Afundamento de terras e subida do nível do mar: duas crises enfrentadas pelas comunidades costeiras

A dupla ameaça de alterações climáticas e afundamento de terras influenciada pelo homem significa que os habitantes costeiros a nível global estão a testemunhar um aumento extremo do nível do mar.

Publicado 10/03/2021, 11:51
O muro de retenção de águas da Baía de Jacarta protege lojas, casas e mesquitas. Devido ...

O muro de retenção de águas da Baía de Jacarta protege lojas, casas e mesquitas. Devido à subida do nível do mar e à extração excessiva de águas subterrâneas, a capital da Indonésia é considerada uma das cidades que mais depressa se afundam no mundo.

Fotografia de Ian Teh, Panos Pictures/Redux

Os habitantes costeiros de todo o mundo estão a testemunhar um aumento do nível do mar mais extremo do que o normal, porque estão concentrados em locais onde a terra se está a afundar rapidamente – é a conclusão de um estudo publicado na Nature Climate Change.

Os níveis do mar estão a subir globalmente à medida que os mantos de gelo da Terra derretem e a temperatura da água do mar aumenta. Mas à escala local, a subsidência, ou afundamento de terras, pode agravar dramaticamente o problema. Cidades como Nova Orleães e Jacarta já estão a testemunhar uma subida muito acentuada do nível do mar em relação às suas linhas costeiras – a própria terra está a afundar enquanto a água sobe.

Agora, uma equipa internacional de investigadores demonstrou que esta ameaça dupla é mais do que um problema local. O afundamento de terras torna os habitantes costeiros em todo o mundo desproporcionalmente vulneráveis à subida do nível do mar: os habitantes costeiros estão a passar por uma taxa de subida do nível do mar que é três a quatro vezes superior à da média global.

“Não estamos a falar de uma previsão; estamos a dizer que isto já está a acontecer”, diz o autor principal do estudo, Robert Nicholls, do Centro Tyndall para a Pesquisa de Alterações Climáticas da Universidade de East Anglia. “E é bastante significativo.”

O lado positivo, digamos assim, é que nas regiões onde os terrenos costeiros se estão a afundar, isso deve-se em grande parte às atividades humanas, como a extração excessiva de águas subterrâneas, ou seja, as cidades costeiras podem fazer algo para combater a situação.

De problema local a problema global

Alguns dos fatores que contribuem para a subida (ou descida) dos litorais da Terra estão para além do controlo humano. Partes da Terra ainda se estão a ajustar ao desaparecimento dos glaciares que cobriram o planeta durante a última era glaciar. Nos deltas dos rios costeiros, a terra abate lentamente à medida que os sedimentos recém-depositados são compactados.

Para além destes processos naturais, as atividades humanas, incluindo a extração de águas subterrâneas, extração de petróleo e gás, mineração de areia e a construção de muros de retenção em torno de rios para conter inundações, podem fazer com que o solo se afunde. Impedir os rios de inundar, que é uma coisa boa em si, também impede que os rios espalhem sedimentos que lentamente reconstroem a terra.

Em lugares onde há pessoas concentradas, estas atividades, particularmente a extração de águas subterrâneas, costumam fazer com que a terra abata muito mais depressa do que aconteceria pelos processos geológicos: ao longo do século XX, partes de Jacarta, Nova Orleães, Xangai e Bangkok afundaram entre dois e três metros.

O problema da subsidência de terras e dos seus efeitos na subida do nível do mar está bem documentado em algumas cidades – nas regiões onde a terra se afunda, os oceanos sobem em relação à costa com a mesma proporção. Mas antes deste novo estudo, esse efeito ainda não tinha sido avaliado à escala global. “Queríamos realmente compreender qual é a experiência humana de uma subida relativa do nível do mar, tendo em consideração o abatimento de terras pelo mundo inteiro”, diz Robert Nicholls.

Para estimar a taxa de subida do nível do mar ao longo de milhares de secções costeiras de todo o mundo, Robert e os seus colegas compilaram dados de quatro fontes principais: observações de satélite da subida do nível do mar devido às alterações climáticas; estimativas de como a terra se está a ajustar desde a última Idade do Gelo; dados sobre os abatimentos naturais de terras em 117 deltas de rios e estimativas dos abatimentos provocados pelo homem em 138 grandes cidades costeiras.

