Este simples número pode alterar o nosso futuro climático

O custo social do carbono é o “número mais importante sobre o qual ninguém ouviu falar”. Nos EUA, este número está prestes a ficar muito mais elevado.

Published 3/02/2021, 17:01 WET
A Central Elétrica Americana em Conesville, no Ohio, queimou a sua última tonelada de carvão em ...

A Central Elétrica Americana em Conesville, no Ohio, queimou a sua última tonelada de carvão em abril de 2020, depois de ajudar a manter as luzes acesas no Ohio durante 63 anos. Muito do dióxido de carbono que saiu das suas chaminés ainda permanece na atmosfera, aquecendo o planeta.

Fotografia de DANE RHYS, BLOOMBERG/GETTY IMAGES

Entre as várias ações tomadas pelo presidente Joe Biden para responder às alterações climáticas – regressar ao Acordo de Paris, cancelar o oleoduto Keystone XL, interromper as licenças de extração de petróleo e gás, direcionar o governo para comprar veículos com emissões zero – houve uma ação que recebeu menos atenção, mas que pode ser fundamental para o futuro da vida na Terra. Trata-se de um número sobre o qual a maioria das pessoas nunca ouviu falar.

No dia 20 de janeiro, o seu primeiro dia no cargo, Biden ordenou uma revisão imediata sobre o “custo social do carbono”, uma métrica económica instável que representa quanto custa cada tonelada adicional de carbono emitida para a atmosfera. Calculado pela primeira vez pela administração de Obama, este número foi reduzido durante o governo do ex-presidente Donald Trump. Essa redução facilitou as justificações da Agência de Proteção Ambiental de Trump sobre a reversão das principais regulamentações climáticas, incluindo os padrões de economia de combustível da era Obama e o Plano de Energia Limpa.

Os especialistas dizem que esta revisão do valor atribuído ao custo social do carbono, para estar mais uma vez de acordo com a ciência, permite ao governo de Biden elaborar regulamentações mais rígidas sobre os gases de efeito estufa numa miríade de setores da economia e, em última análise, ajudar a cumprir as suas metas climáticas.

“Esta ordem executiva é um passo realmente emocionante na direção certa”, diz Tamma Carleton, economista ambiental da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara. “É entusiasmante saber que esse número será estabelecido e atualizado para refletir a melhor ciência disponível.”

O custo da inação

Lidar com as alterações climáticas tem custos monetários, mas não o fazer também tem. As emissões de gases de efeito estufa estão a aumentar as temperaturas e os níveis do mar, alimentando condições climáticas mais extremas, fatores que estão a destruir propriedades, a diminuir o rendimento das colheitas, a produtividade do trabalho e a matar pessoas. Os danos monetários associados a cada tonelada adicional de carbono (ou a qualquer outro gás de efeito estufa) é o seu “custo social”.

Definir este número permite aos legisladores determinar o benefício monetário que se consegue quando se evita que o gás entre na atmosfera, uma etapa crucial na elaboração de regulamentos. Se o Congresso dos EUA aprovasse um imposto sobre as emissões de carbono – uma medida defendida por muitos economistas – o custo social do carbono também podia ajudar nas decisões sobre os valores apropriados para esse imposto.

“O custo social do carbono é o número mais importante sobre o qual ninguém ouviu falar”, diz Gernot Wagner, economista climático da Universidade de Nova Iorque. “É uma das questões mais importantes das políticas públicas que vão definir a vida neste planeta.”

Após uma decisão histórica do Supremo Tribunal em 2007, que permitiu à Agência de Proteção Ambiental (EPA) dos Estados Unidos regular os gases de efeito estufa ao abrigo da Lei do Ar Limpo, o ex-presidente Barack Obama convocou um grupo de trabalho governamental para calcular o custo social do carbono. Recorrendo a  “modelos integrados de avaliação” que vinculam as simulações climáticas às económicas, o grupo de trabalho apresentou uma série inicial de estimativas em 2010, estimativas que foram atualizadas e revistas ao longo do tempo. No final da administração de Obama, o valor médio para o custo social do carbono era de 52 dólares por tonelada.

Assim que Trump assumiu o cargo, o seu governo dissolveu o referido grupo de trabalho e começou a fazer mudanças no cálculo do custo social do carbono que, segundo os especialistas, foram mudanças inconsistentes com a ciência e economia do clima.

Primeiro, a administração de Trump fez a revisão do custo social do carbono para considerar apenas os danos dos EUA decorrentes das emissões de carbono dos próprios EUA, em vez dos danos globais. De acordo com Tamma Carleton, esta é uma abordagem errada, porque as alterações climáticas são intrinsecamente um problema global, e tanto as emissões dos EUA como as ações para as reduzir afetam o mundo – o que por sua vez afeta os EUA. Por exemplo, quando o país anunciou as suas metas de redução de carbono no Acordo de Paris, muitos países seguiram o exemplo. Os investigadores calculam que por cada tonelada de dióxido de carbono que os EUA prometeram evitar resultou em quase sete toneladas prometidas por outros países.

“Se usarmos apenas as estimativas nacionais, não temos em consideração todas as reduções de emissões de outros países, o que resulta em mais danos climáticos em todos os lugares, inclusive nos EUA”, diz Tamma.

