Brian Skerry: “Ainda há muito que não sabemos sobre o nosso planeta de água”

Por ocasião do lançamento da série Os Segredos das Baleias no Disney+, conversámos com o fotógrafo que passou mais de 10.000 horas debaixo de água a explorar o oceano e a conhecer os amáveis gigantes que nele habitam.

Publicado 5/05/2021, 15:33
Retrato de Brian Skerry. As suas imagens da vida marinha visam sensibilizar e promover a proteção ...

Retrato de Brian Skerry. As suas imagens da vida marinha visam sensibilizar e promover a proteção dos oceanos.

Fotografia de JORDAN ROTH, 21ST CENTURY FOX

O fotógrafo Brian Skerry passou mais de 10.000 horas debaixo de água a explorar o oceano com a sua câmara. Fotógrafo da National Geographic há duas décadas, Brian Skerry é internacionalmente conhecido pelas suas imagens de vida selvagem e ambientes submarinos, imagens que iluminam de forma diferente criaturas complexas e empáticas, frequentemente vistas como monstros marinhos. A sua paixão por este mundo estranho, o nosso mundo, é ilimitada e contagiante. E a sua vontade de o proteger também, como disse Cousteau, o que ele – o que nós – amamos.

Por ocasião do lançamento da série Os Segredos das Baleias no Disney+, Brian Skerry aproveitou para responder a algumas das muitas perguntas que lhe queríamos colocar.
 

Mergulhar como o Brian faz é quase como trabalhar num ambiente alienígena. O que aprendeu nesse outro mundo?
A sua descrição é perfeita. É um mundo alienígena, mas é o nosso mundo. Vivemos num planeta de água e, embora sejamos criaturas terrestres e tenhamos tendência para ver o nosso mundo do ponto de vista terrestre, vivemos num planeta de água. Quando olhamos para a Terra do espaço, vemos aquela linda pérola azul a flutuar na escuridão do espaço. Não só três quartos da superfície da Terra são cobertos por água, como o oceano é o lar da grande maioria das espécies [Nota editorial: Estima-se que o oceano tenha entre 50 a 80 por cento das espécies]. O que aprendi é que ainda há muito que não sabemos sobre o nosso planeta de água... por isso, é do nosso interesse explorar este lugar e protegê-lo. Tudo o que um ser humano respira vem do mar. A origem do oxigénio que respiramos agora, 50 por cento é gerado pelos oceanos. No entanto, historicamente, não tratamos muito bem o oceano. Tiramos tudo do oceano, e atiramos tudo para o oceano. Portanto, o que aprendi é que o oceano é vasto, mas não tem tamanho suficiente para ser infalível. E pode falhar por completo se não o tratarmos bem.

No episódio “Gigantes dos Mares”, testemunhamos um raro encontro entre o Brian e uma cria de cachalote. Suponho que sejam momentos como este que destroem todos os preconceitos errados que alguém possa ter sobre estes chamados “monstros marinhos”.
Perfeitamente resumido, não há muito mais a dizer, mas é verdade, eu realmente digo isso a muitas pessoas. Até há pouco tempo caçávamos baleias pelo mundo inteiro e líamos livros como Moby Dick – um livro maravilhoso de Herman Melville, mas os retratos destes animais eram os de vilões, monstros, criaturas violentas que destruíam navios e matavam marinheiros. E a realidade é muito diferente. São animais dóceis, têm muito amor e empatia, celebram a sua identidade, a sua família, a sua cultura... e para mim entrar na água com um animal assim é muito especial. É importante reconhecer que, enquanto fotógrafo subaquático, tenho de estar muito perto dos meus temas. Não posso usar uma teleobjetiva ou uma lente de 600 mm, não me posso esconder numa tenda na selva e esperar. Tenho de entrar na água, tenho de suster a respiração e de me aproximar destas baleias, e isso significa que elas têm de me deixar aproximar.

No episódio que mencionou, tratava-se de uma cria nova, era muito especial... era uma família que tinha dificuldades em ter crias do sexo feminino. Estas sociedades são matriarcais, são lideradas por fêmeas e não tinham crias do sexo feminino. Agora, havia uma nova bebé à qual chamei Hope (Esperança), porque ela trazia muita esperança. E poder estar no oceano num dia ensolarado com esta cria... a mãe estava algures, não muito longe, mas não estava exatamente ali, e aqui estava uma cria a brincar com aquela alga amarela. E ela escolheu interagir comigo e nadar comigo e foi como um sonho, uma fantasia.

Estes animais não são o que pensávamos e são ainda mais complexos, têm identidades.

Os Segredos das Baleias - trailer
Todos os episódios de “Os Segredos das Baleias” já estão disponíveis no Disney+.

As baleias têm culturas: cada família fala uma linguagem única. São animais que amam, sofrem, são divertidos e curiosos. São mais parecidos connosco do que pensamos. Acredita que as pessoas tratariam os animais de maneira diferente se compreendessem o facto de que eles têm processos de pensamento, emoções e ligações sociais?
Sim. Acredito que trataríamos melhor os animais e que trataríamos melhor o planeta e nós próprios. Essa é a mensagem de Os Segredos das Baleias: estes animais, tal como os humanos, têm tradições ancestrais que passam de geração em geração. A cultura é importante para eles. E sabemos que isso é uma mudança de paradigma. Durante muito tempo estivemos separados da natureza ou acima dela e, à medida que começamos a ver o mundo natural através das lentes de personalidade, cultura e identidade, isso muda a nossa visão e talvez nos faça amar o nosso planeta um pouco mais, percebendo que não estamos sozinhos e que partilhamos o planeta com estas criaturas inteligentes e que estamos todos juntos nisto. O que fazemos afeta os animais e a forma como o oceano nos afeta. Está tudo interligado. Costumo dizer que é como as engrenagens de um relógio bem feito. Funciona tudo perfeitamente na natureza em harmonia, mas quando começamos a mover estas engrenagens, as coisas começam a desmoronar. Portanto, sim, quanto melhor compreendermos os animais e os seus sentimentos, creio que melhor será para todos.

Numa determinada altura é possível vê-lo a colocar a câmara de lado para desfrutar realmente do momento e da presença do jovem cachalote, para simplesmente lhe agradecer. Como é que equilibra a necessidade de tirar fotografias com a necessidade de viver o momento?
Não sei se já viu o filme A Vida Secreta de Walter Mitty. Há uma cena nas montanhas e Sean Penn, que interpreta um fotógrafo lendário, está à espera para fotografar um leopardo-das-neves. E quando finalmente avista um leopardo, Ben Stiller, que está atrás de Sean Penn, pergunta “Não vai tirar uma fotografia?” e Sean Penn diz “Não, às vezes eu faço isto só para mim”. Eu adoro essa cena e consigo identificar-me com a situação. Mas a verdade é que estamos a trabalhar para a National Geographic e não nos podemos dar ao luxo de não tirar a fotografia. Mas numa situação como a que você descreveu, com Hope em Dominica, aquela pequena baleia foi muito generosa e ofereceu-me mais de uma hora. Isso é raro. Eu já tinha tirado inúmeras fotografias e chegou a um ponto em que surgiu algo no meu cérebro e disse “precisas realmente de parar de fotografar e desfrutar apenas o momento”. Sabe, faço este trabalho há décadas e se não fosse pelas fotografias que tenho, talvez não me lembrasse de muitos destes momentos. Porque quando estamos a fotografar, estamos muito confusos, o nosso coração está acelerado, estamos a tentar fotografar, queremos fazê-lo bem... e não nos lembramos da experiência. Mas com Hope, tive o luxo de poder baixar a câmara e apenas dizer a mim próprio “Estou a nadar com uma cria de cachalote no meio do oceano, que está escolher deixar-me entrar no seu mundo”. Isto era muito raro, mas muito especial.

A maioria das espécies retratadas na série está ameaçada de extinção e sofre bastante, quer seja devido à poluição da água, poluição por plástico ou equipamentos de pesca. Como lhe parece o futuro dos oceanos?
Essa é uma questão muito importante. Não sei, gostaria de ter uma bola de cristal e conseguir prever. Acho que estamos a viver um momento crucial na história, onde talvez pela primeira vez compreendemos os problemas e compreendemos as soluções. E a questão é: O que vamos fazer? Vamos escolher, como disse Cousteau, proteger o que amamos, ou vamos assistir e testemunhar a destruição? Eu gostaria de pensar que será a primeira, que protegemos o que amamos, mas isso vai dar muito trabalho e vai exigir empatia da nossa parte e uma compreensão do que isso significa para nós e para os nossos filhos. Os Segredos das Baleias não é sobre más notícias, mas talvez através das lentes da cultura, da família e das emoções, as pessoas se importem mais com o planeta. Creio que a minha resposta é a de que estou cautelosamente otimista. Acredito que se as pessoas razoáveis ​​receberem boas informações e boa ciência e tiverem uma compreensão clara do que precisa de ser feito, essas pessoas farão as escolhas corretas. Mas não vai ser fácil. Eu sou realista em relação aos desafios que temos pela frente.

As filmagens duraram três anos e foram feitas em 24 localizações, e embora o propósito seja universal, há algo de muito pessoal nesta série...
Absolutamente. Você devia fazer parte da equipa de argumentistas! Você está a enquadrar a série exatamente da maneira que eu esperava que as pessoas a vissem. Houve tantos documentários excelentes sobre baleias e outras criaturas marinhas, mas muitas vezes é tudo muito clínico. Quando comecei, há décadas, os cientistas nunca falavam sobre personalidade ou emoções. Nunca dariam um nome a um animal. Mas isso hoje está a mudar. Os cientistas estão bastante cientes do facto de que estes animais têm personalidades, emoções... e, portanto, séries como Os Segredos das Baleias estão a acolher as pessoas e a mostrar-lhes exatamente isso. Não compreendemos todas estas coisas, estamos apenas a começar a revelar as linguagens, os dialetos, as relações que as baleias têm. Mas quando sabemos que isto existe, não o conseguimos ignorar. Vemos o mundo de uma maneira diferente. É como no Feticeiro de Oz, quando Dorothy sai do mundo a preto e branco e vai para o mundo a cores. Não há como voltar atrás.

Na verdade, faz-me lembrar o trabalho de Jane Goodall, mais uma exploradora da National Geographic...
Completamente! De facto, no meu livro, The Secret of the Whales, tenho uma citação adorável de Jane Goodall. Você está exatamente na mesma página.

Li numa entrevista que você deu à Hollywood Soapbox em que diz que, “desde o início, queria trabalhar para a National Geographic”. O que torna a National Geographic tão especial para si, como fotógrafo e explorador da National Geographic?
Eu diria que, quando era criança, o que havia de especial na National Geographic era ser maior do que a própria vida. Eu podia deitar-me no chão da sala dos meus pais e viajar para aquelas selvas exóticas, desertos, pirâmides e oceanos. Quando me envolvi com a National Geographic, foi como escalar o Monte Evereste, uma validação de que o meu trabalho era digno de estar a este nível superior. Mas o que tenho visto desde então é que não existe nenhuma outra organização no mundo como a National Geographic. Quer seja a National Geographic Society, que está a financiar estas reportagens, explorações, ciência e narrativas originais, ou a National Geographic Partners, que publica estas informações pelo mundo inteiro. É uma marca de confiança com cento e trinta anos de idade que as pessoas respeitam. Não é uma coisa política, não é partidária, representa a ciência e a narração de histórias. E, neste momento da história, acho que nunca foi tão necessária. Creio que é única no mundo. Existem muitas organizações que fazem grandes coisas, mas ninguém faz o que a National Geographic faz.
 

Esta entrevista foi editada por motivos de extensão e clareza e publicada originalmente em francês no site nationalgeographic.fr

Continuar a Ler

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registrar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2017 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados