Os fungos são essenciais para a nossa sobrevivência. Estamos a fazer o suficiente para os proteger?

Durante quase uma década, um cogumelo solitário foi classificado como espécie em perigo de extinção, e os cientistas dizem que outros também podem estar em perigo.

Publicado 29/03/2021, 16:03
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Os cogumelos que arrancamos do solo são apenas as pontas de enormes redes fúngicas que vivem no subsolo e nas árvores.

Fotografia de Rebecca Hale, Nat Geo Image Collection

Em 1863, quando o botânico italiano Giuseppe Inzenga provou um cogumelo férula branco pela primeira vez, descreveu-o como um dos mais saborosos que alguma vez tinha comido.

Encontrado principalmente na cordilheira Madonie, na Sicília, onde cresce em calcário a altitudes de mais de 300 metros, este cobiçado cogumelo é vendido por cerca de 50 euros o quilo.

“Este cogumelo é realmente delicioso. Podemos comê-lo cru e também cozinhado”, diz Giuseppe Venturella, micologista da Universidade de Palermo, na Sicília. Giuseppe compara-o a um cogumelo porcini, salientando que é rico em vitamina B e que a melhor maneira de degustar o seu sabor é prová-lo cru, com um pouco de azeite e queijo parmesão.

“O sabor é suave e muito agradável”, concorda Georgios Zervakis, micologista da Universidade Agrícola de Atenas que estuda a espécie há três décadas.

Pleur nebrodensis, ou cogumelo férula branco.

Fotografia de Giuseppe Venturella

Cem anos depois da satisfação de Giuseppe Inzenga, a mesma espécie de cogumelo, que continua a ser apreciada pelo seu sabor, está agora considerada em perigo crítico de extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza, organização que monitoriza o número populacional de diversas espécies.

A apanha deste cogumelo é proibida nas áreas protegidas do Parque Nacional de Madonie, mas é permitido colher cogumelos maduros, indicados por uma cobertura com laterais que cresçam mais de três centímetros, nas regiões vizinhas. Ao contrário da maioria das espécies de cogumelos, o férula branco frutifica na primavera, com a sua época a durar desde abril até finais de maio.

O férula branco foi o primeiro cogumelo a ser reconhecido pelo impacto que os humanos têm na sua sobrevivência e, entre 2006 e 2015, foi o único do seu tipo a ser mundialmente reconhecido como estando em perigo de extinção.

“Era tão querido pelas pessoas [na Sicília] que, quando os seus números começaram a diminuir, tornou-se parte das conversas do quotidiano”, diz Nicholas Money, micologista da Universidade de Miami, em Ohio.

Mas e os cogumelos em que não reparamos? E quantos desses cogumelos estão em perigo?

“Acreditamos que a verdadeira biodiversidade de fungos está entre um e seis milhões de espécies”, diz Anne Pringle, micologista da Universidade de Wisconsin-Madison – ou especialista em fungos – e exploradora da National Geographic. No entanto, apesar da sua prevalência global, os fungos têm sido historicamente negligenciados nas iniciativas de conservação.

“Como as pessoas comem estes cogumelos”, diz Anne sobre o férula branco, “elas percebem e importam-se. Mas podem haver mais de mil histórias como esta, histórias de fungos em apuros, que simplesmente não conhecemos”.

Portanto, como é que conservamos organismos que não conseguimos ver e que não compreendemos? E por que razão o devemos tentar?

“Sem fungos, a vida como a conhecemos não existiria”, diz Greg Mueller, especialista em conservação de cogumelos e cientista-chefe do Jardim Botânico de Chicago.

Nicholas Money diz que a conservação de fungos é uma preocupação urgente devido à relação que estes têm com as florestas e árvores. “Não podemos ter árvores sem fungos... não conseguimos sobreviver sem fungos. Em termos de saúde do planeta, são extremamente importantes.”

Fungos, cogumelos e micélio

Os cogumelos como os conhecemos – com as suas formas delicadas a sair do solo – são apenas uma pequena parte reprodutiva de um organismo fúngico maior. A porção acima do solo tem a designação de corpo do fruto, mas por baixo do solo, está ligada a uma enorme rede de filamentos microscópicos chamados micélio. Em 1998, os cientistas determinaram que o maior organismo da Terra, pelo menos pela área coberta, era um fungo nas Blue Mountains de Oregon, cujo micélio mede mais de 800 hectares no subsolo.

Alguns dos chamados fungos micorrízicos formam relações simbióticas com plantas. Cerca de 90% das plantas comuns que vemos no solo têm uma relação benéfica com fungos.

“Os filamentos fúngicos penetram nas raízes da planta, formando uma ligação semelhante a uma placenta entre a colónia fúngica e as raízes”, diz Nicholas. “É como se fosse um sistema radicular adicional para a planta.”

Estas redes de raízes ajudam as plantas a absorver água, minerais e nutrientes adicionais e, em troca, o fungo obtém uma parte dos açúcares que são gerados pelas plantas através da fotossíntese.

“Se retirarmos um pedaço de terra do solo, estamos a segurar micélio”, diz Anne Pringle. Os avanços feitos no sequenciamento de ADN têm ajudado os cientistas a perceber que as sequências de ADN de fungos vivem em tudo, seja na terra ou no néctar de uma flor.

Porém, isso também dificulta a sua contagem. Dependendo da espécie, o micélio pode brotar um ou vários corpos de fruto, o que significa que o que vemos acima do solo não corresponde à quantidade de indivíduos que vive por baixo.

“Pode haver micélio debaixo do chão que brota um cogumelo aqui e outro ali”, diz Anne. “Será que são dois indivíduos? Ou será que pertencem ao mesmo indivíduo subterrâneo?”

“Existem formas de o saber”, salienta Anne, “mas são muito morosas e dispendiosas”. A trabalho de Anne tem focado as suas atenções no sequenciamento genético de fungos para ajudar a distingui-los.

Estado dos fungos

Num relatório de 2018 que avaliava o estado dos fungos a nível mundial, os cientistas descobriram que, em comparação com os 68.000 animais e 25.000 plantas avaliados para perceber se estavam existencialmente ameaçados, apenas 56 fungos tinham sido avaliados. Atualmente, 168 cogumelos foram avaliados como estando em perigo de extinção a nível mundial.

Nómadas tibetanos inspecionam fungos cordyceps que estão à venda num mercado. Os fungos são conhecidos pelo seu valor medicinal e podem atingir preços elevados. Os ambientalistas alertam que o excesso de colheita desta espécie pode afetar as pastagens nas montanhas locais.

Fotografia de Kevin Frayer, Getty Images

A colheita excessiva de cogumelos, como aconteceu com o férula branco na Sicília, contribui para o seu declínio. Para além de serem comidos, muitos cogumelos também são apreciados pelo seu valor medicinal. O fungo da lagarta do Tibete, cordyceps sinesis, é usado para tratar um pouco de tudo, desde tosse a dores nas costas. Os cogumelos Chaga, encontrados pelo mundo inteiro e também vendidos como uma cura para praticamente tudo, estão cada vez mais a ser colhidos em excesso, ameaçando as suas populações em determinadas regiões.

Os cogumelos também enfrentam muitas das ameaças enfrentadas pelas plantas. A perda de habitat, poluição e, especificamente, a utilização de fertilizantes com fungicidas, dizimam os cogumelos. Os estudos demonstram que as alterações climáticas também afetam os cogumelos, alterando os níveis de temperatura e humidade que determinam quando brotam em corpo de fruto no solo.

Os cientistas estão atualmente a tentar compreender o efeito que os próprios fungos podem ter no clima.

Em 2013, Greg Mueller e os seus colegas lançaram a Lista Vermelha de Fungos como subsecção para a União Internacional para a Conservação da Natureza. Esta iniciativa foi lançada quando apenas três fungos – dois líquenes e o férula branco – tinham sido classificados em perigo de extinção e procurava destacar a importância da conservação de fungos.

“Outro dos grandes avanços que tem ajudado é o envolvimento da comunidade de cientistas cidadãos”, diz Greg. Os clubes de cogumelos e sites como o iNaturalist e o Mushroom Observer permitem aos entusiastas amadores registarem os cogumelos que encontram e, assim, geram mais dados de campo para os cientistas.

Anne Pringle, que também é vice-presidente do Mushroom Observer, diz que o site até ajudou a redescobrir espécies que se consideravam extintas, como um fungo chamado “dedos de avelã” que se encontra nas montanhas Apalaches e em partes do Reino Unido.

Na última década, o férula branco foi descoberto fora da Sicília, numa ilha grega, e Greg diz que em breve a sua classificação poderá passar de “em perigo crítico de extinção” para “em perigo de extinção”.

Qual é a importância?

Os fungos não são apenas parceiros cruciais para as árvores, como diz Nicholas, também afetam o clima de todo o planeta.

Se caminharmos por uma floresta temperada no outono, tudo que vemos no chão – folhas, ramos – está morto. Mas sob essa camada de material morto está um mundo próspero de fungos a trabalhar para a decompor. Os estudos revelam que os fungos ajudam a fragmentar o carbono armazenado em material vegetal, aprisionando-o no solo. No mundo inteiro, o solo é um enorme reservatório de carbono, contendo mais carbono do que a atmosfera e as plantas juntas.

Ainda estamos a descobrir exatamente como é que os fungos desempenham um papel no ciclo do carbono, quais são os fungos cruciais e de quantos precisamos, diz Anne.

“Digamos que existem 100 espécies [de fungos] que fazem o ciclo do carbono na floresta”, diz Anne. “Será que podemos perder um? Podemos perder dez? Cinquenta? Sessenta? Talvez possamos perder noventa e nove. Quantas espécies podemos perder antes de chegarmos a um ponto de inflexão em que enfrentarmos algum tipo de problema?”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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