A administração de Trump também fez alterações controversas na “taxa de desconto” usada para calcular o custo social do carbono. A taxa de desconto representa, por exemplo, que os danos no futuro podem ter menos valor para a sociedade do que os danos no presente. Uma taxa de desconto mais elevada significa que a sociedade valoriza menos os danos futuros.

O grupo de trabalho de Obama usou uma taxa de desconto de 3%; a administração de Trump usou 3% e 7% nos seus novos cálculos. Muitos economistas consideram a taxa de desconto mais elevada inadequada para os problemas como as alterações climáticas, que têm enormes impactos intergeracionais.

Com estas alterações, a administração de Trump conseguiu reduzir o custo social do carbono para apenas um a sete dólares por tonelada. De repente, reversões regulatórias que eram impossíveis de justificar de uma perspetiva custo-benefício faziam sentido no papel.

“Basicamente, safaram-se com o custo social do carbono”, diz Gernot Wagner.

Recálculo crucial

Agora, Biden planeia restabelecer um valor mais elevado no custo social do carbono. A recente ordem executiva do presidente pede o estabelecimento de um novo grupo de trabalho que irá publicar um valor provisório dentro de 30 dias e um valor final em janeiro de 2022.

O novo decreto executivo indica que o governo de Biden pretende regressar a um custo social global do carbono e usar um valor que “reflete os interesses das gerações futuras”, sinalizando a sua intenção em regressar a uma taxa de desconto mais baixa. Tamma diz que “ambas as mudanças são atualizações cientificamente válidas e que podem acontecer de imediato”. Num relatório publicado recentemente, Tamma recomendou a redução da taxa de desconto para os 2%, com base nas mudanças verificadas nos mercados globais de capitais. Isto, juntamente com estimativas que levem em consideração os danos globais, em vez de levarem apenas em consideração os efeitos dos EUA, aumentaria o custo social do carbono para os 125 dólares por tonelada.

Nos próximos meses, o grupo de trabalho de Biden pode optar por atualizar os modelos da era Obama para refletir as novas informações científicas sobre o ritmo do aquecimento global e sobre as perdas financeiras provocadas pelo mesmo. “Houve uma explosão nas pesquisas baseadas em dados que medem os impactos das alterações climáticas em diferentes setores”, diz Tamma.

Para Gernot Wagner, “a coisa mais importante que o governo de Biden pode fazer é colocar a ciência de novo neste processo... fazendo com que seja um processo científico sólido com base na economia".

Estratégias disponíveis

Contudo, o valor apropriado para o custo social do carbono não é uma questão puramente científica e não é uma solução mágica para resolver a crise climática.

Alguns dos impactos mais significativos das alterações climáticas, como a perda de biodiversidade e a acidificação dos oceanos, são extremamente difíceis de contabilizar, e os números usados nos cálculos de custo-benefício são apenas palpites de especialistas, diz Tamma. Há outras questões integradas no custo social do carbono – como a atribuição de um valor monetário à vida humana e os níveis de risco a que a sociedade deve estar disposta a assumir quando se trata de impactos climáticos – que permanecem altamente controversas e que são mais filosóficas e políticas do que científicas e económicas.

É por estas razões que Karl Hausker, investigador do clima do World Resources Institute, diz que o custo social do carbono é “uma pedra basilar com deficiências para a política climática”.

“É bom preservarmos algum tipo de análise custo-benefício na criação de regras”, diz Karl. Mas, quando se trata de definir os níveis gerais de ambição na arena das políticas climáticas, Karl e muitos outros especialistas argumentam que devemos usar uma abordagem de “gestão de risco”.

“Se enquadrarmos isto como um problema de gestão de risco em que não podemos exceder uma determinada temperatura, então temos de calcular quantas toneladas de carbono já existem e regressamos às metas das emissões”, diz Karl. “É uma estrutura muito diferente daquela onde se tenta encontrar o ‘nível ideal’ de danos climáticos com base numa análise custo-benefício.”

Paul Kelleher, professor na Universidade de Wisconsin-Madison que estuda as questões filosóficas envolvidas nas políticas climáticas, diz que o custo social do carbono é “uma flecha na aljava maior da política climática”. Mas o ponto de partida para as discussões sobre políticas climáticas, de acordo com Paul, deve centrar-se em como conseguimos evitar cenários climáticos improváveis, mas catastróficos, que não foram enfatizados nos cálculos do custo social do carbono.

Apesar das suas limitações, um custo social do carbono atualizado será uma ferramenta crítica para o governo de Biden tentar estabelecer regulamentos e políticas que conduzam os EUA em direção a uma economia livre de carbono até 2050. E tal como o regresso ao Acordo de Paris, o efeito da revisão do custo social do carbono para valores mais elevados pode ter repercussões para além das fronteiras dos Estados Unidos e ajudar a aumentar as ambições sobre as questões climáticas no mundo inteiro.

“O custo social do carbono nos Estados Unidos já influenciou outros países”, diz Tamma Carleton, salientando que o Canadá, a Alemanha e o México se referiram aos EUA como modelo ao desenvolverem os seus próprios custos sociais do carbono. “Estou confiante de que, se colocarmos tempo e energia a atualizar este número para níveis que estejam mais de acordo com a fronteira entre a ciência e a economia, os outros países farão o mesmo.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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