Indústria de plástico europeia está prestes a crescer devido ao fraturamento hidráulico dos EUA.

Embora a União Europeia esteja a implementar planos agressivos para reduzir o lixo plástico, os países europeus estão a importar gás etano barato para abastecer as suas indústrias de plástico.

Publicado 6/04/2021, 12:33
petroleiro

Um petroleiro carregado com gás fraturado dos EUA chega a Rafnes, Noruega, em 2016. Os países europeus estão a aproveitar o gás fraturado barato para impulsionar a indústria de plástico.

Fotografia de Ilja C. Hendel, laif/Redux

Os planos para a construção de uma enorme e polémica fábrica de químicos em Antuérpia, na Bélgica, estão a chamar a atenção para a crescente importação de produtos químicos dos Estados Unidos por parte de vários países europeus –  subprodutos fraturados de gás natural e petróleo para alimentar a produção de plástico, mesmo num momento em que a União Europeia está a implementar planos agressivos para reduzir o lixo plástico e combater as alterações climáticas.

O comércio de subprodutos petroquímicos entre os Estados Unidos e a Europa, num momento em que a demanda global por plástico aumenta, pode sabotar as metas europeias designadas para a redução de resíduos e emissões de carbono.

A expansão do fraturamento hidráulico nos Estados Unidos criou um abastecimento abundante de etano, um ingrediente para fazer plástico que flui enquanto subproduto do fraturamento para petróleo e gás natural. A disponibilidade de etano e o seu baixo custo levaram a um aumento maciço na produção de plástico no Texas, Louisiana e oeste da Pensilvânia. Desde 2010, foram projetados ou completados quase 350 projetos petroquímicos, com um orçamento total a rondar os mais de 200 mil milhões de dólares, de acordo com o American Chemistry Council, um grupo do setor.

Mas, nos EUA, há muito mais gás etano disponível do que aquele que as fábricas conseguem usar, pelo que as empresas de fraturamento estão a vender quantidades cada vez maiores ao estrangeiro a preços muito baixos. Em 2016, uma frota de enormes navios personalizados começou a transportar gás pelo Atlântico, dando aos fabricantes de plástico na Grã-Bretanha, Noruega e Suécia acesso ao abastecimento deste componente-chave para as suas instalações de processamento.

Estas instalações, conhecidas por “quebra etano”, aplicam pressão e calor intensos – cerca de 815 graus centigrados – para quebrar as ligações entre as moléculas de etano. Este processo “quebra” o etano num gás chamado etileno. Depois, através de pressão e com o auxílio de um catalisador, o etileno é transformado em resina de polietileno, um plástico comum.

Como este processo utiliza enormes quantidades de energia, as suas emissões de dióxido de carbono são substanciais. Isto significa que qualquer expansão da produção de plástico acarreta perigos para o clima, juntamente com a sua contribuição mais óbvia para o desperdício plástico que destrói paisagens, cursos de água e oceanos pelo mundo inteiro.

De acordo com as estimativas de um relatório, em 2015, a quebra de etano e de um ingrediente alternativo chamado nafta criou emissões de carbono equivalentes a 52 centrais elétricas a carvão a nível mundial – e esta pegada pode chegar ao equivalente a 69 centrais elétricas a carvão até 2030 se a indústria continuar em expansão.

“Não faz sentido absolutamente nenhum investir em novas instalações à base de combustíveis fósseis para produzir mais plástico, sobretudo num momento em que temos uma crise de aquecimento global e uma crise de plástico”, diz Andy Gheorghiu, ativista sediado na Alemanha que organizou manifestações contra a fábrica belga. “Na verdade, ambos fazem parte da mesma crise.”

Impasse em Antuérpia

A INEOS, a empresa petroquímica mundial que começou a enviar etano fraturado através do oceano para a Europa, planeia construir uma nova e enorme fábrica de quebra de etano em Antuérpia, na Bélgica. Os analistas da indústria dizem que a fábrica pode duplicar o consumo europeu deste ingrediente.

