O plástico chega aos oceanos através de mais de mil rios

Os cientistas costumavam pensar que no máximo só 20 rios é que transportavam a maior parte do plástico para os oceanos, mas agora sabe-se que são muitos mais, dificultando as potenciais soluções.

Publicado 6/05/2021, 12:07
Lixo plástico flutuante

Lixo plástico flutuante polui uma zona do rio Siak, na Indonésia.

Fotografia de Afrianto Silalahi, Barcroft Media/Getty Images

O problema do lixo plástico acabou de ficar mais complicado – assim como os esforços para estancar o seu fluxo para os oceanos mundiais.

Os rios são os principais condutores de resíduos plásticos para os mares. Em 2017, dois grupos separados de cientistas concluíram que 90% dos resíduos plásticos fluviais que acabam nos oceanos são transportados por apenas alguns dos maiores rios continentais, incluindo o Nilo, o Amazonas e o Yangtze, os três maiores rios do mundo. Limpar estes rios – num dos estudos foram nomeados 10 rios e no outro foram nomeados 20 – podia ajudar muito na solução do problema, dizem os especialistas.

Mas uma nova investigação publicada em finais de abril na Science Advances subverteu completamente esta noção. Os cientistas descobriram que 80% dos resíduos plásticos são distribuídos por mais de mil rios, e não apenas por 10 ou 20. E também descobriram que a maior parte destes resíduos é transportada por rios pequenos que correm através de áreas urbanas densamente povoadas, não pelos rios maiores.

Por exemplo, o rio Yangtze, que atravessa 6.300 quilómetros pela China e desagua no Mar da China Oriental, e que estava classificado como o maior poluidor de plástico, foi ultrapassado pelo rio Pasig de 25 quilómetros nas Filipinas, que atravessa a capital Manila, onde vivem 14 milhões de pessoas.

É uma grande mudança. Mas também revela duas questões importantes na compreensão e solução do problema dos resíduos plásticos. A investigação salienta a disseminação generalizada de resíduos plásticos em literalmente todos os cantos do planeta, e a necessidade de soluções logisticamente mais complexas e dispendiosas do que algumas campanhas sugerem. O estudo também reforça o que cientistas marinhos e outros especialistas argumentam há muito tempo: que a solução definitiva para proteger os oceanos e os sistemas de água doce passa pela contenção do lixo plástico em terra, onde origina.

O rio Las Vacas, na Guatemala, é um exemplo de um rio pequeno que transporta lixo plástico.

Fotografia de The Ocean Cleanup

Gary Bencheghib, que dirige a Sungai Watch, uma campanha que agora limpa 45 rios em Bali, diz que a investigação de 2017 não fazia muito sentido para ele.

“Quando foi lançado, o estudo dos 10 rios surpreendeu-me mais do que qualquer outra coisa”, diz Gary. “Não estava a reforçar o que estávamos a ver nos riachos mais pequenos da Indonésia. Vivemos nos trópicos, numa região vulcânica onde existem literalmente rios a cada 500 metros e estão todos a sufocar em plástico.”

Melhores dados, grandes mudanças

Desde o início da civilização que os humanos usam os rios para se desfazerem de resíduos. Ainda assim, com a explosão do problema do lixo plástico na última década, a maior parte das investigações concentrou-se no plástico nos oceanos. A análise a rios e outros sistemas de água doce ficou para trás. Por exemplo, a primeira avaliação em grande escala de resíduos plásticos no rio Ganges, na Índia, conduzida pela National Geographic Society, ficou concluída há apenas 18 meses. No mês passado foi iniciada uma análise semelhante no rio Mississippi, depois de 100 presidentes de câmaras de cidades ao longo do rio se terem unido para a patrocinar como um primeiro passo para reduzir o desperdício plástico. O Japão está a conduzir uma investigação para rastrear plástico nos rios Ganges e Mekong.

A nova investigação baseou-se em modelos inéditos e foi conduzida por muitos dos cientistas envolvidos em ambos os estudos de 2017. Os investigadores dizem que os dados disponíveis há quatro anos eram limitados e que levaram a um foco enorme no tamanho das bacias hidrográficas e densidade populacional. Para este estudo, os cientistas analisaram o lixo plástico em 1.656 rios.

Os novos modelos levam em consideração a atividade nas bacias hidrográficas, a proximidade dos rios com o litoral, os efeitos das chuvas, das correntes, do vento e do terreno, incluindo declives, que facilitam o movimento do plástico pelos cursos de água. Por exemplo, o plástico flui mais facilmente para os rios a partir de áreas urbanas pavimentadas, do que nas florestas, e viaja mais longe em climas chuvosos do que em climas secos. Os investigadores também levaram em consideração a proximidade das margens dos rios com aterros e lixeiras, e concluíram que os aterros e lixeiras que estão até 10 quilómetros de distância dos rios provavelmente irão escoar nesses rios.

“Uma grande diferença em relação a alguns anos atrás foi não considerarmos os rios como meras correias transportadoras de plástico”, diz Lourens J.J. Meijer, o autor principal do estudo. “Se colocarmos plástico num rio a centenas de quilómetros da foz, isso não significa que esse plástico vai acabar no oceano.”

Quanto mais longe o lixo plástico precisar de viajar ao longo de um rio, menos probabilidades tem de chegar ao mar. Por exemplo, no rio Sena, em França, garrafas de água de plástico com rótulos datados da década de 1970 encalharam ao longo das margens do rio.

Uma das surpresas, diz Lourens Meijer, é a de que os rios pequenos em ilhas tropicais transportam demasiado lixo plástico, como nas Filipinas, Indonésia e República Dominicana. Da mesma forma, os rios na Malásia e na América Central, que são razoavelmente curtos, também transportam enormes concentrações de resíduos plásticos.

“Os maiores culpados nem sempre são os suspeitos do costume, como o Ganges ou o Yangtze”, diz Lourens. 

Outra das descobertas envolve a forma como o fluxo de plástico para os oceanos difere de acordo com o clima. Nas regiões tropicais, os rios despejam plástico nos mares continuamente, enquanto que os rios em regiões temperadas podem despejar a maior parte do plástico num só mês, geralmente na estação chuvosa de agosto, ou em eventos singulares, como durante inundações.

Mas há uma vertente dos estudos de 2017 que permanece constante: a maioria dos rios que transportam plástico para os mares está na Ásia. Entre os primeiros 50 rios desta nova lista, 44 ficam na Ásia, um reflexo, dizem os autores, da densidade populacional da região.

“A Ásia e o Sudeste Asiático são as zonas de maior foco, mas isso pode mudar”, diz Laurent Lebreton, um dos coautores do estudo. “Estou um pouco preocupado com África nas próximas décadas. A sua população está a crescer, é muito jovem e a economia está a melhorar, pelo que as pessoas vão comprar mais coisas.”

Um foco nas soluções

A investigação, que passou por uma revisão por pares de dois anos antes de ser publicada, foi financiada pela The Ocean Cleanup, uma organização sem fins lucrativos fundada por Boyan Slat, um empresário holandês cujos esforços quixotescos de 30 milhões de dólares para limpar plástico no Oceano Pacífico o transformaram numa celebridade internacional. Tanto Laurent Lebreton como Lourens Meijer trabalham para esta organização sem fins lucrativos.

Desde então, a equipa de Boyan Slat desenvolveu uma máquina que devora lixo, chamada “Interceptor”, para recolher lixo nos rios. É mais ou menos uma variante do Mr. Trash Wheel, o batelão de lixo movido por uma roda de água que desde 2008 limpa o Inner Harbor de Baltimore, em Maryland, e agora conduz uma frota de quatro batelões semelhantes na região.

O QUE PODE FAZER

Opte por palhinhas reutilizáveis em vez de plástico
— Tenha sempre garrafas de água reutilizáveis à mão
— Compre a granel, sempre que possível.
—Aproveite as campanhas de reciclagem.
—Mantenha as películas de plástico e outros materiais não recicláveis longe do lixo.
—Junte-se a uma limpeza de praia na sua comunidade.

Em 2019, Boyan Slat anunciou planos para produzir mil “Interceptors” em massa com o objetivo de os implementar dentro de cinco anos. A pandemia abrandou o ritmo de produção, mas vários dos dispositivos já a estão a funcionar em rios na Malásia, Indonésia, Vietname e República Dominicana. O desafio, diz Boyan, é aumentar a escala para responder a uma meta muito ambiciosa. “Não é muito difícil lidar com um rio. É muito difícil lidar com dez, cem ou mil.”

George Leonard, cientista-chefe da Ocean Conservancy, que não esteve envolvido no estudo, diz que os desafios em limpar mil rios, apesar dos avanços nos equipamentos projetados para lidar com essa tarefa, chama a atenção para a mensagem divulgada pela sua organização há muito tempo. “Sempre dissemos que, antes de mais nada, precisamos de manter o plástico longe do oceano, em vez de confiarmos na sua limpeza como uma solução. Isto também significa manter o plástico longe dos rios.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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