As abelhas estão a acumular microplásticos nos seus corpos

Os cientistas descobriram uma nova forma de monitorizar as partículas de plástico transportadas pelo ar. Mas será que são nocivas para as abelhas?

Por Matt Kelly
Publicado 28/05/2021, 11:39 WEST
abelhas e microplásticos

Uma abelha obreira, Apis mellifera, recolhe alimento numa flor de amêndoa. Os cientistas estão a usar as abelhas para medir os microplásticos transportados pelo ar.

Fotografia de Anand Varma, Nat Geo Image Collection

As abelhas estão particularmente equipadas para apanhar pedaços de microplásticos. Estes insetos estão cobertos de pelos que evoluíram para conter partículas minúsculas que a abelha recolhe intencionalmente ou que encontra nas suas viagens diárias. Estes pelos ficam carregados de electroestática durante o voo, algo que ajuda a atrair partículas. O pólen é obviamente a substância que fica mais retida nestes pelos, mas o mesmo acontece com os restos de plantas, cera e até mesmo pedaços de outras abelhas.

Agora, foi adicionado outro material a esta lista de partículas: plástico. Mais especificamente 13 polímeros sintéticos diferentes, de acordo com um estudo sobre abelhas e microplásticos feito na Dinamarca. O trabalho foi publicado no início deste ano na revista Science of the Total Environment.

Sabe-se que os microplásticos estão amplamente espalhados por todo o planeta. Porém, os cientistas ainda estão a descobrir como se movem pela atmosfera. É difícil recolher amostras e, até agora, a maioria das investigações sobre microplásticos transportados pelo ar foi conduzida ao nível do solo, de acordo com os cientistas.

Contudo, as abelhas – e todas as suas patas e corpos peludos – fornecem um meio viável para avaliar a distribuição de fibras e fragmentos plásticos transportados pelo vento. Graças ao seu alcance vasto na recolha de alimentos, as abelhas podem ser usadas como sondas vivas para determinar como é que os microplásticos estão espalhados pelo mundo.

“Este trabalho demonstra pela primeira vez a possibilidade de se usar as abelhas como um bioindicador para a presença de MP (microplásticos) no ambiente”, afirmam os cientistas.

Ambientalistas em miniatura

Durante décadas, os cientistas usaram as abelhas como sistemas de alerta para a poluição, rastreio de metais pesados, pesticidas, poluição do ar e até mesmo para avaliar precipitação radioativa. Mas as investigações sobre as interações das abelhas com os plásticos, que remontam à década de 1970, têm-se concentrado mais nos macro do que nos microplásticos.

As abelhas cortadeiras, por exemplo, que são semelhantes em tamanho às abelhas-europeias, mas que são solitárias e encontram-se pelo mundo inteiro, usam as suas enormes mandíbulas para cortar pedaços de plástico em forma de meia-lua, como fazem com as folhas e pétalas.

Cientistas no Chile, Argentina, Canadá e Estados Unidos observaram abelhas cortadeiras a recolher pedaços de sacos, embalagens e de outros materiais plásticos e a revestir os seus ninhos com estes materiais. Nos Estados Unidos, um estudo sugeriu que as abelhas também cortavam material dos sinalizadores de plástico usados no levantamento ou marcação de obras para construir ninhos.

No estudo da Dinamarca, os cientistas reuniram milhares de abelhas obreiras, todas fêmeas, de 19 apiários – nove no centro de Copenhaga e 10 de áreas suburbanas e rurais fora da cidade. Os investigadores recolheram as abelhas diretamente no interior das suas colmeias durante a primavera, quando as colónias se estavam a formar. Como as abelhas interagem com plantas, água, solo e ar – áreas onde os microplásticos se acumulam – os insetos tiveram muitas oportunidades para entrar em contacto com plástico. A equipa de recolha usou roupas feitas de fibras naturais e tomou outros cuidados para não contaminar as amostras de abelhas.

As abelhas foram eutanasiadas através de congelação e depois lavadas para remover as partículas presas às suas patas e corpos. Com um microscópio e luz infravermelha, as partículas foram depois classificadas por tamanho, forma e tipo de material.

Quinze por cento das partículas recuperadas eram microplásticos. Entre estas, 52% eram fragmentos e 38% eram fibras. O poliéster era a fibra dominante, seguida pelo polietileno e pelo cloreto de polivinilo. E também tinham fibras naturais de algodão.

As abelhas citadinas apresentavam as maiores contagens de microplásticos, como seria de esperar, pois é sabido que as áreas urbanas contêm as maiores densidades de microplásticos. Mas foi surpreendente observar que as contagens de microplásticos nas abelhas suburbanas e rurais não eram muito inferiores. Isto sugere que a dispersão do vento nivela a concentração de microplásticos em áreas enormes, segundo os cientistas.

“Eu esperava abelhas mais ‘limpas’ nas zonas rurais do que no centro de Copenhaga”, diz Roberto Rosal, professor de engenharia química da Universidade de Alcalá em Madrid e coautor do estudo. “Mas a enorme mobilidade dos pequenos microplásticos oferece uma explicação para isto.”

A poluição por plástico está a prejudicar as abelhas?

A forma como a exposição ao plástico está a afetar as abelhas ainda está em aberto. Os cientistas estão divididos sobre se a construção de ninhos com pedaços de plástico por parte das abelhas cortadeiras é simplesmente uma evidência de que os insetos se estão a adaptar à presença de um novo material, ou se, em última análise, pode ser prejudicial.

Num estudo publicado no início deste ano na Journal of Hazardous Materials, cientistas na China tentaram avaliar os potenciais riscos que os microplásticos representam para as abelhas. Os investigadores chineses alimentaram as abelhas com microplásticos de poliestireno durante duas semanas e descobriram que o plástico não alterava a sua taxa de mortalidade. No entanto, alterou o microbioma das abelhas – as bactérias intestinais essenciais para as funções biológicas mais básicas das abelhas – de uma forma que a equipa concluiu que podia apresentar “riscos substanciais de saúde”.

A equipa descobriu que a taxa de mortalidade das abelhas subia dos menos de 20% para os cerca de 55% quando as abelhas consumiam uma combinação de poliestireno e tetraciclina, um antibiótico comum usado na apicultura para prevenir uma doença larval. “Isolados, os microplásticos podem não ser o contaminante mais tóxico, mas a presença de outros químicos pode aumentar a sua toxicidade”, concluíram os investigadores chineses.

Illaria Negri, investigadora da Università Cattolica del Sacuro Cuore, em Itália, que não esteve envolvida nos estudos mencionados, expressou uma preocupação semelhante. “Os efeitos tóxicos dos microplásticos podem ser exacerbados quando acontecem em combinação com outros poluentes, como pesticidas, medicamentos veterinários e aditivos plásticos”, diz Illaria por email.

“Alguns pesticidas podem ser absorvidos pelos detritos plásticos, e podem ter efeitos devastadores na saúde das abelhas e de outros animais e insetos se forem ingeridos.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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