O projeto seria o primeiro deste género no continente europeu desde os anos 1990, e gerou um impasse com os grupos ambientalistas, para os quais representa mais preocupações sobre o papel omnipresente do plástico na vida moderna e na economia global.

As autoridades belgas receberam de braços abertos o projeto de 3.5 mil milhões de dólares, que garantiria a Antuérpia o estatuto de segundo maior centro petroquímico do mundo (Houston, no Texas, é o primeiro). Mas os grupos ambientalistas não pensam da mesma forma. Os ativistas climáticos ocuparam o local proposto para a construção da fábrica em outubro de 2020. Em novembro, um tribunal belga emitiu uma ordem judicial para suspender o derrube de árvores enquanto as objeções ao projeto eram consideradas, um processo que pode demorar até um ano.

Antuérpia já é um importante centro de plástico e as margens do rio Escalda estão repletas de péletes de plástico bruto do tamanho de lentilhas, conhecidos por nurdles. De acordo com uma estimativa, cerca de 2.5 toneladas – milhares de milhões de péletes individuais – foram derramadas na área em 2018. As referidas nurdles são devastadoras para a vida marinha. “Parecem ovas de peixe, e as aves ou peixes que as ingerem podem morrer de fome porque não comem outra coisa”, diz Tatiana Luján, advogada da ClientEarth, um grupo de defesa que está envolvido na contestação ao projeto belga.

A fábrica da INEOS não iria produzir nurdles, mas forneceria etileno para as instalações que as produzem. A empresa diz que o projeto iria simplesmente substituir as instalações de quebra de etano mais antigas e menos eficientes, e que é pouco provável que aumente a produção geral de plástico da Europa. Mais eficiência significa que a pegada de carbono da nova fábrica terá metade da pegada das antigas, diz Tom Crotty, porta-voz da INEOS.

Esquerda: Em 2013, trabalhadores inspecionavam tubagens na enorme refinaria de etano da INEOS em Grangemouth, Escócia.
Direita: A unidade de processamento de etano de Grangemouth é uma das várias que beneficiam do gás etano dos EUA, que é vendido a baixo custo como subproduto das operações de fraturamento hidráulico.

Fotografia de ROBERT ORMEROD, THE NEW YORK TIMES / REDUX (ESQUERDA); ASHLEY COOPER, CONSTRUCTION PHOTOGRAPHY / AVALON / GETTY IMAGES (DIREITA)

Trazer a expansão petroquímica para a Europa

A construção de novas instalações não garante que as mais antigas sejam encerradas, dizem os opositores. E mesmo que encerrem, a nova fábrica fornecerá um fluxo de etileno que irá sustentar a produção de plástico a longo prazo – quando a Europa está a tentar reduzir a utilização de plástico.

Um enorme esforço europeu para reduzir os plásticos descartáveis está prestes a entrar em vigor em julho. Os itens descartáveis como talheres, pratos, copos e palhinhas vão ser reduzidos, e as tampas têm de estar presas às garrafas para que não se tornem um problema separado. O objetivo é aumentar as interdições nos próximos anos, incluindo metas para a recolha de garrafas de plástico e uma exigência para que as garrafas contenham 25% de material reciclado até 2025.

“O esforço europeu para lidar com o lixo plástico é o mais ambicioso do mundo”, diz Tim Grabiel, advogado da Agência de Investigação Ambiental, um grupo de defesa do ambiente. “Construir novas instalações de produção está em completo desacordo com esse esforço e com as ambiciosas metas de redução de carbono da Europa.”

Como resposta, o grupo PlasticsEurope, do setor do plástico, enfatiza a reciclagem como uma solução, em vez de se concentrar na redução da produção de plástico. Os materiais alternativos têm o seu próprio custo ambiental, diz o grupo.

Os analistas da indústria dizem que, apesar das preocupações com o lixo plástico, é provável que a demanda global por este material versátil continue a aumentar. A sua utilização em automóveis, aviões, eletrodomésticos, materiais de construção, roupas e produtos eletrónicos significa que o seu consumo geralmente acompanha a expansão económica, bem como o crescimento da classe média nos países em desenvolvimento.

O etano dos EUA abastece agora 10% da produção europeia de etano, e a fábrica de Antuérpia pode aumentar esses valores para os quase 20%, diz Patrick Kirby, analista da Wood Mackenzie, uma empresa de consultoria em energia e produtos químicos.

“Este novo abastecimento está a pegar na expansão petroquímica dos EUA e a trazê-la para a Europa”, diz Steven Feit, advogado do Centro Internacional de Direito Ambiental, um grupo de investigação e defesa do ambiente.

Salvação para uma indústria de fraturamento em dificuldades

As vendas de etano têm fornecido os rendimentos que as empresas de fraturamento hidráulico dos EUA necessitam desesperadamente, muitas das quais com dívidas enormes, enquanto lidam com os preços historicamente baixos do gás natural e do petróleo.

A Europa não é o único lugar onde o etano americano está a impulsionar os fabricantes de plástico. No geral, as exportações de etano dos EUA dispararam 585% – de 800.000 toneladas em 2014 para mais de 5.5 milhões de toneladas em 2020, de acordo com a ICIS, empresa de análise em energia e produtos químicos. Segundo a ICIS, o Canadá é o principal mercado, seguido da Índia, Europa e China.

As grandes empresas de combustíveis fósseis, desde a ExxonMobil à Saudi Aramco, encaram o plástico como um produto de crescimento num futuro onde os veículos elétricos e as preocupações com as alterações climáticas podem colocar a produção de petróleo e gás em declínio permanente. O Fórum Económico Mundial previu em 2016 que a produção de plástico iria duplicar em 20 anos. A Agência Internacional de Energia estima que os produtos petroquímicos, incluindo plásticos, sejam responsáveis por metade do aumento na demanda por petróleo nas próximas três décadas.

“O plástico é o Plano B da indústria dos combustíveis fósseis”, diz Tatiana Luján.

Ainda assim, no início do ano passado, a expansão global levou a um excesso na oferta de plástico bruto e respetivos componentes químicos. Inicialmente, parecia provável que o declínio económico global de 2020 induzido pela pandemia iria exacerbar o excesso de oferta. Estas preocupações podem estar no cerne da decisão da INEOS em adiar os trabalhos numa fábrica que deveria funcionar ao lado das instalações de Antuérpia para produzir propileno, outro ingrediente do plástico.

Mas, ao que parece, a COVID-19 não tem sido assim tão má para os fabricantes de plástico. Um ano de disrupções transformou os padrões de gastos, desde a comida entregue ao domicílio às compras online, tudo isto aumentou a demanda por embalagens, e as máscaras e outros equipamentos de proteção também aumentaram. O dinheiro que outrora poderia ter sido gasto em viagens ou entretenimento, foi investido em computadores portáteis, consolas de jogos, aparelhos de ginástica e eletrodomésticos, todos produtos à base de plástico.

“A procura tem-se mantido muito bem”, diz Will Beacham, editor adjunto da ICIS Chemical Business, uma publicação comercial. “Agora, parece que o excesso de oferta pode não ser tão grave quanto se receava.”

Porém, quando se trata de plástico, os críticos dizem que as dinâmicas familiares do mercado costumam estar invertidas. “O que vimos repetidamente é que o plástico é um material em que a oferta impulsiona a demanda”, diz Steven Feit.

“Primeiro, o excesso de etano levou à produção de mais plástico.” E as empresas impõem esse material barato aos consumidores, que muitas vezes têm pouca escolha sobre o que compõe um item ou como este é embalado.

“Em última análise, a questão é direcional”, diz Steven. “Trata-se da quantidade de plástico que estamos a produzir e, neste momento, estamos a produzir demasiado.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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