Flor nunca antes documentada desabrocha numa das árvores mais raras do mundo

Só existem cerca de duas dúzias de árvores Karomia gigas no seu habitat selvagem na Tanzânia. E a nova flor é um sinal de esperança para a sua sobrevivência.

Publicado 27/05/2021, 12:28
A flor roxa da Karomia gigas sobreviveu apenas 24 horas antes de murchar. Os horticultores do ...

A flor roxa da Karomia gigas sobreviveu apenas 24 horas antes de murchar. Os horticultores do Jardim Botânico do Missouri esperam que mais flores floresçam nas próximas semanas, um sinal de esperança para a árvore rara Karomia gigas.

Fotografia de Cassidy Moody, JARDIM BOTÂNICO DO MISSOURI

De acordo com os cientistas de plantas do Jardim Botânico do Missouri em St. Louis, a minúscula flor roxa e branca que cresceu recentemente na sua estufa nunca foi documentada, pelo menos por especialistas como eles.

No dia 3 de maio, Justin Lee, um horticultor sénior do jardim botânico, estava a verificar um grupo de mudas da árvore Karomia gigas numa das estufas quando viu a flor. A árvore, parente da hortelã e originária de África, é uma das espécies de árvores mais ameaçadas de extinção no mundo.

A flor de 2.5 centímetros de comprimento tinha um halo de pétalas roxas claras que se inclinavam para baixo, com um aglomerado de quatro estames brancos com pólen.

“É um pouco estranha para uma flor de hortelã. Parece invertida”, diz Justin. A família da hortelã, a Lamiaceae, geralmente produz flores com formas tubulares. Os cuidadores da árvore acreditam que é provável que estas flores atraiam abelhas, borboletas e traças polinizadoras, mas também é possível que a árvore se consiga autopolinizar.

Nas próximas semanas, espera-se que mais flores de Karomia gigas cresçam na estufa onde, em vez de atraírem insetos, vão atrair as mãos humanas que estão a trabalhar para evitar que esta espécie desapareça. Ao fazer com que várias flores cresçam, as árvores podem ter uma polinização cruzada e ter melhor probabilidade de sobrevivência.

As árvores Karomia gigas que crescem no Jardim Botânico do Missouri têm três anos de idade e já têm cerca de 1,8 metros de altura.

Fotografia de Cassidy Moody, Jardim Botânico do Missouri

Tanto quanto se sabe, só existem cerca de duas dúzias destas árvores na selva da Tanzânia. Roy Gereau, o diretor programa da Tanzânia no Jardim Botânico do Missouri, não ficou muito surpreendido por esta flor ainda não ter sido vista. A Karomia gigas é uma árvore alta que pode atingir os 25 metros de altura, e cujos ramos só aparecem quando a planta tem uma altura de 10 a 12 metros, tornando as flores difíceis de localizar.

Esta árvore é tão rara que nem sequer tem um nome conhecido em inglês, suaíli ou nas línguas locais em torno das reservas florestais onde que se encontra. Das mais de 60.000 espécies de árvores conhecidas, a Karomia gigas está entre as que estão mais perto da extinção, e é uma das mais ameaçadas de África.

“Pelo que sabemos, não há certamente registo destas flores na literatura científica”, diz Roy Gereau.

E agora que a árvore produziu uma flor, os seus conservadores estão confiantes de que conseguem impedir a sua extinção.

“Do ponto de vista real de extinção, o cenário parece muito bom”, diz Andrew Wyatt, vice-presidente de horticultura do Jardim Botânico do Missouri. “Conseguimos garantir que a espécie não vai desaparecer.”

Cultivar árvores no estrangeiro

O cultivo desta planta tem sido um desafio. Na natureza, é altamente suscetível a um fungo que pode ser transmitido através de insetos.

Em setembro de 2018, milhares de sementes foram recolhidas em expedições de campo na Tanzânia e enviadas para St. Louis, mas só cerca de 100 eram viáveis. Para complicar as coisas, as condições de cultivo da Karomia na estufa do Missouri tinham de replicar o solo, o fluxo de água e a luz solar do clima de África Oriental onde a árvore evoluiu.

Os horticultores conseguiram eventualmente cultivar mudas, germinando primeiro as sementes em toalhas de papel húmidas para reduzir as probabilidades de infeção, e depois plantaram-nas em turfa. Existem agora 30 árvores jovens cultivadas a partir destas sementes e uma que cresceu a partir de uma muda.

“Estávamos a debater se iriam desabrochar durante as nossas carreiras”, diz Andrew Wyatt.

Com tão poucas árvores desta espécie no mundo, tentar salvá-las e vê-las crescer é emocionante.

“Celebramos cada etapa. É como se fossem nossos filhos. Somos os protetores desta espécie”, diz Andrew. “Temos uma ligação científica e também uma ligação emocional com a espécie.”

Justin Lee concorda: “É como se fossem os meus bebés.”

A flor ajuda os cientistas a compreender melhor a árvore, e a confirmar que está no género correto e, com base na forma das suas pétalas e estame, que provavelmente também é polinizada por insetos. Ainda não se sabe exatamente se a estrutura aparentemente invertida da flor é a aparência de todas as flores desta árvore, ou se é um defeito genético de uma árvore ainda jovem.

“Uma única flor... pode não ser o arranjo normal”, diz Roy Gereau. “É uma jovem a dar flor pela primeira vez.”

É importante salientar que a flor também ajuda a assegurar a sobrevivência da árvore. Os horticultores podem propagar a planta com cortes, mas essas árvores serão clones com o mesmo ADN. Ter diversidade genética numa espécie ajuda a garantir que esta resiste a condições mortais como pragas.

“Senão florescesse nas nossas coleções, teríamos que depender das plantas silvestres para produzir sementes, mas a viabilidade é muito baixa”, diz Andrew. Embora algumas espécies se consigam polinizar, não se sabe se a Karomia gigas o consegue fazer. Justin polinizou manualmente a espécie antes de a flor murchar, mas diz que ter mais flores de mais árvores ajuda a produzir plantas mais resistentes geneticamente.

“Perto do final do dia, espalho um pouco de pólen. É uma interrogação saber a rapidez com que algumas plantas se autopolinizam. Por vezes, é como uma escala móvel. Esta não teve sucesso”, diz Justin. “Idealmente, como temos muitas [mudas], conseguimos obter floração e polinização cruzada, e isso é melhor para a diversidade genética.”

“Ter plantas com flores é um grande começo nos esforços para recuperar a espécie”, diz Emily Beech, especialista em árvores ameaçadas de extinção da ONG Botanic Gardens Conservation International. Embora não esteja envolvida no programa de árvores de St. Louis, Emily juntou-se em 2016 a Roy e a outros investigadores do Serviço Florestal da Tanzânia numa expedição para procurar estas árvores.

“Não havia mudas visíveis na floresta, mas o facto de agora haver plantas com flores oferece uma esperança real para a espécie no futuro”, diz Emily.

Um passo em direção à recuperação

Esta árvore foi descoberta pela primeira vez em 1977 no Quénia, mas quando as duas árvores quenianas de que havia conhecimento foram abatidas, foi considerada extinta. Mas foi redescoberta na Tanzânia em 1993, e Roy e os botânicos da Tanzânia têm lentamente encontrado mais na natureza desde 2011.

Uma visão aproximada de uma folha de Karomia gigas. Na natureza, estas árvores deixam cair todas as folhas durante a estação seca.

Fotografia de Cassidy Moody, JARDIM BOTÂNICO DO MISSOURI

Embora a polinização cruzada de árvores ajude a gerar diversidade genética, os horticultores também podem clonar as árvores a partir de cortes.

Fotografia de Cassidy Moody, JARDIM BOTÂNICO DO MISSOURI

De acordo com Fandey Mashimba, diretor do departamento de biologia de sementes do Serviço Florestal da Tanzânia, é provável que existam mais de duas dúzias de árvores na natureza. As populações conhecidas estão todas na Reserva Florestal de Mitundumbea e na Reserva Florestal de Litipo do país. Estas florestas são o lar de um tipo de ecossistema lenhoso, chamado bosques de Miombo, que se estendem por África central e meridional. Fandey Mashimba diz que é normal ver animais como babuínos, porcos selvagens, búfalos e um pequeno tipo de antílope chamado dik-dik nestes ecossistemas.

Estas florestas foram outrora o leito do oceano e, portanto, têm um substrato único. “O solo é essencialmente fezes de térmitas e resquícios de praias de coral”, diz Justin.

Embora a Karomia gigas tenha sido estudada no seu habitat nativo e enquanto espécime a crescer em St. Louis, as suas flores eram um mistério.

“Conhecemos uma pessoa que vive na aldeia mais próxima, que se interessa pela conservação da área florestal, e que está atenta às plantas”, diz Roy. “E alertou-nos quando achou que as flores estavam a começar a desabrochar.”

Mas quando alguém consegue finalmente fazer a longa viagem até à reserva florestal, já não há flores.

“Estas árvores estão em reservas florestais protegidas pelo governo, mas as pessoas continuam a extrair madeira”, diz Fandey Mashimba. A madeira da Karomia gigas tem sido comparada à teca, uma madeira muito procurada, tornando-se numa valiosa fonte de madeira.

“No que diz respeito à sobrevivência, temos esta”, diz Andrew Wyatt, referindo-se à espécie Karomia gigas. “Conseguimos realmente garantir que não desaparece. A ideia de preservar realmente a espécie é completamente possível. Está protegida na Tanzânia. Temos coleções no jardim botânico. Assim que tivermos sementes suficientes, esperamos conseguir armazená-las [num congelador] e criar um amortecedor para mitigar as perdas.”

Roy Gereau diz que está relutante em repatriar as árvores, preocupado que sejam demasiado frágeis para fazer a viagem intercontinental, mas diz que o grupo vai partilhar os seus conhecimentos com o governo da Tanzânia e com os botânicos da Universidade de Dar es Salaam, onde têm sido feitos estudos sobre a árvore.

Por enquanto, esta flor única é um sinal de esperança para o futuro. Para surpresa da equipa do jardim botânico, a flor em St. Louis surgiu e desapareceu rapidamente, caindo da sua árvore em menos de 24 horas.

“Basicamente murchou toda”, diz Andrew. “E eu apanhei-a do chão e fiz compostagem.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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