Para os jovens ativistas climáticos, a pandemia é o momento decisivo para agir

Será que a urgente resposta global dada à COVID-19 pode ser repetida para lidar com as alterações climáticas? Os jovens ativistas acreditam que sim.

Publicado 28/04/2021, 11:41
jovens ativistas climáticos

Retratos de ativistas climáticos. No sentido dos ponteiros do relógio, a partir do canto superior esquerdo: Alexandria Villaseñor, Ghslain Irakoze, Kehkashan Basu, Mayumi Sato, Rosie Mills e Felix Finkbeiner.

Fotografia de VICTORIA WILL, THOMAS JAMIESON, REBECCA HALE, THOMAS JAMIESON, THOMAS JAMIESON, DANA SCRUGGS

Entre todos os traumas do ano passado, há um momento que se destaca para a jovem ativista climática Alexandria Villaseñor como se fosse um termómetro do que está reservado para o planeta. Foi no verão passado, quando o fumo tóxico dos incêndios se espalhou pelo norte da Califórnia e o coronavírus obrigou a um confinamento.

“As lojas estavam fechadas ou não permitiam que as pessoas entrassem, porque não era seguro”, diz Alexandria. “Mas o índice de qualidade do ar era péssimo ao ar livre, o que também não era seguro. Fiquei sem saber que máscara devia usar para o fumo do incêndio e para a COVID. Como é que podia estar protegida de ambas as ameaças?”

Alexandria Villaseñor, de 15 anos, tem falado sobre a ansiedade que sente em relação ao futuro desde que a seca provocada pelas alterações climáticas e o calor intenso transformaram a Califórnia num barril de pólvora. Alexandria acredita que a sua vida adulta será vivida num mundo tão modificado pelas alterações climáticas que será irreconhecível, e as mudanças na Terra serão irreversíveis antes de ela ser maior de idade.

A chegada de um vírus transmissível pelo ar, que matou mais de três milhões de pessoas no mundo inteiro, só aumentou a sua ansiedade, e Alexandria passou parte do ano passado a aprender novas formas de lidar com esta doença. Alexandria aprendeu artes e ofícios, plantou um jardim e adotou um gato. Mas enquanto fundadora de um grupo de educação climática, o Earth Uprising, também trabalhou muitas horas na aplicação Zoom com outros ativistas climáticos para fortalecer um movimento que levou milhões de jovens às ruas em 2019. Alexandria diz que eles estão melhor preparados agora para comparecer em números ainda maiores quando a pandemia abrandar.

“Usámos este tempo para recrutar e educar novos ativistas, preparar ações, campanhas e trabalhar... na nossa comunicação e tecnologia”, diz Alexandria. “Vamos sair desta pandemia muito mais fortes.”

No ano passado, entrevistei vários jovens ativistas climáticos para uma edição especial do Dia da Terra da revista National Geographic, que foi para as bancas no momento em que a pandemia estava a chegar. Nas semanas que antecederam o Dia da Terra de 2021, entrei novamente em contacto com eles para ver como estavam.

Se estes ativistas aprenderam algo animador com a pandemia foi que os líderes mundiais são capazes de responder a uma crise existencial. Os jovens ativistas estão mais determinados do que nunca a exigir aos líderes para responderem à crise climática com o mesmo sentido de urgência que responderam à COVID. Enquanto primeira geração mundial de nativos digitais, estes jovens também podem estar mais bem equipados para impulsionar o seu movimento.

“A COVID é o ponto final na mensagem que estes jovens têm tentado passar sobre as alterações climáticas, a mensagem de que a Terra está desequilibrada”, diz Lise Van Susteren, psiquiatra em Washington D.C. e cofundadora da Climate Psychiatry Alliance, uma organização que educa profissionais e o público sobre alterações climáticas e saúde mental. “Este é o momento que antecede a questão: o que vamos fazer a seguir?”

Adaptação ao novo normal

No início, os jovens ativistas ficaram tão frustrados quanto as gerações mais velhas pela forma como a pandemia alterou as suas vidas de forma tão abrupta.

No Paquistão, onde Rabab Ali, de 12 anos, e o seu irmão, Ali Monis, de 8 anos, processaram o governo pelo direito de viver num ambiente saudável, a vida diária mudou de tal forma que a leitura se tornou na atividade que sustenta a sua família, diz o pai, Qazi Athar Ali, que é advogado ambiental.

Noutros lugares, os ativistas trabalharam online. No Ruanda, Ghislain Irakoze, de 21 anos, que fundou a Wastezon, uma empresa que ajudou a enviar 460 milhões de toneladas de lixo eletrónico para a reciclagem, passou grande parte do seu tempo a trabalhar com funcionários da União Europeia e do Banco Africano de Desenvolvimento para expandir a atividade. Ghislain também cuidou de uma horta, fez exercício para manter a energia e resolveu tomar uma decisão permanente: reduzir os voos. Em 2016, Ghislain fez 26 voos para participar em conferências.

