Será que a floresta tropical da Amazónia contribuiu para a ‘Pequena Idade do Gelo’ do século XVII?

Os cientistas encontraram novas evidências ao examinarem uma teoria de que a regeneração da Amazónia, após a colonização europeia, afetou o clima global.

Publicado 7/05/2021, 12:51
lago Maciel na Amazónia

Uma vista do lago Maciel na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no Brasil. O pólen encontrado nos corpos de água da floresta amazónica revela pistas sobre um breve, mas intenso, período de arrefecimento no século XVII.

Fotografia de Mauro Pimentel, AFP via Getty Images

No século que se seguiu à chegada dos europeus às Américas no final do século XV, estima-se que mais de 50 milhões de indígenas tenham morrido devido a epidemias, guerras e escravatura. Esta tragédia de origem humana, também conhecida por “Grande Morte”, pode ter deixado a sua marca na paisagem e no clima.

Numa análise de 2019, investigadores do Reino Unido propuseram que a regeneração de florestas, em locais onde os povos nativos desflorestaram a terra, pode ter absorvido e armazenado carbono suficiente para contribuir para uma queda nos níveis atmosféricos globais de CO2 no século XVII. Acredita-se que esta anomalia tenha sido uma das causas para um período excecionalmente frio conhecido por Pequena Idade do Gelo.

No entanto, um estudo publicado na semana passada na revista Science não encontrou quaisquer evidências desse cenário na Amazónia.

Para testar a ideia de que as florestas amazónicas recuperaram durante ou após a Grande Morte, um grupo de investigadores liderados pelos paleoecologistas Mark Bush, do Instituto de Tecnologia da Flórida, e Crystal McMichael, da Universidade de Amesterdão, analisou sedimentos de 39 lagos ao longo do Bacia do Amazonas.

“Os sedimentos no fundo do lago representam a história da região”, explica Mark, “com as camadas mais antigas no fundo e as mais recentes no topo”. Através da datação por radiocarbono, para determinar a idade de cada camada, os investigadores examinaram cuidadosamente amostras de pólen e carvão. “Esta parte da Amazónia não arde naturalmente”, diz Mark, “portanto, se encontrarmos carvão, é um sinal bastante evidente da presença de pessoas.”

Regresso das yarumo

A partir do pólen, a equipa identificou as plantas que cresceram perto dos lagos em momentos diferentes. Quando as pessoas desflorestaram a área, ficaram menos grãos de pólen no lago vindos das árvores e mais grãos de gramíneas, ervas e de plantações, diz Crystal. “Muitas vezes encontramos pólen de milho e mandioca, mas também de abóbora e batata-doce.”

Quando estes locais eram abandonados na Amazónia, o primeiro pólen a aparecer nos sedimentos é o das árvores Cecropia, conhecidas localmente por yarumo. “Estas árvores são na realidade daninhas”, diz Mark. “Elas crescem do nada até aos cinco metros de altura em dois anos, crescem tão depressa que são ocas, e muitas vezes têm formigas a viver no seu interior. Estas árvores permanecem durante algumas décadas e depois são eliminadas por outras árvores. Mas produzem uma enorme quantidade de pólen.”

Em quatro dos cinco lagos, a análise do carvão e de todos os diferentes tipos de pólen revelou evidências de desflorestação, queima ou cultivo em épocas anteriores à chegada dos europeus. “Como é óbvio, isto não significa que 80% da Amazónia foi desflorestada”, diz Mark. “As pessoas concentraram--se em torno dos lagos.”

Ainda assim, quando os investigadores verificaram as camadas que contêm evidências de recuperação florestal, estas muitas vezes antecedem a chegada dos europeus em centenas de anos. “Há muita variação”, diz Mark, “mas o que vemos é que a desflorestação foi mais forte entre 350 e 750 d.C. E diminui depois disso, com as florestas a começarem a crescer novamente por volta do ano 1000 d.C.” Contudo, durante ou após a Grande Morte, as evidências de regeneração florestal são raras.

Desflorestação sem precedentes

Isto sugere que, pelo menos na Amazónia, parece improvável que a regeneração da floresta durante e após a Grande Morte tenha contribuído para a descida de CO2 que provocou a Pequena Idade do Gelo, diz Mark. “Para obter uma quantidade percetível de alteração no CO2 atmosférico, seria necessário ter uma área enorme da Amazónia a mudar ao mesmo tempo. Não vemos isso em qualquer momento no passado; está disperso no espaço e no tempo.”

Isto não significa que não nos devemos preocupar com a atual desflorestação da Amazónia. “A escala dos incêndios e da desflorestação da atualidade é muito maior, e eu penso que a ameaça de atingirmos um ponto crítico onde a Amazónia se torna numa fonte de CO2, em vez de um escoador, é infelizmente muito real.”

O geógrafo Alexander Koch, da Universidade de Hong Kong, autor principal do artigo de 2019 que sugeria uma ligação entre a Grande Morte e a Pequena Idade do Gelo, afirma que “os dados do pólen dizem apenas se a floresta voltou a crescer num local específico”. Alexander acredita que o novo estudo “não refuta a hipótese principal” do seu artigo, que se referia às Américas como um todo.

Alexander diz que esta nova investigação é uma contribuição importante, mas acrescenta que a influência da Amazónia pode ter sido limitada em comparação com as regiões do México, América Central e Andes, onde o decréscimo populacional foi maior. “A maior parte da Amazónia era provavelmente mais difícil de alcançar e foi menos afetada por doenças e pelos colonizadores.” Na sua própria análise, Alexander estima que apenas 4% do aumento de captação de CO2 tenha acontecido na Amazónia.

“A chegada dos europeus à Amazónia foi um processo gradual”, diz Crystal McMichael. Os impactos mais devastadores sobre os povos amazónicos podem ter ocorrido após a Grande Morte no México ou nos Andes, onde há mais evidências de mortalidade elevada logo após a chegada dos europeus.

Conflitos e doenças

Com base nos novos dados, que mostram que a recuperação da floresta geralmente antecedeu a chegada dos europeus em centenas de anos, Mark e Crystal acreditam que o número populacional na Amazónia provavelmente atingiu o pico muito antes da chegada dos europeus ao continente. A equipa acredita que o número de pessoas na região pode ter diminuído, e depois estabilizou num nível mais baixo, bastante mais cedo, permitindo que as florestas tivessem tempo para recuperar das fases mais intensas de atividade humana.

Manuel Arroyo-Kalin, arqueólogo da Universidade College de Londres que não participou no estudo, mas que usou evidências arqueológicas para reconstruir as tendências populacionais, concorda com esta teoria. Manuel salienta que as “evidências étnico-históricas indicam claramente que o colapso da população foi resultado da colonização europeia”, mas acrescenta que a sua própria investigação também sugere que o pico populacional da população indígena amazónica “pode ter acontecido séculos antes”.

Assim sendo, o que poderá explicar a diminuição de populações indígenas na Amazónia sem a presença de invasores estrangeiros? No seu artigo, Mark e Crystal referem evidências de um aumento nas hostilidades na região adjacente dos Andes entre 1000 e 1200 d.C., incluindo a presença de “crânios rachados” e “paliçadas defensivas”. Outros investigadores encontraram evidências de assentamentos fortificados na Amazónia depois de 1200, diz Mark. “Isto sugere que as pessoas se aglomeraram em determinadas áreas, reorganizando-se para ficarem menos dispersas e mais orientadas para a defesa”, evitando áreas fronteiriças, permitindo à floresta crescer novamente nesses locais.

Também há evidências de tuberculose nos Andes entre os anos 1000 e 1300, doença que se pode ter propagado pela Amazónia através do comércio. “É válido perguntar se as populações amazónicas enfrentaram desafios semelhantes aos dos seus vizinhos nos altos Andes, que viviam tempos conflituosos”, diz a antropóloga Tiffiny Tung, da Universidade Vanderbilt. Tiffiny está a investigar a convulsão que se abateu sobre o povo andino, mas não participou no estudo sobre a Amazónia.

É desafiante integrar os dados do pólen de lagos das planícies com evidências sobre doenças e violência nas terras altas, diz Tiffiny. “Portanto, espero conseguir obter mais dados ambientais nas áreas onde temos uma riqueza de dados arqueológicos.”

Mark e Crystal procuram o mesmo. “Estamos agora a trabalhar com arqueólogos”, diz Crystal, “e o que queremos fazer de seguida é ir aos lagos perto de alguns dos seus sítios arqueológicos e ver o que conseguimos encontrar.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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