Como podemos ajudar corais e aves marinhas a sobreviver num mundo em aquecimento

Reduzir as emissões de CO2 é crucial, mas existem formas práticas de proteger os animais do inevitável aquecimento.

Publicado 1/06/2021, 14:36 WEST
Aves marinhas

Aves marinhas aglomeram-se perto de uma embarcação de pesca no Golfo do Alasca.

Fotografia de David Doubilet, Nat Geo Image Collection

O aquecimento global não está apenas a aumentar as temperaturas médias em terra, também está a aquecer os oceanos. À medida que as vagas de calor marinhas se tornam mais comuns, perturbam relações de longa data entre espécies que dependem umas das outras.

Os corais podem perder as algas que vivem no seu interior, ficando branqueados ou até mesmo mortos, muitas vezes depois de serem atingidos por mais de uma vaga de calor. Cardumes enormes de peixes mudam-se para climas mais confortáveis, forçando as aves marinhas que dependem deles para alimentar as suas crias a voar distâncias muito maiores desde as costas onde as suas espécies nidificam há anos.

A única abordagem sustentável a longo prazo passa pela forte redução das nossas emissões de gases de efeito estufa. Mas enquanto aguardamos impacientemente que se assinem acordos internacionais e que se implementem medidas eficazes, será que não podemos fazer algo para ajudar as aves marinhas e os corais a resistir ao calor? Dois artigos publicados na edição da semana passada da revista Science sugerem que sim.

Cuidado com o seu recife

Para descobrir onde, quando e por que razão os corais têm mais probabilidades de morrer após as vagas de calor marinhas, a cientista conservacionista Mary Donovan, da Universidade Estadual do Arizona, e um grupo de colegas nos Estados Unidos compilaram dados de 223 regiões com recifes de coral em todo o mundo, dados recolhidos pela Reef Check, uma organização que forma cientistas cidadãos para monitorizar recifes de coral e florestas de algas marinhas. E, de facto, algumas das observações básicas enviadas pelos voluntários previram onde a perda de corais tinha mais probabilidades de acontecer.

O sinal mais comum de vulnerabilidade às vagas de calor são as algas: em locais onde os voluntários documentaram muitas algas entre os corais, havia em média 10 vezes mais coral perdido do que nos locais onde as algas eram raras ou estavam ausentes. Alguns dos químicos produzidos pelas algas podem branquear os corais se houver contacto direto, explica Mary Donovan, e as algas também libertam compostos orgânicos na água que reduzem a quantidade de oxigénio, algo que stressa os corais. Isto significa que as vagas de calor são ainda mais difíceis de suportar para os corais nos recifes que têm muitas algas marinhas.

Muitos ouriços-do-mar num recife também são um indicador de más notícias. Uma dúzia de ouriços-do-mar numa área de 100 metros quadrados de recife não é prejudicial, diz Mary, já que os ouriços costumam comer algumas das algas marinhas. Mas se houver muitos mais – em alguns lugares podem estar até mil ouriços por 100 metros quadrados – isso parece estar ligado a uma maior perda de corais. “Neste caso, também começam a roer o coral, removendo o seu esqueleto externo protetor e comendo as algas que vivem no seu interior. Um dos novos estudos revela que os recifes com demasiados ouriços também são significativamente mais vulneráveis às vagas de calor.

Apesar de não existirem dúvidas de que o aquecimento global é uma causa de morte importante de corais – através do branqueamento – e de que devemos continuar os nossos esforços para o controlar, diz Mary, o estudo também sugere que se podem tomar medidas ao nível local para ajudar a mitigar os danos.

“O crescimento excessivo de algas marinhas pode ser consequência da poluição vinda de fossas sépticas que escoam para o solo perto do oceano, ou do escoamento de terras agrícolas ou campos de golfe.” Reduzir a poluição na fonte provavelmente ajudaria a tornar os recifes mais resistentes.

Evitar a pesca de espécies que comem algas também é importante, e é algo que está a ser tentado, por exemplo, na Área de Gestão de Pescarias Herbívoras de Kahekili, no Havai, na ilha de Maui, onde a captura de peixes herbívoros é limitada. “Também estamos a trabalhar com comunidades locais noutras partes deste estado norte-americano para gerir a pesca”, diz Mary, acrescentando que uma população saudável de peixes também ajuda a controlar os ouriços-do-mar.

Nancy Knowlton, bióloga emérita de recifes de coral do Museu Nacional de História Natural, que não esteve envolvida no estudo, concorda que os esforços locais são muito importantes para os recifes. “Eu não acredito que qualquer conservação do oceano funcione, a não ser que as pessoas sintam localmente que fazem parte disso e que isso também serve os seus interesses.”

COMO PODE AJUDAR

– Se pratica mergulho, eis o que pode fazer perto de corais.
– Se vive perto de uma praia, participe na sua limpeza.
– Quando estiver a pescar em recifes, evite a captura de espécies que comem algas.
– Aprenda quais são os peixes comerciais sustentáveis.

Preocupações dietéticas

As comunidades locais não são as únicas que comem peixe, como é óbvio, e nem sequer são as que comem a maior parte. Grande parte do mundo está cada vez mais a obter o seu peixe de enormes embarcações que percorrem os oceanos mundiais, pescando em massa à medida que navegam. Outro artigo publicado na Science, que compara o destino das aves marinhas nos hemisférios norte e sul, sugere que a pesca comercial intensiva pode estar a tornar a vida num planeta em aquecimento muito mais difícil para as aves.

Através da análise de 122 conjuntos de dados que relatam o número médio de crias a emergir de ninhos de 66 espécies de aves marinhas, ninhos que foram cuidadosamente monitorizados entre 1966 e 2018, uma equipa internacional de cientistas descobriu diferenças marcantes entre os hemisférios. O número médio de crias criadas com sucesso por ninho, por aves cujas dietas consistem pelo menos em parte de peixe, diminuiu significativamente mais no hemisfério norte, algo que pode resultar numa diminuição da sua população.

“O hemisfério norte está a aquecer mais depressa e é mais fortemente afetado pelas pressões humanas, como a pesca e a poluição”, diz o ecologista William Sydeman, do Instituto Farallon na Califórnia, que liderou o estudo. “Isto dificulta a distinção entre a importância relativa destes dois fatores com base nos dados.” Mas os impactos maiores sobre as aves que dependem de peixe sugerem que estas pressões estão no centro do problema. “A maioria das aves que comem plâncton está a ter tantas crias como antigamente.”

Existem várias formas pelas quais as alterações climáticas e outras pressões humanas podem dificultar a alimentação das aves marinhas, que não conseguem encontrar o peixe que precisam para alimentar as suas crias, diz William Sydeman. À medida que os oceanos ficam mais quentes e os peixes procuram áreas mais frias, as aves podem ter de cobrir distâncias maiores entre as áreas de alimentação e as colónias de nidificação, ou mergulhar mais profundamente para encontrar alimento, enquanto os peixes procuram profundidades mais frias. “Algumas espécies, como as gaivotas Rissa tridactyla, simplesmente não o conseguem fazer”, diz William.

“Devido ao seu rápido metabolismo, as aves marinhas precisam de apanhar cerca de metade do seu peso corporal em peixe todos os dias para sobreviver, e ainda mais para sustentar as suas crias. Isto torna-as vulneráveis a mudanças na acessibilidade das suas presas.”

Não coma toda a comida dos pássaros

Se os impactos das alterações climáticas no sucesso de reprodução de aves marinhas forem de facto consequência das dificuldades em encontrar peixe, devemos fazer outra coisa para as ajudar a sobreviver às alterações climáticas, argumentam os investigadores no estudo: limitar a pesca no espaço e no tempo.

“No hemisfério norte, em particular, precisamos de medidas mais restritas para ajudar na recuperação de populações de aves”, diz William, “e no hemisfério sul, onde a pesca está a aumentar, devemos evitar cometer os mesmos erros.”

Uma das preocupações emergentes no hemisfério sul é a pesca focada em espécies mais pequenas, como anchovas ou até mesmo krill, com as quais muitas aves alimentam as suas crias. “Para os pássaros, o que importa é a comida”, diz William. “Portanto, qualquer coisa que possamos fazer para ajudar a manter as suas presas, particularmente encerrar pescarias em torno das colónias durante a época de reprodução, quando as aves precisam realmente de comida, seria muito positivo.”

Existem alguns exemplos promissores. Por exemplo, em algumas áreas do Mar do Norte, a proibição da pesca comercial está a ajudar as gaivotas Rissa tridactyla a criar mais proles. O próprio pinguim-africano, que está ameaçado de extinção e que se alimenta de peixe no hemisfério sul, parece ter beneficiado de uma proibição local na pesca de sardinha e anchova – os seus peixes favoritos – em torno das suas colónias de nidificação.

“Uma melhoria modesta no sucesso de reprodução pode ter um efeito positivo ao longo de um período grande de tempo”, diz William. “Mas, neste caso, é preciso fazer mais, pois estes pinguins estão em sérios apuros.”

Para além das restrições locais em torno das colónias de reprodução, que muitas vezes são temporárias, William Sydeman e os seus colegas argumentam no artigo que as grandes áreas marinhas protegidas, onde as criaturas marinhas podem encontrar refúgios seguros – e comida em abundância – durante o ano inteiro, também são importantes para ajudar as aves marinhas a sobreviver.

E isto provavelmente também serve para os recifes de coral, diz Nancy Knowlton, e também há benefícios para os humanos. “As áreas marinhas protegidas também beneficiam a pesca. Estas áreas fornecem uma colheita mais sustentável.”

Para além disso, diz Nancy, podem dar tempo às espécies enquanto colocamos a nossa casa climática em ordem. “Os nossos esforços climáticos são muito importantes, mas vão demorar algumas décadas a surtir efeito, mesmo no melhor dos cenários. Portanto, as coisas que já podemos fazer localmente também serão muito importantes.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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