Como impedir que as máscaras descartadas poluam o planeta

O equipamento de proteção individual é feito de plástico e não é reciclável. Agora está a ser encontrado em todos os lugares da Terra, inclusivamente nos oceanos. A solução não é complicada: basta colocar o equipamento no lixo.

Publicado 19/04/2021, 13:07
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Os efeitos da pandemia de COVID-19 estendem-se aos ecossistemas oceânicos. Nesta imagem, um leão-marinho-da-califórnia depara-se com uma máscara facial descartada nas águas ao largo de Monterey.

Fotografia de Ralph Pace

Saímos para fazer a nossa caminhada diária. Vemos uma máscara facial no chão. Ninguém quer tocar em algo que protegeu o hálito potencialmente carregado de vírus de outra pessoa. Ali está aquela máscara, até que seja soprada pelo vento – e este problema elementar está a mudar rapidamente a paisagem por todo o mundo, desde parques de estacionamento de supermercados a praias em ilhas desertas.

Conseguimos produzir vacinas em tempo recorde para combater a COVID-19. Mas, aparentemente, o lixo em tempos de pandemia é frustrantemente difícil de solucionar.

Há cerca de um ano, a ideia de que máscaras, luvas e toalhetes descartáveis se podiam transformar em poluentes ambientais globais não era uma preocupação premente. O equipamento de proteção individual, ou EPI, foi considerado essencial para prevenir a propagação da COVID-19. Ninguém sabia quais seriam as quantidades necessárias, ou durante quanto tempo. Depois, a produção explodiu – e agora este tipo de lixo é inevitável.

Desde então, os cientistas construíram uma biblioteca com mais de 40 estudos que documentam a utilização e o descarte de EPI e modelam o que isso representa a uma escala global. Números que inicialmente eram desconhecidos contam agora uma história.

Globalmente, são usadas todos os meses 65 mil milhões de luvas. A contagem de máscaras faciais é quase o dobro – 129 mil milhões por mês. Isto traduz-se em 3 milhões de máscaras usadas por minuto.

Um estudo separado revela que todos os dias são descartadas 3.4 mil milhões de máscaras ou viseiras. Estima-se que a Ásia descarte 1.8 mil milhões de máscaras diariamente, a maior quantidade de qualquer continente no mundo. A China, com a maior população do planeta (1.4 mil milhões de pessoas), descarta quase 702 milhões de máscaras diariamente.

Todos estes equipamentos são considerados descartáveis porque são baratos o suficiente para serem usados uma vez e depois deitados fora. Mas há um senão: estes produtos não desaparecem realmente.

Plástico disfarçado

As máscaras, luvas e toalhetes são feitos de diversas fibras plásticas, principalmente polipropileno, que permanecem no ambiente durante décadas, possivelmente séculos, fragmentando-se em microplásticos e nanoplásticos cada vez mais pequenos. Uma só máscara facial pode libertar até 173.000 microfibras por dia nos oceanos, de acordo com um estudo da Environmental Advances.

“Não desaparecem”, diz Nicholas Mallos, que supervisiona o programa de resíduos marinhos da Ocean Conservancy.

As máscaras e luvas descartadas são sopradas pelo vento para rios e riachos, que os levam para os mares. Os cientistas registaram a presença destes equipamentos em praias sul-americanas, na Baía de Jacarta, no Bangladesh, na costa do Quénia e nas Ilhas Soko desabitadas em Hong Kong. O EPI descartado já entupiu esgotos desde as ruas de Nova Iorque até Nairobi, e obstruiu a maquinaria de saneamento municipal de Vancouver, na Colúmbia Britânica.

Estes materiais também estão a afetar os animais. O galeirão-comum, uma ave de rosto branco com 30 centímetros de altura, foi observado nos Países Baixos a transportar máscaras faciais para construir ninhos – sem esquecer que as suas patas enormes podem ficar enleadas nas alças da máscara. De acordo com um estudo da Animal Biology, isso já aconteceu, por vezes com consequências fatais, com cisnes, gaivotas, falcões-peregrinos e aves canoras.

As máscaras, luvas e toalhetes não são recicláveis na maioria dos sistemas municipais e não devem ser colocados para reciclar no lixo doméstico. As máscaras podem conter uma mistura de papel e polímeros, incluindo polipropileno e poliéster, que não podem ser separados em fluxos puros de materiais individuais para a reciclagem. E também são tão pequenos que ficam presos nas máquinas de reciclagem, provocando avarias. (O EPI usado em instalações médicas é descartado como resíduo médico perigoso.)

Joana Prata, investigadora em saúde ambiental da Universidade do Porto, e autora principal de um estudo sobre as repercussões da pandemia nos plásticos, refere que os cidadãos precisam de informações claras sobre a utilização e eliminação de EPI. “Isto inclui o descarte adequado enquanto resíduo misturado em sacos fechados à prova de fugas”, escreveu Joana.

Um enorme problema global agrava-se

Os problemas criados pelo lixo de EPI surgiram num momento complicado durante o esforço para se reduzir o desperdício plástico. A quantidade de lixo plástico que se acumula nos oceanos pode triplicar nos próximos 20 anos, é não há uma solução real no horizonte. Se cada promessa corporativa em usar mais plásticos reciclados fosse mantida, essa alteração reduziria a projeção para apenas 7%, em vez de triplicar.

A pandemia também aumentou a produção de embalagens descartáveis, pois os consumidores compram agora mais comida para fora – e as interdições aos plásticos descartáveis, incluindo os sacos de compras, foram temporariamente suspensas devido ao receio de que os sacos reutilizáveis propaguem o vírus. Nos EUA, em parte devido aos cortes nos orçamentos municipais, um terço das empresas de reciclagem foram parcial ou completamente encerradas.

O QUE PODE FAZER

* Não deite lixo para o chão – incluindo EPI. 
* Use máscaras laváveis sempre que possível.
* Coloque o EPI usado num saco de plástico, sele-o, e coloque-o no lixo.

Avaliar a propagação

No verão passado, à medida que as máscaras e luvas se começaram a tornar cada vez mais visíveis, a Ocean Conservancy, uma organização sem fins lucrativos que defende a proteção do oceano, começou a avaliar a prevalência de lixo EPI pelo mundo inteiro. A organização adicionou o EPI à sua aplicação para telemóvel, que permite aos voluntários documentar itens de lixo e colocar no site da organização. Numa pesquisa global feita por voluntários que participaram nas limpezas de praia no verão de 2020, foram documentados 107.219 itens individuais de lixo de EPI, embora os líderes da organização tenham concluído que este número está provavelmente “muito abaixo do real”.

Uma medida mais real pode vir dos próprios voluntários; 94% viu regularmente máscaras, luvas e outros detritos de EPI nas suas comunidades, e metade relatou ter visto lixo de EPI diariamente. Cerca de 40% viu lixo de EPI em rios, riachos e oceanos.

“O problema é enorme; não há como o esconder”, diz Nicholas Mallos. “E não se esqueçam de que isto vem juntar-se a uma crise global já existente de lixo plástico. É uma questão de saúde pública e também de saúde do oceano.”

A Ocean Conservany tem feito pressão para se eliminar faseadamente as embalagens de plástico redundantes e desnecessárias. Desde que a pandemia surgiu, a organização também começou a exigir melhorias nas embalagens para takeaway, apelando à sua substituição por outros materiais, como cartão, que não têm o mesmo impacto que as embalagens de plástico quando são descartadas.

O que pode ser feito?

Em março do ano passado, poucos dias depois da declaração de pandemia global, Justine Ammendolia, investigadora marinha sediada em Toronto e donatária da National Geographic Society, começou a reparar em cada vez mais máscaras e luvas no chão enquanto fazia as suas caminhadas diárias. Justine também reparou na falta de monitorização estruturada para o EPI por parte de qualquer órgão governamental ou organização, enquanto este tipo de lixo se espalhava pela cidade.

Para identificar as zonas mais críticas, a própria Justine documentou máscaras, luvas e toalhetes em seis locais, incluindo dois parques de estacionamento de supermercados, uma zona hospitalar, duas áreas residenciais e um trilho para caminhadas. No verão passado, Justine registou 1.306 itens em cinco semanas. Os parques de estacionamento tinham a maior parte, seguidos pela zona hospitalar.

“Não é a maior quantidade de plástico do mundo”, diz Justine, “mas o problema é a forma como vamos mudar depois deste evento, assim como a nossa relação com as coisas descartáveis. Isto chama a atenção para a quantidade de resíduos que estão a ser produzidos. Esse é o ponto de partida para o debate.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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