As descobertas foram dramáticas. As medições de satélite indicam que a subida do nível do mar impulsionada pelo clima é de cerca de 3.3 milímetros por ano. Robert e a sua equipa descobriram que, entre 1993 e 2015, os litorais da Terra passaram em média por uma elevação ligeiramente mais pequena, de cerca de 2.6 milímetros por ano, porque muita terra ainda está a surgir devido à recuperação da era glaciar. Mas não nas regiões onde a maioria das pessoas vive: durante o mesmo período, os habitantes costeiros da Terra viram os mares subir com uma média de 7.8 a 9 milímetros por ano.

Isto, dizem os autores, reflete o facto de os habitantes costeiros estarem concentrados em áreas que se estão a afundar rapidamente, incluindo deltas e cidades costeiras. O problema é particularmente grave no Sudeste Asiático, região onde 185 milhões de pessoas viviam em 2015 em planícies costeiras de inundação – cerca de 75% do total mundial. Estas pessoas vivem com as ameaças da inundação de rios e a subida do nível do mar.

Se a subsidência de terras continuar com a taxa atual, podem estar em risco muito mais habitantes costeiros nas próximas décadas. O estudo conclui que o crescimento populacional projetado pode fazer com que o número de pessoas que vivem em várzeas costeiras aumente dos 249 milhões registados em 2015 para 280 milhões em 2050. A subida do nível do mar impulsionada pelas alterações climáticas vai colocar mais 25 a 30 milhões de pessoas nas zonas de inundação; e o abatimento contínuo de terras nas cidades costeiras vai adicionar mais 25 a 40 milhões de pessoas nestas zonas.

Harold Wanless, especialista em subida do nível do mar da Universidade de Miami, alerta que pode não ser adequado supor que as atuais taxas de subsidência de terras nestas cidades vão continuar ao mesmo ritmo até meados deste século.

“Xangai, por exemplo, está há algum tempo a tentar limitar o seu afundamento de terras”, escreve Harold por email. “E a subida do nível do mar nos próximos 30 anos vai forçar o abandono de partes destas cidades mais baixas.”

Estratégia fundamental de adaptação climática

De facto, uma das implicações fundamentais do estudo é a de que as cidades costeiras de todo o mundo devem tomar imediatamente medidas para limitar o afundamento de terras, antes que os efeitos combinados de subsidência e subida do mar forcem os habitantes costeiros a recuar para o interior.

Robert diz que, em muitas cidades, o “problema fundamental” é a extração de águas subterrâneas, que faz com que os sedimentos se compactem nos aquíferos e a terra por cima se afunde. Era isto que acontecia em Xangai, onde o afundamento de terras foi reconhecido pela primeira vez como um problema na década de 1920 e foi bastante atenuado nas últimas décadas através de uma gestão melhorada das águas subterrâneas. O mesmo acontece em Tóquio, onde partes da cidade se afundaram mais de quatro metros durante o século XX devido ao rápido esgotamento das águas subterrâneas. Hoje, Tóquio praticamente eliminou o afundamento de terras com regulamentações rígidas sobre o bombeamento de água.

Noutras regiões, como no delta do rio Mississippi, na costa do Louisiana, que se está rapidamente a afundar, desfazer alguns dos danos provocados por medidas históricas de controlo de inundações vai ser fundamental para reduzir o afundamento de terras. Nesta região, um plano multimilionário está em marcha para ajudar a restaurar o ciclo natural de crescimento de pântanos; com a abertura de buracos no sistema de diques do século XX. Isto irá permitir que os sedimentos se espalhem novamente pelos pântanos.

“Cada localidade precisa de compreender a sua situação”, diz Arnoldo Valle-Levinson, oceanógrafo e engenheiro costeiro da Universidade da Flórida, que não participou no novo estudo. Arnoldo diz que o estudo oferece uma boa forma de lembrar os municípios costeiros de que não se trata apenas da subida do nível do mar induzida pelas alterações climáticas. “Em última análise, as estratégias terão de se adaptar aos desafios locais.”

Robert Nicholls concorda que é essencial compreender e abordar as causas locais de afundamento de terras. Mas espera que, ao enquadrar o abatimento de propriedades costeiras como uma questão global, o novo estudo incentive a partilha de conhecimentos entre regiões que já desenvolveram estratégias de mitigação bem-sucedidas, bem como mais consideração sobre esta questão por parte dos criadores de políticas climáticas.

“Podemos encarar a mitigação deste problema como a mitigação dos problemas climáticos”, diz Robert. “Não se trata de resolver um problema ou o outro – trata-se de resolver ambos.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registrar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2017 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados