Esta planta muito procurada está a evoluir para se esconder do seu maior predador – os humanos

Esta pequena planta, outrora facilmente identificada pelas suas folhas e flores vibrantes, está a ficar castanha e cinzenta em locais onde os humanos as apanham frequentemente.

Publicado 17/02/2021, 11:58
A pequena Fritillaria delavayi produz um bolbo de flor uma vez por ano. Esta planta é ...

A pequena Fritillaria delavayi produz um bolbo de flor uma vez por ano. Esta planta é muito procurada para uso na medicina tradicional, mas a demanda excessiva pode estar a forçá-la a desenvolver uma defesa subtil de camuflagem.

Fotografia de YANG NIU

No sudoeste da China, no alto das montanhas Hengduan, uma pequena planta está a ficar cada vez mais difícil de encontrar.

Chamada Fritillaria delavayi, esta planta tem entre três e cinco folhas verdes brilhantes e um caule curto. Uma vez por ano, produz uma flor brilhante em forma de tulipa que tem tons de amarelo. Mas as belas flores amarelas e folhas verdes vibrantes começaram a crescer em tons de cinzento e castanho nesta espécie de Fritillaria. Os cientistas suspeitam que a planta está a desenvolver geneticamente partes mais descoloridas para se esconder do seu principal predador – os humanos.

Num estudo publicado na revista Current Biology, cientistas chineses e britânicos descobriram que nas áreas onde a Fritillaria delavayi estava a ser colhida a um ritmo elevado, a planta tinha mais probabilidades de se camuflar.

Nas regiões onde a Fritillaria está a ser mais colhida, a planta está a crescer com folhas, caules e flores de cor castanha e cinzenta que se misturam com o terreno circundante.

Fotografia de YANG NIU

Enquanto que algumas espécies de plantas ficam mais pequenas quando são colhidas em excesso – porque as plantas maiores são colhidas antes de se conseguirem reproduzir – esta planta, usada na medicina tradicional chinesa para tratar doenças pulmonares como bronquite ou tosse, pode ser o primeiro exemplo de uma planta ameaçada que está a evoluir para se misturar com o ambiente circundante.

Uma flor muito procurada

A Fritillaria delavayi é colhida e usada na medicina há pelo menos 2.000 anos, mas a demanda cada vez maior e a oferta cada vez mais escassa desencadeou uma caça ao tesouro. O preço de um quilo de bolbos desta planta – a parte da planta usada medicinalmente – ronda os 480 dólares. Cada bolbo minúsculo tem o tamanho de uma unha de um polegar; para colher um quilo são necessárias mais de 3.500 plantas individuais.

Algumas espécies de Fritillaria podem ser cultivadas, mas a delavayi cresce naturalmente no ar frio e seco das altas altitudes, condições difíceis de replicar para os agricultores, e os consumidores acreditam que as variedades selvagens são melhores, embora não existam evidências que o demonstrem, de acordo com Yang Niu, um dos autores do estudo.

Em 2011, Yang Niu e um grupo de cientistas começaram a estudar a forma como a planta era polinizada, para tentar descobrir por que razão algumas flores pareciam ser masculinas num ano, mas masculinas e femininas noutros anos. Esta investigação falhou quando as plantas marcadas pelos investigadores na natureza foram colhidas e provavelmente vendidas, deixando a equipa sem sujeitos de estudo.

Yang e os seus colegas já tinham estudado plantas que se adaptaram com camuflagem para se esconderem de herbívoros, e ficaram intrigados com esta planta chinesa, uma planta brilhante que não era comida por animais. “Percebemos que a colheita... podia ser uma grande força seletiva”, diz Yang por email.

Como funciona?

Para testar esta teoria, os investigadores consultaram herbalistas locais que tinham mais de seis anos de registos que mostravam onde as plantas cresciam e quantas tinham sido colhidas. A equipa determinou as áreas que já tinham sido fortemente colhidas e de acesso mais fácil – em comparação com as localizadas em terrenos rochosos e montanhosos. Com uma ferramenta chamada espectrómetro, que mede os comprimentos de onda de luz para determinar a cor, os investigadores mediram a cor das plantas em diferentes locais e encontraram uma correlação entre a quantidade da população colhida num determinado local e a cor de uma flor.

Nas regiões menos acessíveis, visitadas por poucos humanos, as plantas ainda tinham um verde e amarelo brilhante, mas nos locais onde os bolbos eram colhidos em grande número, as cores estavam a desbotar. A delavayi é a única espécie de Fritillaria que cresce em altitudes elevadas.

Os investigadores chegaram até a criar um jogo, “Spot the Plant”, para testar a facilidade com que as plantas camufladas eram encontradas. Quando pediram a voluntários para identificar a Fritillaria delavayi entre rochas e poeira, os participantes demoraram mais tempo a localizar os espécimes com cores menos vibrantes.

“É um estudo muito interessante e inovador”, diz Matthew Rubin, biólogo evolucionista do Centro Danforth de Ciências de Plantas em St. Louis, no Missouri, que não participou nesta investigação.

“Sabemos que, através da domesticação, os humanos moldam a aparência das plantas há milhares de anos – a forma como criamos plantas para a alimentação”, acrescenta Matthew. “Este é um ótimo exemplo de uma seleção mediada por humanos na natureza, e o estudo documenta uma mudança e relaciona de forma bastante convincente essa mudança com a pressão humana, neste caso a colheita.”

Embora seja comum os humanos solicitarem a adaptação das plantas indiretamente – mudando o ambiente, por exemplo, induzindo assim a adaptação – isto apresenta uma relação mais rara e direta de homem para planta.

Jill Anderson, bióloga da Universidade da Geórgia, diz que a conclusão do estudo apresenta uma “hipótese aliciante”, mas também diz que, para ficar convencida de que são realmente os humanos a provocar esta camuflagem, precisa de ver mais provas.

Embora os autores do artigo tenham descartado a responsabilidade de herbívoros como iaques nas mudanças da planta, Jill questiona se não poderão ter sido as alterações climáticas, como a luz ultravioleta mais forte em altitudes mais elevadas, a influenciar a mudança na cor da planta.

“Podem existir certamente outras coisas que contribuem para esta alteração – o clima ou a altitude, ou um herbívoro que eles não conseguiram identificar”, diz Matthew. “Mas a relação [entre a pressão exercida pela colheita e a cor] era bastante forte – as populações com pressões fortes devido à colheita tinham a correspondência mais próxima de fundo.”

Criar uma seleção natural

Imaginemos que os agentes de mudança são os humanos: Como é que a colheita de bolbos iria fazer com que a planta ficasse castanha?

“Os humanos colhem as plantas mais visíveis que conseguem encontrar numa população”, diz Jill. “[As plantas colhidas] perdem a capacidade de contribuir para a geração seguinte, ao passo que as plantas camufladas conseguem viver os seus ciclos de vida completos. É um processo de seleção natural nessas populações.”

É possível que a Fritillaria delavayi tenha evoluído num curto espaço de tempo. Esta planta demora cinco anos para se reproduzir, o que significa que todas as plantas verdes brilhantes podem ser colhidas antes de terem a possibilidade de transmitir os seus genes coloridos. Dentro de uma geração ou duas, uma população de plantas dentro de uma área de tráfego elevado pode ter um fundo genético com ADN predominantemente cinzento e castanho, embora os cientistas não tenham feito uma análise genética à planta.

É sabido que os humanos conseguem influenciar outras espécies. Jill diz que, nas suas aulas, destaca o tamanho cada vez mais pequeno de alguns peixes, como o bacalhau-do-atlântico e o salmão-rosa, que são muito procurados pelos pescadores. À medida que os peixes são apanhados nas redes, os mais pequenos conseguem escapar, enquanto que os maiores ficam presos no interior. Com o passar do tempo, a população como um todo fica mais pequena.

“Eles pegaram num conceito que já observámos em muitos sistemas animais e aplicaram-no às plantas. Este é o primeiro artigo que li que considerou explicitamente como a colheita humana pode influenciar uma característica chave como a coloração”, diz Jill.

Existem outros exemplos documentados onde os humanos influenciaram as características de uma planta ao longo do tempo. A Saussurea, outra planta chinesa que também está ameaçada, é cerca de dez centímetros mais pequena do que era há um século nas regiões onde é normalmente colhida. No século passado, o ginseng americano que crescia no leste dos EUA também ficou mais pequeno e começou a produzir folhas mais pequenas.

Yang Niu diz que o governo chinês está a trabalhar na atualização do estatuto de conservação da Fritillaria delavayi para refletir a ameaça crescente e possivelmente para proporcionar proteções mais fortes para a planta. Não se sabe qual é atualmente o tamanho populacional da espécie, mas os levantamentos recentes mostram que o seu estatuto na natureza pode estar em declínio.

“Só o facto de isto estar a ser documentado já um grande começo”, diz Matthew Rubin.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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