objetivo permanecer abaixo dos 1,5°C. Ao ritmo atual – com cerca de 0,2°C por década – a Terra está a caminho de exceder ambas as metas de forma consistente dentro de algumas décadas.

945 MIL MILHÕES DE TONELADAS  |  PARA FICARMOS ABAIXO DOS 2°C

É a quantidade de dióxido de carbono restante no “orçamento de carbono” que daria à Terra uma probabilidade de 66% de aquecimento abaixo dos 2°C relativamente aos níveis pré-industriais. No ano passado, mesmo com o efeito dos confinamentos devido à COVID-19, o mundo emitiu 34 mil milhões de toneladas de CO2 de combustíveis fósseis, pouco abaixo dos 36 mil milhões de 2019. Com mais 6 mil milhões de toneladas ou mais devido ao uso de terras (desflorestação, por exemplo) eleva o total para cerca de 40 mil milhões de toneladas. A este ritmo, esgotaremos todo o orçamento restante em menos de 25 anos.

E o referido orçamento é ainda mais apertado se quisermos atingir a meta dos 1,5 graus. Para uma probabilidade de 50% de alcançar essa meta, o número de emissões cai para os 355 mil milhões de toneladas. Para uma probabilidade de 66%, são apenas 195 mil milhões – o que significa que o mundo teria de reduzir todas as emissões até zero em poucos anos, ou desenvolver rapidamente tecnologias que conseguissem efetivamente retirar o dióxido de carbono do ar.

O orçamento é calculado para todo o planeta, mas são poucos os países responsáveis pela maior parte das emissões que aqueceram o mundo até agora. Os Estados Unidos, por exemplo, são responsáveis por 25% de todo o dióxido de carbono emitido desde 1751. Não existe um consenso internacional sobre a quantidade de orçamento global que cada país pode gastar, mas os especialistas enfatizam que os países desenvolvidos precisam de atingir as emissões-zero o mais depressa possível. O plano climático de Biden visa colocar os EUA no caminho certo para atingir essa meta antes de 2050.

22  |  DESASTRES RELACIONADOS COM O CLIMA NOS EUA EM 2020

22 é o número de desastres climáticos que estabeleceu um recorde nos EUA em 2020. São números muito acima da média a longo prazo de sete desastres por ano e mais do que os 16 que aconteceram durante os anos onde foram batidos recordes, 2017 e 2011.

As alterações climáticas já estão a mudar o caráter, a intensidade e os perigos de muitos tipos diferentes de desastres naturais. Em muitos casos, os cientistas conseguem determinar as suas impressões digitais. Em 2020, por exemplo, arderam 1,6 milhões de hectares na Califórnia, contribuindo para uma temporada histórica de furacões.

As alterações climáticas tendem a abrandar os furacões e a sobrecarregá-los com humidade, fazendo com que despejem quantidades sem precedentes de chuva – como aconteceu com tempestades como o furacão Harvey, que inundou Houston e ajudou a tornar 2017 o ano recorde para os danos relacionados com o clima nos EUA. Um estudo recente mostra que as mudanças na chuva e queda de neve induzidas pelas alterações climáticas contribuíram para cerca de um terço dos danos totais das inundações nos EUA entre 1988 e 2017, danos no valor de mais de 70 mil milhões de dólares.

“São milhares de milhões de dólares por ano em danos nas últimas três décadas, danos que foram provocadas por estas mudanças na precipitação”, diz Noah Diffenbaugh, cientista climático da Universidade de Stanford – e este número só vai aumentar até que as alterações climáticas sejam controladas.

2035  |  ANO EM QUE O GELO MARINHO DO ÁRTICO PODE DESAPARECER

O gelo marinho do Ártico está a diminuir há décadas. Num futuro não muito distante, o oceano Ártico pode ficar sem gelo no verão pela primeira vez em 2 milhões de anos ou mais – um potencial “ponto de inflexão” nesta região que pode remodelar todo o planeta.

O que acontece no Ártico não fica só no Ártico: um polo mais quente pode afetar o clima em lugares tão distantes como a Antártida, influenciando os principais padrões de circulação atmosférica e oceânica. E também pode disparar ciclos de feedback que aceleram o aquecimento. Um verão quente e sem neve pode acelerar o degelo do pergelissolo, que liberta gases potentes de efeito estufa na atmosfera.

O Ártico tem aquecido mais depressa do que qualquer outro lugar do planeta – cerca de 3°C desde 1900 – e este ritmo acelerou nas últimas décadas para quatro vezes a média global. O ano de 2020 encaixa-se perfeitamente nesta tendência dramática de aquecimento. A Sibéria sufocou com uma vaga de calor durante quase seis meses que, no seu auge, elevou a temperatura do ar acima dos 37 graus centígrados. No verão passado, o gelo marinho do Ártico caiu para o segundo menor número de sempre.

Há outros “pontos de inflexão”, como o colapso dos mantos de gelo da Gronelândia e da Antártida Ocidental, ou a falha das plantas em absorver mais carbono do que libertam, que pairam desconfortavelmente no ar caso o aquecimento global não seja mitigado.

28%  |  ELETRICIDADE QUE O MUNDO OBTÉM DE ENERGIAS RENOVÁVEIS

Os analistas da Agência Internacional de Energia (IEA) estimam que as energias renováveis irão em breve ultrapassar o carvão e o gás natural enquanto fontes de eletricidade, tornando-se na maior fonte de energia global em 2025. Ao contrário das previsões feitas no período inicial da pandemia de COVID-19, a instalação de projetos de energias renováveis – sobretudo solares e eólicas – disparou em 2020 e as previsões da IEA continuam a crescer.

Mas será que as energias renováveis vão chegar a tempo? Para cumprir as metas de emissões líquidas zero, a eletricidade renovável terá de ultrapassar quase completamente o carvão e o gás até meados deste século – e também a gasolina, quando mudarmos todos para veículos elétricos. Muitos países, desde a China, Coreia do Sul ou Espanha, estão a aumentar dramaticamente as suas capacidades de energia renovável – e as suas ambições. Os EUA também precisam de fazer o mesmo: em 2019, geravam apenas 17.6% da sua eletricidade a partir de fontes renováveis, menos do que a média global que ronda os 28%.

51%  |  AMERICANOS COM MENOS DE 45 ANOS INFLUENCIADOS PELAS ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS

Esta é a percentagem de americanos com menos de 45 anos que levaram em conta as alterações climáticas nas suas decisões sobre onde viver, de acordo com uma sondagem feita recentemente pela National Geographic e a Morning Consult. Os homens têm mais propensão para ter em consideração as alterações climáticas do que as mulheres, os liberais mais do que os conservadores, e os jovens mais do que os idosos.

Reconhecer que as alterações climáticas são reais, que estão a acontecer agora e que afetam pessoalmente as nossas vidas o suficiente para influenciar a nossa escolha sobre onde viver – é muito relevante, diz Jennifer Marlon, investigadora do Centro de Comunicação Climática de Yale. A equipa de Jennifer faz sondagens desde 2010, perguntando aos americanos sobre a sua compreensão e opinião acerca das alterações climáticas.

“Nos últimos cinco anos, as coisas começaram realmente a mudar”, diz Jennifer. Nas sondagens da sua equipa, o número de pessoas que estão “alarmadas” com as alterações climáticas – pessoas que provavelmente irão levar esta questão a sério, que se irão organizar politicamente e impulsionar mudanças ao nível político – duplicou desde 2015.

Jennifer acredita que este tipo de mudanças vão impulsionar as ações climáticas – e que isso, por sua vez, pode ajudar a sensibilizar muitos americanos que ainda estão pouco ou moderadamente interessados nas alterações climáticas. À medida que um novo presidente com uma ambiciosa agenda climática assume o cargo, talvez em breve saberemos se Jennifer está correta.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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