“Ao adotar as conferências remotas em 2020, aprendi que é possível reduzir as emissões dos voos”, diz Ghislain.

Kehkashan Basu, de 20 anos, que ficou de quarentena com os seus pais em Toronto, encontrou formas de manter a Fundação Green Hope, uma organização sem fins lucrativos fundada por ela, a operar no Bangladesh e na Libéria, onde voluntários em vilas afetadas pela COVID distribuíram gratuitamente máscaras, sabão, filtros de água, cobertores e kits de higiene menstrual. A organização também instalou casas de banho no Bangladesh e painéis solares em zonas residenciais, e um centro comunitário e uma escola na Libéria.

“Tentámos fazer o melhor possível para transformar os desafios em oportunidades a cada etapa”, diz Kehkashan. “Eu estava preocupada sobre como é que o meu trabalho e o da Fundação Green Hope iriam progredir, visto que as nossas ações funcionam no terreno. Depois percebi que a tecnologia era uma ferramenta que podia ser usada para nosso benefício, para nos ligarmos a pessoas de todo o mundo... e nos países onde os confinamentos não eram tão rígidos, os membros da fundação podiam ir para as suas comunidades e continuar o nosso trabalho.”

Felix Finkbeiner, de 23 anos, que fundou a organização de plantação de árvores sem fins lucrativos Plant-for-the-Planet, também se reorganizou depois de a pandemia o ter forçado a cancelar palestras na Europa e a mudar os seus estudos para a vertente online. Felix mudou-se para uma aldeia mexicana remota na Península de Yucatan, para se juntar ao maior projeto de plantio da sua organização – uma tentativa para plantar 100 milhões de árvores até 2030 numa floresta gravemente degradada pela exploração madeireira. Felix, um Jovem Explorador da National Geographic, também está a trabalhar com cientistas para preparar experiências de restauração florestal em grande escala.

Mayumi Sato, de 26 anos, que é de ascendência japonesa mas está a iniciar o doutoramento no Reino Unido, trabalhou em diversos programas de investigação que abordam outras questões globais expostas pela pandemia, como o racismo e questões dos direitos humanos.

“Não é preciso uma pandemia para percebermos os debates em torno do movimento Black Lives Matter ou do racismo anti-asiático, mas creio que a pandemia nos deu tempo para estarmos um pouco mais cientes de como, mesmo num mundo não COVID, as pessoas de cor perdem todos os dias a vida devido a uma injustiça estrutural”, diz Mayumi.

Razões para otimismo

De muitas maneiras, a celebração do Dia da Terra em 2021 ofereceu uma visão muito mais promissora do futuro do que no ano passado. Agora, o mundo viu um céu azul sobre Deli, depois de o tráfego na capital indiana ter parado. Os Estados Unidos tomaram medidas para regressar ao Acordo de Paris e o presidente Joe Biden usou o Dia da Terra para anunciar um plano ambicioso que visa reduzir as emissões de carbono em pelo menos metade até 2030.

No entanto, se perguntarmos a estes ativistas climáticos se alguma destas coisas lhes dá esperança para o futuro, então estamos a fazer a pergunta errada. Rosie Mills, de 20 anos, ativista no Reino Unido e estudante na Universidade de Glasgow, na Escócia, vai aguardar para ver quais são as medidas concretas que irão ser tomadas.

“Para ser sincera, o facto de os EUA estarem no acordo de Paris é o mínimo para qualquer esforço global no combate às alterações climáticas”, diz Rosie. “É bom que um país tão grande tenha parado de trabalhar ativamente contra as ações climáticas, mas ainda temos um longo caminho para percorrer.”

Kehkashan Basu, também ela uma Jovem Exploradora da National Geographic, vê uma oportunidade no governo de Biden que não existia no seu antecessor, mas ela descobriu uma lição mais relevante sobre liderança durante a pandemia: “A pandemia reforçou a minha crença de que as mulheres são melhores líderes. Todos os países que recuperaram melhor da COVID tinham líderes femininas.”

Jamie Margolin, de 19 anos, uma das fundadoras do grupo de ativistas climáticos Zero Hour e agora estudante de cinema na Universidade de Nova Iorque, diz que está sempre a ser questionada sobre esperança e otimismo. Embora Jamie tenha dias em que vê “vislumbres de esperança”, ela não crê que seja necessário que todos sejam otimistas.

“Estou exausta e já passei por coisas suficientes para saber que a melhor forma de fazer o universo rir é fazer planos”, diz Jamie. “Não sei se tenho esperança para o futuro, mas levanto-me todos os dias e tomo as medidas que posso para ver se teremos um. Isto pode parecer sombrio, mas essa é a verdade.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registrar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2017 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados