Angelina Jolie considera as abelhas – e as mulheres apicultoras – guardiãs ambientais

A estrela de cinema e ativista humanitária fala sobre a formação de mulheres para cuidar de abelhas nas reservas da biosfera da UNESCO... e sobre a abelha que ficou debaixo do seu vestido.

Por Indira A.R. Lakshmanan
Publicado 24/05/2021, 11:33
Retrato de Angelina Jolie

“A minha principal preocupação era a segurança”, diz o fotógrafo Dan Winters. "Todas as pessoas no estúdio, exceto a Angelina, tinham de estar com roupas de proteção. O estúdio tinha de estar silencioso e bastante escuro para manter as abelhas calmas... A Angelina ficou perfeitamente imóvel, coberta de abelhas durante 18 minutos e sem uma picada.”

Fotografia de Dan Winters, National Geographic

À primeira vista, é surpreendente ver o rosto e o corpo de alguém com uma beleza icónica cobertos de abelhas. Mas um olhar mais atento conta uma história mais profunda sobre o delicado equilíbrio entre os humanos e os insetos polinizadores dos quais dependemos para muitos dos alimentos que consumimos.

Angelina Jolie posou para um retrato impressionante para a National Geographic para assinalar o Dia Mundial da Abelha e salientar a necessidade urgente de proteção das abelhas – e para um programa da UNESCO-Guerlain que forma mulheres apicultoras-empresárias e protetoras de habitats nativos de abelhas em todo o mundo. O fotógrafo Dan Winters, um apicultor amador, inspirou-se no famoso retrato de Richard Avedon, de 1981, de um apicultor da Califórnia, cujo tronco nu estava coberto de abelhas.

Jolie foi inspirada por diferentes visões: das abelhas enquanto pilar indispensável no abastecimento de alimentos – um pilar que está sob a ameaça de parasitas, pesticidas, perda de habitat e alterações climáticas – e de uma rede global de mulheres que serão treinadas para proteger estes polinizadores essenciais.

A atriz, realizadora e ativista humanitária juntou-se a nós para uma entrevista em Los Angeles, para falar sobre as ligações entre um ambiente saudável, segurança alimentar, capacitação das mulheres e sobre as cerca de 20.000 espécies de abelhas, incluindo 4.000 nativas dos Estados Unidos. De acordo com Angelina, proteger os polinizadores que sustentam a vida é um desafio que está ao nosso alcance.

“Com tanta coisa que nos preocupa em todo o mundo, e com tantas pessoas a sentirem-se sobrecarregadas com más notícias”, diz Jolie, “este é um [problema] que conseguimos gerir”.

Esquerda: Uma micrografia eletrónica de uma abelha obreira.
Direita: A cabeça de uma abelha rainha.

Fotografia de DAN WINTERS

Três em cada quatro das principais culturas alimentares para consumo humano – e mais de um terço das terras agrícolas em todo o mundo – dependem em parte dos polinizadores, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação. Não se trata apenas de frutas, nozes e vegetais; as abelhas também polinizam a alfafa que é consumida pelas vacas e as plantações usadas para vestuário e medicina. Nos EUA, as abelhas por si só permitem uma produção agrícola a rondar os 20 mil milhões de dólares, de acordo com a Federação Americana de Apicultores; e a nível mundial, os polinizadores sustentam uma produção de alimentos de mais 200 mil milhões de dólares.

Contudo, as populações de abelhas em vários países têm sofrido um declínio acentuado na década que se seguiu ao colapso das colónias identificado em 2006. Estas mortes em massa de abelhas têm sido associadas a pesticidas (nomeadamente um grupo de produtos químicos chamados neonicotinóides), ácaros parasitas e a uma redução do habitat nativo que tem sido exacerbada pela monocultura comercial de grande escala. As alterações climáticas também afetaram espécies nativas pelo mundo inteiro, colocando mais de meia dúzia de espécies de abelhas nativas dos EUA na Lista de Espécies Ameaçadas. (Leia sobre a extinção de zangões numa época de ‘caos climático’.)

Jolie foi recentemente nomeada “madrinha” do projeto Mulheres pelas Abelhas, um programa de cinco anos lançado pela UNESCO, o ramo educacional, científico e cultural da ONU, e pela Guerlain, uma empresa francesa de cosméticos. A Guerlain alega que contribuiu com 2 milhões de dólares para formar e apoiar 50 mulheres apicultoras-empresárias em 25 reservas da biosfera designadas pela UNESCO em todo o mundo.

Espera-se que estas mulheres criem 2.500 colmeias nativas até 2025, protegendo 125 milhões de abelhas, de acordo com a Guerlain. Mulheres na Bulgária, Camboja, China, Etiópia, França, Rússia, Ruanda e Eslovénia irão receber formação ainda este ano, com outras no Peru, Indonésia e outros países a ingressar no programa em 2022.

Um dos principais objetivos deste programa é destacar a diversidade das práticas apícolas locais, partilhando o conhecimento de diferentes culturas. Por exemplo, na Reserva da Biosfera Xishuangbanna, na China, os habitantes locais usam colmeias feitas de árvores caídas, seladas com estrume de vaca, para proteger as abelhas no inverno. Na Reserva da Biosfera Tonle Sap, no Camboja, os apicultores criam colónias em ramos inclinados que facilitam a colheita do mel sem danificar a colónia. Os funcionários da UNESCO disseram-nos que, ao abrigo do programa Mulheres pelas Abelhas, nem as colónias nem as rainhas seriam importadas, para evitar a expulsão de abelhas nativas ou a propagação de doenças.

Angelina Jolie assume o seu novo papel com uma experiência invulgar. Enviada especial do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, Jolie participou em quase 60 missões da ONU em zonas de guerra e campos de refugiados nos últimos 20 anos. Em 2003, criou uma fundação de conservação e desenvolvimento comunitário, batizada em homenagem ao seu filho mais velho, Maddox, numa zona rural protegida no noroeste do Camboja. Esta fundação tem trabalhado na remoção de minas terrestres dos tempos de guerra, forma caçadores ilegais como guardas florestais e promove a igualdade de género, entre outros objetivos. E também forma apicultores.

Em junho, Jolie irá juntar-se às primeiras 10 Mulheres pelas Abelhas para participar numa formação acelerada de 30 dias liderada por especialistas do Observatório Francês de Apicultura em Provença, onde Angelina também planeia formar-se em apicultura.

Indira Lakshmanan: Há 20 anos que a Angelina defende populações vulneráveis, sobretudo mulheres e crianças. Qual é a ligação entre as pessoas em risco e as abelhas? Como é que estas duas causas estão interligadas?

Angelina Jolie: Muitas das pessoas em risco vivem deslocadas devido às alterações climáticas ou a guerras que podem ter sido desencadeadas pela escassez de recursos. Ter o nosso ambiente destruído, o nosso sustento retirado, é uma das muitas razões pelas quais as pessoas migram, são deslocadas ou lutam. Tudo isto está interligado.

Os polinizadores, como é óbvio, são extremamente vitais para a nossa vida e o nosso ambiente. Portanto, temos de compreender cientificamente o que acontece se os perdermos. Isto é algo em que podemos trabalhar para resolver.

O que é interessante para mim é que, em vez de avançarmos e dizermos: “Estamos a perder as abelhas, temos determinadas espécies que se extinguiram, ou que estão em extinção”, estamos a avançar e a dizer: “Sim, é assim que temos de as proteger.” Devemos estar mais cientes dos produtos químicos e da desflorestação, mas também apresentar as diferentes coisas que as pessoas podem fazer. Não é preciso ter um terreno, basta considerar apenas ser parte da solução. O que é fascinante é estarmos a enfrentar isto com soluções, capacitando as mulheres com meios de subsistência.

IL: Existem inúmeras ameaças para as abelhas no mundo inteiro.

AJ: Por vezes, muitos destes problemas parecem esmagadores. Mas também existem estas verdades simples e nós agarramo-nos a elas. Quando perdemos espécies, animais ou plantas, estamos a destruir algo. Estamos a destruir o tecido de todas as coisas das quais dependemos. Somos todos inteligentes o suficiente para perceber que estas peças estão muito, muito interligadas e são cruciais. Eu sei que parece que estou a trabalhar agora com as abelhas, mas na verdade, para mim, as abelhas, a polinização e o respeito pelo ambiente, tudo isso está interligado à subsistência das mulheres, [e ao] desalojamento devido às alterações climáticas.

IL: Há formas simples de todos nós podermos ajudar – plantando vegetação nativa, evitando produtos químicos nocivos nos nossos quintais e hortas comunitárias.

AJ: Com tantas coisas que nos preocupam no mundo inteiro, e com tantas pessoas a sentirem-se sobrecarregadas com más notícias e com a realidade sobre o que está a colapsar, esta é uma questão que conseguimos gerir. Podemos claramente intervir todos e fazer a nossa parte.

Penso que muitas pessoas não têm noção dos danos que estão a provocar. Muitas pessoas estão apenas a tentar chegar ao fim do dia. As pessoas querem fazer o bem. Não querem ser destrutivas. Mas não sabem o que devem comprar. Não sabem o que devem usar. Portanto, creio que parte disto passa por querer ajudar a simplificar as coisas para todos, porque precisamos disto. Eu tenho seis filhos e muita coisa a acontecer na minha vida e não sei ser “perfeita”. Penso que é suficiente ajudarmo-nos uns aos outros e dizer: “Este é um caminho a seguir, é simples, e é algo que podemos fazer com os nossos filhos.”

Os jovens são tão educados, tão conscientes. Eles estão muito conscientes dos problemas enfrentados pelo mundo onde vivem. E estão a ser influenciados para comprar isto ou fazer aquilo, ou para não tocar nisto ou não conduzir aquilo. Eles estão sobrecarregados. Portanto, uma das coisas que queremos fazer é tornar [a proteção das abelhas e da biodiversidade] possível e simples.

IL: Os seus filhos sentem-se inspirados pelo seu interesse na conservação e no ambiente?

AJ: Eles certamente estão a crescer muito mais informados. Depende da geração deles. Estamos no fio da navalha. As decisões que tomarmos e as coisas que fizermos nos próximos 10 ou 20 anos vão definir a forma como conseguiremos viver neste planeta. Infelizmente, eles sabem disso. Isto é muito difícil para eles. Não me consigo imaginar a ser novamente criança. Saber se a Terra poderá existir da mesma forma, se haverá abelhas e polinização, não era algo em que pensava quando tinha 12 anos.

Esquerda: Esta fotografia de uma colmeia mostra uma colónia próspera.
Direita: Uma poça de mel.

Fotografia de DAN WINTERS

IL: A Angelina criou uma fundação no Camboja, onde testemunhou a desflorestação e a extração ilegal de madeira. Qual foi a inspiração para apoiar um programa de apicultura nesse país?

AJ: Foi por olhar para o ambiente e para os meios de subsistência. Muitos dos caçadores furtivos tornaram-se guardas florestais e trabalham connosco, e têm feito muito para impedir a extração de madeira e proteger os animais onde podem. E há muita coleta de mel silvestre no Camboja.

É muito importante não nos limitarmos a entrar num país e dizer: “Não tem infraestruturas, não tem estradas, não tem progresso, não tem nada, vamos manter esta área especial e preservá-la.” Precisamos de fazer isso, mas para o fazermos de uma forma que seja realmente sustentável, temos de encontrar formas para as pessoas que vivem nessas comunidades prosperarem e se ligarem a esse ambiente natural.

IL: As abelhas praticam uma forma de democracia onde votam individualmente na escolha de um novo local para o ninho. Parece um bom paralelo para o programa Mulheres pelas Abelhas. Porquê envolver mulheres na apicultura, como é que isso lhes irá dar voz, liderança, influência económica?

AJ: As mulheres têm tantas capacidades. E há muitas mulheres em áreas em que não tiveram oportunidades. Mas têm fome de aprender, têm ótimos instintos para os negócios. Querem ter uma rede de contactos, aprender como ser o melhor apicultor com a ciência e com os métodos mais recentes e ter algo que possam fazer e vender. Não se trata apenas de formar mulheres, mas sim de aprender com mulheres do mundo inteiro que têm práticas diferentes.

Quando uma mulher adquire uma competência, ela ensina isso a outras mulheres, a outros homens e aos seus filhos. Portanto, se desejamos realmente fazer algo e expandir isso, temos de encontrar uma mulher e ajudá-la a perceber qual é o problema, e ela irá trabalhar arduamente para garantir que todos na sua comunidade o sabem.

IL: A primeira formação para estas apicultoras começa já em junho no sul de França. A Angelina vai receber formação. Planeia criar colmeias com os seus filhos em casa?

AJ: Eu tenho muitas flores silvestres e as minhas abelhas estão muito, muito felizes. Sim, estamos a tentar descobrir onde colocar as colmeias. Acho que as vamos colocar no telhado.

Existem dois tipos de abelhas. Isto é dirigido a todas as mulheres: selvagens e solitárias ou domésticas e abelhas. Escolham. A abelha doméstica é aquela que faz o mel, e depois temos a outra abelha, que é selvagem, solitária e vive uma vida muito diferente e não faz mel, mas poliniza.

IL: Que tipo de abelha é a Angelina?

AJ: Ultimamente sinto que tenho sido muito mais uma abelha doméstica, mas no meu coração, sou selvagem e solitária. [Gargalhada]

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IL: A Angelina posou recentemente para um retrato extraordinário do fotógrafo Dan Winters para a National Geographic, e estava literalmente coberta de abelhas e elas estavam a voar à sua frente. Qual foi a sensação?

AJ: Isto vai parecer que estou nas minhas práticas budistas, mas foi ótimo estar ligada a estas belas criaturas. Há certamente um zumbido. Temos de estar realmente imóveis e no nosso corpo, no momento, o que não é fácil para mim. Creio que parte do pensamento por detrás disto era o de que estas criaturas são por vezes encaradas como perigosas ou podem picar. Portanto, como é vamos simplesmente lidar com isso? A intenção é partilhar este planeta. Somos afetados uns pelos outros. É assim que deve ser e realmente parecia, e senti-me muito honrada e com muita sorte por ter esta experiência.

IL: Dan Winters usou a mesma feromona para atrair as abelhas que foi usada por Richard Avedon no seu famoso retrato de um apicultor há 40 anos.

AJ: Foi muito engraçado estar a arranjar o cabelo e a fazer a maquilhagem repleta de feromonas. Não pude tomar banho nos três dias anteriores à sessão porque, segundo me disseram: “Se tivermos vários aromas diferentes a champô, perfume e coisas assim, a abelha não sabe o que somos.” [Eles] não queriam que [as abelhas] me confundissem com uma flor, suponho eu.

IL: E que a tentassem polinizar. [Gargalhada]

AJ: Não sei bem, mas foi interessante. E depois colocámos umas coisas no nariz e nas orelhas para não haver muitos orifícios por onde pudessem entrar.  

IL: Isso é um pouco assustador!

AJ: Houve uma abelha que ficou debaixo do meu vestido o tempo todo. Era como uma daquelas comédias antigas. Continuei a senti-la no joelho, na perna, e depois pensei: “Este é o pior lugar para ser picada. Está a chegar demasiado perto.” Ficou lá o tempo todo em que estivemos a fotografar. E depois, quando tirei todas as outras abelhas, levantei a saia e ela foi-se embora.

 

Esta entrevista foi editada por motivos de extensão e clareza e publicada originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

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