'Asfixia' dos oceanos tem impacto negativo nos organismos marinhos

Investigadores portugueses realçam que a asfixia dos oceanos se sobrepõe à acidificação e aumento da temperatura das águas. Em risco, encontram-se vários habitats marinhos e economias costeiras.

Publicado 26/02/2021, 14:59 WET
oceano

Este novo estudo afirma que a asfixia do oceano é o fator com mais impacto nos organismos marinhos.

Fotografia de Filipa Coutinho

Um estudo liderado por Eduardo Sampaio, doutorando na Faculdade de CIências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa) e investigador do Laboratório Marítimo da Guia (LMG) e do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE), anuncia que a perda de oxigénio nos oceanos é o fator com maior impacto negativo nos organismos marinhos. O artigo Impacts of hypoxic events surpass those of future ocean warming and acidification,  publicado recentemente na revista Nature Ecology & Evolution, mergulha na análise do impacto da hipoxia oceânica, ou seja, o processo de diminuição da concentração de oxigénio no oceano.

Após a análise dos resultados de cerca de 700 experiências publicadas entre 1990 e 2016, os investigadores observaram o efeito do aquecimento, acidificação e/ou níveis reduzidos de oxigénio no oceano, que se denomina hipoxia.

São já vários os estudos que têm vindo a demonstrar que a vida nos oceanos se encontra em risco, relacionando-o com o aumento de temperatura e a acidificação das águas. No entanto, estas novas conclusões vêm afirmar que a asfixia do oceano é, afinal, o fator que tem mais impacto nos organismos marinhos.

A insuficiência de oxigénio nas águas

A hipoxia causou mais impactos que o aumento da temperatura ou redução do pH em vários aspetos da performance dos organismos, afetando a nível de abundância, desenvolvimento, metabolismo, crescimento e reprodução.

Os dados desta interferência foram observados em várias espécies e grupos de animais, como os peixes, crustáceos ou moluscos, em vários estágios de vida, desde os ovos/larvas até aos organismos adultos, e regiões climáticas temperada e subtropical/tropical.

Perante os resultados obtidos no decorrer da investigação, os autores alertam para a importância de se incluir a perda de oxigénio como uma variável fundamental no estudo dos impactos das alterações climáticas no oceano global.

Os investigadores sugerem também o desenvolvimento de ações de adaptação e mitigação mais direcionadas para os três fatores da asfixia dos oceanos: aquecimento, acidificação e níveis reduzidos de oxigénio, consequência das emissões antropogénicas.

Os oceanos são particularmente afetados pelas alterações climáticas

Uma vez que absorvem o excesso de calor da atmosfera e também uma grande parte do dióxido de carbono emitido, dá-se uma redução do pH dos oceanos, ou seja, a sua acidificação.

A concentração de oxigénio nas águas é também potenciada por processos geofísicos e biológicos, que são constantemente negligenciados perante a asfixia dos oceanos.

Os efeitos da diminuição de oxigénio serão desastrosos para os habitats e as economias costeiras que dependem dos oceanos. Prevê-se uma diminuição de oxigénio até 4% em 2100, tendo já diminuído 2% entre 1960 e 2010.

Mais de 700 zonas costeiras sofrem 

A asfixia dos oceanos é um problema que afeta todos os seres. A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) apresentou o inventário mundial “A desoxigenação dos oceanos: um problema de todos”, na 25.ª Conferência das Partes (COP25) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, em Madrid.

Os dados do inventário indicam que mais de 900 zonas costeiras e mares semifechados em todo o mundo são objetos dos efeitos da eutrofização, isto é, do enriquecimento excessivo das águas com nutrientes ou matéria orgânica. Destas, mais de 700 têm problemas de asfixia dos oceanos, sendo que na década de 60 eram apenas 45 zonas.

Os investigadores responsáveis pelo inventário indicaram que a eutrofização pode ser revertida, se forem adotadas as medidas necessárias, embora a hipoxia causada pelo aquecimento do planeta seja mais difícil de combater, exercendo um esforço drástico na redução das emissões de gases de efeito estufa.

Para além destas medidas, é necessário avaliar as ações humanas impactantes, como a sobrepesca, contaminação, distribuição de habitats e plásticos, uma vez que as consequências a longo prazo terão impacto na saúde humana, na economia e na sociedade, como a perda de biodiversidade, entre outros.

O futuro dos oceanos depende das medidas adotadas no presente

Estas descobertas pedem um novo direcionamento nos estudos, que integre os potenciais efeitos combinados dos três fatores que contribuem para as asfixia dos oceanos. São essenciais projetos que incluam totalmente os impactos futuros da perda de oxigénio dos oceanos.

Envolvidos também nesta investigação estiveram Catarina Santos, Inês Rosa, Verónica Ferreira, Hans-Otto Pörtner, Carlos Duarte e Lia Levin.

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