Os humanos já ‘stressaram’ demasiado a Terra, e de forma mais dramática, do que se pensava

Um estudo sobre pólen antigo revela que os milénios de atividade humana transformaram os ecossistemas da Terra tão depressa como no final da Idade do Gelo.

Por Glenn Hodges
Publicado 24/05/2021, 12:47
vegetação humana

Os humanos começaram a alterar as paisagens da Terra muito antes do que se pensava – milhares de anos antes – através de atividades como agricultura e desflorestação.

Fotografia de David Gray, Bloomberg/Getty Images

Oficialmente, estamos a viver naquele que é conhecido por Holoceno, a época geológica que começou no final da última idade do gelo. Mas a influência da atividade humana nos ecossistemas da Terra tornou-se tão extrema que agora parece ser a força motriz das alterações ambientais, levando alguns cientistas a argumentar que devemos admitir que vivemos numa nova época chamada Antropoceno. A utilização deste termo ainda está a ser debatida, e um dos grandes debates gira em torno de quando seria o início desta nova época. Seria em meados do século XX? Seria durante a revolução industrial? Ou seria antes disso – digamos, quando a agricultura passou a ser uma característica dominante na vida humana?

Um novo estudo sugere que a melhor resposta seria esta última. De acordo com uma equipa de investigação liderada por Ondrej Mottl e Suzette G.A. Flantua, da Universidade de Bergen, na Noruega, a vegetação do planeta começou a mudar drasticamente entre há 4.600 e 2.900 anos, e é provável que a causa principal tenha sido a atividade humana – agricultura, desflorestação e utilização do fogo para clarear paisagens.

“O nosso trabalho é o primeiro estudo quantitativo que mostra que os humanos provavelmente tiveram um forte impacto no planeta, não só nas últimas décadas ou séculos, mas desde há milhares de anos”, diz Ondrej sobre a sua investigação, que foi publicada na revista Science. As mudanças que aconteceram na paisagem no último século ou últimos dois, por mais dramáticas que tenham sido, parecem ser a continuação de tendências que surgiram há vários milhares de anos.

Mas a segunda grande descoberta desta investigação não é menos significativa. As alterações na vegetação dos últimos milhares de anos rivalizam com o grau de mudanças na vegetação que aconteceu quando a Idade do Gelo cedeu ao aquecimento do planeta, entre há 16.000 e 10.000 anos. Foi quando os mantos de gelo e glaciares que cobriam grande parte do Hemisfério Norte recuaram, quando as paisagens de gelo se transformaram em florestas e as tundras em pastagens, e quando um aumento de 6 graus Celsius na temperatura global deu origem a mudanças nos regimes de plantas de todo o globo.

“Não esperávamos que as mudanças dos últimos milhares de anos fossem ainda maiores do que o que aconteceu no final da Idade do Gelo”, diz Suzette.

História escrita em pólen

Os resultados do estudo derivam de 1.181 sequências de pólen fóssil de locais de todo o mundo. O pólen que é soprado pelo vento ou levado pela chuva para um lago ou pântano pode ficar enterrado nos sedimentos, preservando um retrato da vegetação que existia em torno de um corpo de água num determinado momento, algo que pode ser determinado pela datação por radiocarbono.

Com uma base de dados de núcleos de sedimentos bem datados de todo o mundo, os investigadores conseguiram identificar até que ponto as composições do pólen mudaram ao longo do tempo. Como a equipa queria extrair um padrão global de mais de mil conjuntos de dados, não foram analisadas as espécies de vegetação substituídas por outras em qualquer lugar específico. O trabalho concentrou-se apenas na taxa geral de alterações dos últimos 18.000 anos.

Foi assim que a equipa documentou um segundo período de rápidas mudanças na vegetação, depois do que resultou do fim da Idade do Gelo. O início deste segundo período variou por região, entre 4.600 e 2.900 anos atrás. Mas o aumento de alterações na vegetação foi observada em todos os continentes, exceto na Antártida.

Este estudo foi o primeiro a documentar o aumento com dados quantitativos, mas um estudo de 2019, que inquiriu 250 arqueólogos sobre a atividade agrícola humana do passado em todo o mundo, chegou a conclusões semelhantes: há 3.000 anos, grande parte da superfície terrestre do planeta já tinha sido marcadamente transformada pela atividade humana. O autor principal desse estudo, Lucas Stephens, arqueólogo e especialista em política ambiental da Universidade Duke, diz que os dois estudos em conjunto revelam um cenário convincente.

“O banco de dados deles sobre os registos globais de pólen é impressionante”, diz Lucas. “Creio que a descoberta mais inédita e importante é a de que a taxa de alteração da vegetação está agora a aproximar-se ou até mesmo a exceder as taxas da transição Pleistoceno/Holoceno” – ou seja, as alterações do período no final da Idade do Gelo. “Esta taxa de mudança tem implicações assustadoras para o futuro.”

Stephen T. Jackson, ecologista do Serviço Geológico dos EUA, concorda que esta investigação é significativa. “É uma análise importante e provocadora”, afirma Stephen. Mas também alerta que outros fatores, para além das atividades humanas, podem estar em ação, como as alterações climáticas naturais.

“Em algumas partes do mundo, as mudanças na vegetação foram claramente impulsionadas pelas atividades humanas”, diz Stephen. “Mas noutras regiões, temos boa documentação sobre as alterações climáticas, algo que seria suficiente para impulsionar as alterações vegetais. E em muitas destas áreas, há poucas evidências de atividades humanas generalizadas.”

O toque humano

Ondrej Mottl e Suzette Flantua tem o cuidado de sublinhar que a sua investigação não demonstra que as atividades humanas provocaram as mudanças documentadas na vegetação. Esse é um tema para futuras investigações, dizem os investigadores. Mas a correlação é inegável, diz Jonathan T. Overpeck, cientista climático da Universidade de Michigan, que escreveu um artigo de comentário na Science sobre a investigação de Ondrej e Suzette.

“Eles não fazem um vínculo causal, mas eu concordaria que a explicação mais lógica é a utilização humana da terra”, diz Jonathan. “Sabemos que os humanos estavam a desflorestar para a agricultura, estavam a usar fogo para controlar a superfície da terra. Cabe aos arqueólogos dizer exatamente quais foram os processos, mas parece certamente que estamos a ver as impressões digitais dos humanos enquanto agentes causais primários responsáveis por estas mudanças que começaram há vários milhares de anos.”

E isso tem implicações importantes para a gestão do ecossistema, à medida que tentamos mitigar os efeitos das alterações climáticas globais, tanto recentes como futuras, dizem os investigadores. Se o que consideramos ser uma paisagem “natural” é na realidade uma paisagem que se desenvolveu em conjunto com as atividades humanas, será que faz sentido definir isso como se fosse um reflexo de um ideal natural?

“Talvez o que está a ser considerado puro não seja assim tão puro”, diz Suzette.

“Em vez de tentarmos manter as composições de espécies que existiam no passado, temos de começar a gerir as coisas para as mudanças e para o futuro”, diz Jonathan Overpeck. “Muitas das florestas que temos agora estão a morrer porque estas árvores se estabeleceram em condições mais frias e húmidas. À medida que o clima se torna mais quente e extremo, temos de plantar espécies que consigam lidar com isso.”

O que estamos a ver agora é o que Jonathan chama “golpe duplo”. Temos alterações climáticas agudas a intensificarem-se rapidamente após milhares de anos de mudanças extremas na vegetação. Como é que o planeta vai lidar com isso? Ninguém sabe.

“Mas este duplo golpe vai realmente stressar as nossas florestas. E para as florestas absorverem carbono, precisam de ser saudáveis”, diz Jonathan.

Por outras palavras: parece que colocámos há muito tempo uma mão pesada sobre os ecossistemas do planeta, e talvez agora esteja na hora de manusear essa mão de forma mais deliberada e criativa. Podemos dizer que se trata de um Antropoceno 2.0.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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