A erva-alheira invasora prejudica espécies nativas – mas os seus efeitos desvanecem com o tempo

Esta erva nociva pode não ser tão má quanto se pensava, sendo mais um sintoma de doença e não a sua causa. E também é comestível – mas cuidado com o cianeto.

Publicado 5/05/2021, 14:46 WEST
erva-alheira (Alliaria petiolata)

A erva-alheira (Alliaria petiolata) é uma erva daninha invasora que é comestível. As investigações sugerem que os seus efeitos nocivos podem desvanecer com o passar do tempo.

Fotografia de DEAGOSTINI, GETTY IMAGES

Lembro-me da primeira vez que vi erva-alheira. Foi em meados da década de 1990, durante uma excursão no quinto ano a um parque no centro de Illinois. Os meus pais falaram-me sobre esta invasora botânica, que era nova em muitas áreas deste estado norte-americano, espalhando-se pelos campos e superiorizando-se às espécies nativas. Eu nunca tinha visto erva-alheira, mas sabia que tinha flores brancas e um odor forte e distinto.

“Se cheirar a alho, vou arrancá-la”, disse aos meus colegas enquanto esmagava as suas folhas e a cheirava. Estava correto – e arranquei-a pela raiz. Este ato aparentemente destrutivo surpreendeu e divertiu os meus colegas da escola católica, mas foi, como lhes tentei explicar, ecologicamente correto.

As plantas invasoras são um problema enorme nos Estados Unidos, e poucas são mais relevantes do que a erva-alheira nas florestas e espaços abertos do Centro-Oeste e Costa Leste – onde esta planta está agora a florescer. A erva-alheira é uma ameaça para as florestas: as suas raízes produzem químicos nocivos que matam os fungos simbióticos dos quais as espécies nativas dependem, diz Don Cipollini, professor de fisiologia vegetal e ecologia química na Universidade Estadual Wright em Dayton, no Ohio. A maioria dos animais não come esta planta, por isso propaga-se de forma descontrolada.

Cada planta de erva-alheira consegue produzir várias centenas de sementes e são muito difíceis, senão impossíveis, de erradicar depois de se estabelecerem numa grande área. Agora, enquanto está em plena floração e é fácil de identificar, é um ótimo momento para a colher, acrescenta Don Cipollini.

Mas esta erva problemática tem os seus limites. As investigações sugerem que se torna menos abundante e destruidora com o tempo e, em alguns casos, pode até ser melhor deixá-la em paz. E, como aprendi numa caminhada recente, a erva-alheira também é comestível – em pequenas doses, é muito saborosa e nutritiva.

Mas tenha cuidado com o cianeto.

Explosão de plantas

A erva-alheira tem um ciclo de vida de dois anos. No primeiro ano, mantém-se junto ao solo, formando pequenas folhas em forma de roseta. No segundo ano, brota para cima no início da primavera, crescendo a uma altura de mais de um metro de altura e produz flores brancas.

As populações de erva-alheira “podem realmente explodir”, diz Jeffrey Corbin, ecologista de plantas do Union College em Schenectady, Nova Iorque. Esta espécie tem-se espalhado lentamente pelo país inteiro desde finais do século XIX, quando foi deliberadamente introduzida em Long Island vinda da sua Europa nativa.

A planta produz uma abundância de glucosinolatos, uma família de químicos que contém enxofre e que está presente em muitos tipos de mostardas, que geralmente têm um cheiro e sabor fortes. São os elementos que conferem ao rábano um sabor forte e tornam a mostarda amarela picante. Mas, no caso das plantas de erva-alheira, os glucosinolatos também são segregados pelas raízes, matando alguns dos fungos micorrízicos simbióticos com os quais a maioria das espécies de plantas e árvores nativas se associa para extrair nutrientes do solo. A erva-alheira, tal como outros membros da sua família, não precisa destes fungos para prosperar.

A menor abundância e diversidade de fungos pode durar muitos anos após a remoção da planta, diz Mark Anthony, ecologista de fungos e investigador de pós-doutoramento no ETH de Zurique.

Algumas investigações também mostram que o poder destrutivo de fungos desta planta talvez enfraqueça as plantas nativas e torne a germinação mais difícil, embora o registo científico seja confuso em relação à gravidade dos seus efeitos.

Apesar de todos os investigadores concordarem que é importante evitar que a erva-alheira se propague para novas áreas, alguns investigadores acreditam que muitas vezes não vale a pena empregar recursos na erradicação da planta depois de esta se estabelecer.

Vale a pena o esforço?

Bernd Blossey, ecologista de plantas da Universidade Cornell, é um dos investigadores que pensa desta forma. A investigação de Bernd e dos seus colegas mostra que em mais de uma dúzia de terrenos na região Nordeste e Centro-Oeste dos EUA, a erva-alheira diminuiu significativamente ao longo dos últimos anos. Nesses lugares, há um “feedback negativo do solo”, onde se acumulam micróbios que afetam a erva, diz Bernd.

“Os micróbios provavelmente estão a alimentar-se dos químicos que as raízes segregam, incluindo os glucosinolatos. Se deixarmos a planta em paz e deixar que os micróbios se acumulem, ela acaba por definhar por si própria, embora seja pouco provável que desapareça por completo. Se a arrancarmos, podemos realmente estar a provocar danos, criando mais distúrbios e potencialmente espalhando as suas sementes, afetando espécies nativas e interferindo na capacidade do solo em repelir o invasor. O tiro sai pela culatra”, acrescenta Bernd.

Alguns investigadores acreditam que a erva-alheira é mais prejudicial do que Bernd sugere e que o fenómeno de auto-definhar não é universal. Mas parece haver um consenso de que a planta não é tão temível quanto se pensava na década de 1990, quando era nova em muitas da áreas da região Centro-Oeste dos EUA.

Um estudo conduzido por Jeffrey Corbin na região nordeste de Nova Iorque descobriu que é quase impossível erradicar a erva-alheira depois de esta se estabelecer numa área grande. Para nos livrarmos dela, precisamos de arrancar quase 100% das plantas todos os anos ao longo de uma década, porque até um quinto das sementes pode atrasar a germinação durante anos. Se arrancarmos apenas 90% das plantas, o trabalho pode demorar 50 anos, calculam os investigadores.

Os investigadores concordam que a melhor opção é evitar que a planta se estabeleça em primeiro lugar – ou detetar a invasão de imediato, diz Don Cipollini.

Mas pode não ser necessário erradicar a erva-alheira para salvar as florestas. “Em muitos aspetos, a sua presença é mais um sintoma de uma doença do que a causa”, diz Richard Lankau, investigador da Universidade de Wisconsin. “Coisas como distúrbios, abundância exagerada de veados-de-cauda-branca, vermes exóticos – estas coisas muitas vezes parecem preparar o terreno para as invasões da nociva erva-alheira.”

Bernd Blossey concorda que as populações desordenadas de veados são a maior ameaça para as plantas nativas, e estes herbívoros também ajudam a erva-alheira porque a evitam quando comem as suas competidoras nativas. As minhocas e vermes, que não são nativos de grande parte do Nordeste americano, também ajudam as bactérias em decomposição a florescer no solo e reduzem o lixo das folhas, algo que parece ajudar de alguma forma a erva-alheira.

Para além das plantas, a erva-alheira também prejudica alguns insetos nativos, como a maravilhosa borboleta Pieris virginiensis. A investigação de Don Cipollini revela que estes insetos, que outrora tinham uma vasta presença pelas florestas da região Leste dos EUA, mas que agora são raros, preferem colocar os seus ovos na erva-alheira em vez de em espécies nativas. Mas quando o fazem, todos os ovos morrem. O mesmo acontece com outra borboleta nativa, a Anthocharis midea.

Invasor nutritivo

Mas, tal como eu acabei por descobrir, a planta é comestível para os humanos. Durante uma caminhada por um parque florestal em Washington D.C. em abril do ano passado, no início do primeiro confinamento devido à COVID, vi algumas pessoas fora dos trilhos, no mato, curvando-se para apanhar algo. Quando perguntei o que era, disseram-me alegremente que estavam a colher erva-alheira. Esta planta pode ser salteada e comida, disse uma das pessoas. E se a moermos e cozinharmos, “dá um ótimo pesto”.

Intrigado, pesquisei na internet e descobri que a erva-alheira pode realmente ser adicionada a saladas e sopas. Mas Don Cipollini explica que a planta produz quantidades significativas de cianeto de hidrogénio – um gás tóxico bem conhecido – quando as suas folhas são cortadas ou mordidas. Este fator evoluiu como uma espécie de defesa contra predadores e ocorre quando uma enzima da planta atua sobre os mesmos glucosinolatos que dão à planta o seu sabor a alho.

Mas o cianeto é facilmente evitado quando se corta e pica a planta, que liberta a maior parte do gás em poucos minutos. Deixar de molho e cozinhar também reduz bastante o cianeto, explica Don Cipollini. Algumas pessoas comem-nas cruas, o que em pequenas doses e apenas ocasionalmente também não é prejudicial – e provavelmente é saudável, já que é rica em vitamina C, zinco e vitamina E. A planta contém menos cianeto do que muitos outros alimentos básicos, incluindo a mandioca, o feijão-de-lima e o sorgo, que são todos processados para remover o químico.

Austin Arrington, fundador de uma empresa de consultoria ambiental chamada Plant Group, tem estudado a viabilidade da colheita como uma forma de potencialmente ajudar a controlar espécies invasoras (embora alerte que fazer isso em áreas urbanas acarreta sempre alguns riscos, como a contaminação através de herbicidas ou de químicos no solo). Austin recomenda que se “refogue a erva-alheira em manteiga ou azeite, como se fosse espinafre ou outras verduras. Creio que combina bem com frango ou porco.”

Depois da descoberta feita durante a minha caminhada, experimentei a planta e apreciei o seu sabor a alho e cebola, que dá um toque especial aos refogados, embora seja melhor se for usada em pequenas quantidades e bem cozinhada, o que reduz o seu amargor. Portanto, embora eu planeie continuar a colher e a comê-la de vez em quando, da próxima vez que passar por uma erva-alheira na floresta, provavelmente vou deixá-la em paz, sabendo o que não sabia na infância: arrancar uma planta aqui ou ali não ajuda muito na luta contra estas plantas invasoras.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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