"A água é um portal para os nossos sonhos"

Violeta Lapa contou-nos como a talassofobia a catapultou para experiências debaixo de água e como a terapia aquática nos permite aceder a memórias e sensações únicas.

Publicado 22/02/2021, 15:55 WET, Atualizado 24/02/2021, 15:09 WET
Violeta durante a primeira viagem de pesquisa nos Açores em 2016. Em busca de palcos naturais ...

Violeta durante a primeira viagem de pesquisa nos Açores em 2016. Em busca de palcos naturais para práticas em conexão com a natureza.

Fotografia de Gustavo Neves

Natureza podia ser o seu segundo nome. Depois de dois episódios de afogamento iminente na infância, um no mar e outro numa piscina, Violeta Lapa desenvolveu uma fobia pela água. Durante décadas repeliu a água - até o simples ato de lavar o rosto!

Trabalhou na Terra dos sonhos, onde organizava eventos que realizavam sonhos de crianças e esse exercício de que tudo é possível deu-lhe a dose de coragem que precisava para realizar o seu sonho. Durante 19 anos tinha um grande desejo: dançar debaixo de água com baleias. “Era o maior sonho e o maior medo porque não sabia como realizá-lo, não sabia nadar.” Há cinco anos atrás cruzou-se com um flyer de um encontro de dança aquática na Tailândia. Embarcou rumo ao seu sonho, e foi lá que aprendeu a nadar em 20 minutos e a dançar debaixo de água. Seguiram-se 30 viagens (20 delas sozinha) para pesquisar e aprofundar a sua relação com a água. Fez vários cursos aquáticos, grande parte deles ligados à terapia aquática, complementando a formação base em educação especial e reabilitação. Encontrou finalmente o seu propósito de vida – a Oceans and Flow.

Violeta Lapa acredita numa forma de ativismo delicado, no diálogo e partilha dos trabalhos incríveis que se desenvolvem à volta do mundo. A Oceans and Flow nasce da herança artística marcada no seu ADN - os pais de Violeta são pintores – e este é um projeto de arte aquática que combina muitas das terapias que tem vindo a aprofundar. Estão disponíveis experiências profundas que unem ecoturismo, aventura, bem-estar, arte, cultura, com diversas práticas aquáticas em conexão com a natureza – que podem ser individuais, em grupo ou em ambiente corporativo.

Nesta entrevista, Violeta descreve como uma experiência absolutamente transformadora estava longe de a fazer acreditar que em 2021 estaria a falar connosco acerca das experiências que oferece.


Crescemos no meio aquático, no ventre das nossas mães. Como conseguimos resgatar essas memórias através do movimento aquático?

Existem várias práticas que nos ajudam a potenciar essa conexão. A terapia aquática, a dança na água, o bodysurf, etc.  No meu caso foi através da terapia aquática e do mergulho em apneia.

A água é um organismo vivo muito misterioso, e a grande maioria das pessoas só a conhece de uma forma mais superficial. É um portal para os nossos sonhos, através dela conseguimos aceder a 'dimensões líquidas’. A água guarda a memória de todos os seres e de todos os tempos. Nós vimos do meio aquático, e vamos perdendo essa ligação após o nascimento e ao longo dos anos. Mas guardamos nas nossas células uma ‘memória marinha’ da nossa espécie, e estas práticas permitem-nos relembrar essa ‘sabedoria aquática' que todos nós temos, ajudando a expandir a nossa respiração, flexibilidade, e a forma como nos movemos na água. Sentimo-nos de volta a casa, às nossas origens.

A Terapia Aquática pode ser uma das experiências mais profundas e libertadoras que podemos experimentar. É uma prática holística que atua em diferentes níveis do Ser, como o físico, mental, emocional, energético e espiritual. O terapeuta assume o papel de cuidador e está presente para proporcionar um ambiente seguro, aplicando técnicas específicas, sejam elas de respiração, massagem, alongamento, relaxamento ou imersão, sempre respeitando os limites e historial de cada pessoa.

A terapia aquática é como uma dança na água, faz-nos relembrar muitas memórias, brincadeiras de infância e sensações, emoções, momentos intrauterinos e traz a experiência da confiança e entrega para o fluxo da vida, tirando cargas emocionais e energéticas através da água, de uma forma leve e profunda. Ajuda a reduzir dor, stress, ansiedade, lesões neurológicas ou ortopédicas, debilitações ou fraquezas musculares. Traz um profundo relaxamento e bem-estar, e aumenta a criatividade. Aumenta o fluxo sanguíneo do corpo e é também muito benéfica na recuperação cirúrgica e em todo o processo de gravidez e pós-parto. É uma ferramenta muito indicada para quem tem medo, fobia ou traumas ligados à água e quem deseja curar a sua relação com este elemento.

“Quanto mais tempo de qualidade estamos na natureza e em verdadeira presença, mais os nossos sentidos se vão amplificando.”

O que nos ensina o contacto com a natureza?

Ensina-nos a escutar. A olhar e ver mais além. A desacelerar e a sintonizar com o nosso ritmo natural. Ensina-nos a amar, a cuidar uns dos outros e do planeta. Todos nós fazemos parte, somos natureza e vivemos interconectados com todos os seres nesta grande teia da vida.

A natureza ensina-nos tudo! E vem com o tempo – quanto mais tempo de qualidade estamos na natureza e em verdadeira presença, mais os nossos sentidos se vão amplificando, conseguimos ter mais capacidade de ver e aprender, mais vamos escutando profundamente. E é muito belo e inspirador. A natureza é um livro aberto acessível a todos. 

O programa Atlantis é o primeiro programa de educação ecológica subaquática em Portugal em que a escola é o oceano. A primeira edição vai iniciar em março, numa primeira fase online, mas assim que seja possível vamos com os nossos alunos para a natureza e para o mar.

Como tem explorado a sua relação espiritual?

A forma como eu me conecto mais profundamente e tenho vindo a desenvolver a minha espiritualidade, é estar na natureza. Quanto mais tempo estou em ambientes naturais, a observar e contemplar os fenómenos da natureza, mais aprendo sobre mim e sobre a vida. Tenho vindo a desenvolver a minha sensibilidade e escuta, e novas capacidades. Depois de conhecer muita ‘tecnologia espiritual’, para mim o mais precioso e simples é desfrutar de momentos de contemplação, como por exemplo ver um pôr do sol ou ver o mar. Manter esse estado de maravilhamento e gratidão, que sentimos quando estamos na natureza.

Para mim a melhor prática de meditação é o mergulho em apneia. Sinto uma conexão direta e não penso em nada, só fico ali imersa e no momento presente, a contemplar a beleza do mundo marinho. Procuro estar mais tempo na natureza e mergulhar cada vez mais.

Violeta Lapa conduz uma sessão de terapia aquática para Hugo Oliveira, no Liquid Zome em Sintra.

Fotografia de Gustavo Neves

A Violeta vive num sítio quase insular, lindíssimo, mas muitos de nós vivemos na cidade, distantes dos rios, do oceano e da floresta. Como podemos nutrir a nossa criatividade durante a pandemia?

Para mim, os momentos de silêncio são muito importantes e eu encontro isso na natureza. Estamos expostos a muito ruído online. Apesar de recebermos muita inspiração no mundo online, a verdadeira inspiração vem de dentro de nós.

“Apesar de recebermos muita inspiração no mundo online, a verdadeira inspiração vem de dentro de nós.”

Agora que estou mais tempo em casa, procuro conectar com a natureza que vive dentro de casa. Por exemplo quando bebo um chá e saboreio essas plantas, imagino o percurso envolvido e de onde elas vêm. Também tem sido interessante cuidar da casa, em várias camadas. Não só a casa onde vivo, mas também a ‘outra casa’. Desacelerar e cuidar melhor de mim. A forma como me alimento, usando a criatividade para cozinhar refeições mais nutritivas e intuitivas. Temos pelo menos três vezes por dia a oportunidade de nos conectarmos com a natureza, através do nosso alimento.

Algo que me traz energia imediata e mais criatividade são os óleos essenciais. Escolho o ambiente natural que quero criar dentro de casa, e tenho sempre comigo na mesa de trabalho e durante as viagens.

Sugiro momentos de contemplação a olhar o céu da janela, exercícios de escrita livre e reflexões, ou um diário que nos permita registar sonhos e inspirações que vamos recebendo. Ter a higiene diária das pausas pode trazer-nos muita criatividade – quem sabe até dedicar algum tempo a uma paixão ou curiosidade que possamos aprofundar ou estudar online, nesta fase em que estamos mais em casa.

“Sempre que inicio um projeto Oceans and Flow de uma expedição ou viagem nos Açores, venho aqui lançar as minhas intenções, este local é o portal da ilha, e foi onde tudo começou na expedição ‘Açores Atlantis”, recorda Violeta Lapa.

Fotografia de Gustavo Neves

Como podemos ensinar as gerações mais novas a encontrar o seu propósito, um caminho que as preencha?

Acima de tudo é seguindo a curiosidade e as suas paixões. Seguir aquilo que os faz vibrar.

E em relação aos talentos, eles vão-se manifestando e aprimorando, através da experimentação. Ainda se potencializam mais, através de práticas ao ar livre e em ambientes naturais. Se houver esse apoio para encontrarem e identificarem o que os faz vibrar, isso vai acabar por acontecer.

Todos nós temos um dom único de fazer algo, mesmo quem acha que não tem. Através desse religar à natureza e à nossa própria natureza, podemos chegar lá.
 

Entrevista atualizada a 24 de fevereiro por forma a incluir mais detalhes numa das questões. 

Continuar a Ler

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registrar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2017 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados