As vagas de calor matam pessoas – e as alterações climáticas estão a piorar bastante a situação

Um estudo recente descobriu que mais de um terço de todas as mortes devido a vagas de calor no mundo inteiro podem ser atribuídas às alterações climáticas. Algumas regiões dos EUA estão a sentir esse perigo neste momento.

Publicado 6/07/2021, 11:57
calor

Em Portland, no estado de Oregon, os habitantes refrescavam-se num centro de socorro durante a histórica e mortal vaga de calor de junho. É praticamente certo que as alterações climáticas pioram as vagas de calor.

Fotografia de Nathan Howard, Getty Images

As vagas de calor, como a que fustigou o noroeste dos Estados Unidos na semana passada, são mortais.

O número de vidas humanas que se perderam devido às temperaturas recorde que assolaram as costas dos EUA e do Canadá nas últimas semanas já é enorme. Pelo menos 80 pessoas morreram nos EUA durante os dias mais recentes de calor extremo; na Colúmbia Britânica, este número ronda as centenas. E, à medida que surgem mais dados, estes valores tendem a aumentar ainda mais.

Várias investigações científicas mostram que as alterações climáticas estão a tornar as vagas de calor mais longas, mais quentes, mais prováveis e mais perigosas. Um estudo recente publicado na Nature Climate Change acrescenta informações adicionais ao avaliar o custo humano deste calor extra. Em junho, uma equipa de cerca de 70 investigadores informou que, nos 732 locais de 6 continentes onde efetuaram estudos, cerca de 37% de todas as mortes relacionadas com vagas de calor podiam ser diretamente atribuídas às alterações climáticas.

Este estudo salienta a urgência com que precisamos de abordar as alterações climáticas provocadas pelo homem, diz Ana Vicedo Cabrera, autora principal do estudo e epidemiologista de alterações climáticas da Universidade de Berna, na Suíça.

“As alterações climáticas não se tratam de uma coisa que que vai acontecer no futuro: é algo no presente e já está a afetar a nossa saúde de formas bastante dramáticas”, diz Ana. Os eventos de calor extremo e mortal, como o que atingiu a América do Norte, são um prenúncio do que está por vir. “Conseguimos perceber pelo que já vimos no passado – pelos tais 37%  – que isto só vai aumentar exponencialmente daqui para a frente.”

O calor extremo é mortal

Nos EUA, o calor extremo mata cada vez mais pessoas todos os anos do que qualquer outro tipo de desastre natural. Globalmente, os impactos são enormes. Durante as vagas de calor históricas – como aconteceu em 1995 em Chicago, em 2003 na Europa ou em 2019 em França – milhares de pessoas podem morrer e muitas mais sofrem impactos graves na saúde que podem perdurar até muito tempo depois de o calor se dissipar, diz Camilo Mora, cientista climático da Universidade do Havai, que escreveu um estudo intitulado “27 formas pelas quais uma vaga de calor nos pode matar: Calor mortal na era das alterações climáticas”.

“Estes eventos podem ter consequências persistentes, desde insuficiência renal a danos cerebrais e cardíacos”, diz Camilo.

Os estudos feitos anteriormente já designavam vagas de calor que tinham sido especificamente alimentadas pelas alterações climáticas e que assolavam uma cidade com um número maior de mortes. Na Europa, por exemplo, na sufocante vaga de calor de 2003, as alterações climáticas provocadas pelo homem aumentaram o perigo de morte em 70% em Paris. O novo estudo expande este tipo de análise a um nível global, observando mais de 700 locais em todos os continentes habitados.

Os investigadores analisaram todas as mortes registadas durante o verão, bem como dados de temperatura locais e hora da morte, para filtrar todos os óbitos que provavelmente tinham sido causados pelo calor extremo. Existem limites de temperatura a partir dos quais as pessoas têm muito mais probabilidades de morrer, mas estes limites são diferentes em diferentes partes do mundo.

A equipa desenvolveu uma fórmula matemática que ligava as temperaturas extremas – o quão quente estava para além da temperatura média confortável para determinada vila ou cidade – ao número de pessoas que poderiam morrer caso essas temperaturas fossem atingidas. Esta abordagem permitiu aos investigadores descortinar o número pessoas que tinham morrido devido a vagas de calor extremo nos locais observados.

A equipa usou depois um modelo climático para simular um mundo imaginário no qual não aconteceram alterações climáticas provocadas pelo homem. Os investigadores usaram a sua fórmula para descobrir quantas pessoas teriam morrido de calor extremo nesse universo alternativo.

As diferenças eram contrastantes. O nosso planeta aqueceu cerca de 1 grau desde o final do século XIX e deverá aquecer pelo menos o mesmo até ao final deste século, isto se não enveredarmos esforços sérios para eliminar as emissões de gases de efeito estufa.

Bastava retirar este 1 grau de aquecimento para que as mortes relacionadas com calor representassem, em média, pouco menos de um por cento de toda a mortalidade registada no verão no mundo inteiro. Mas, em vez disso, as mortes relacionadas com calor representam mais de 1.5% de todas as mortes registadas no verão – um aumento de cerca de 60%.

Se aplicarmos estes dados ao mundo inteiro, significa que mais de 100.000 mortes por ano podem ser atribuídas às alterações climáticas provocadas pelo homem, embora Ana Cabrera alerte para a necessidade de mais análises para se chegar a uma estimativa global mais exata.

Injustiça climática

O estudo descobriu que, em média, mais de uma em cada três mortes relacionadas com calor podia ser atribuída às alterações climáticas. Mas em alguns países da América do Sul, e também no Kuwait, Irão e partes do Sudeste Asiático, o número de vítimas humanas é muito maior: até 77% no Equador e 61% nas Filipinas. Esta disparidade não surge apenas porque estes lugares são particularmente quentes, mas sim porque muitas vezes não há acesso a ar condicionado, a habitações bem construídas que gerem melhor a distribuição de calor e a outros fatores que podem aumentar a vulnerabilidade das pessoas ao calor.

Os padrões de vulnerabilidade descobertos pelo estudo revelam uma profunda desigualdade, diz Tarik Benmarhnia, especialista em saúde ambiental da Universidade da Califórnia, em San Diego.

“Se pensarmos em quem contribuiu para as alterações climáticas durante o século passado, e em quem está a sofrer as maiores consequências hoje, vemos que não é justo. Há uma enorme injustiça ambiental em relação a quem está a sofrer a mortalidade relacionada com o calor causado pelas alterações climáticas antropogénicas.”

Os EUA são responsáveis por cerca de 25% de todas as emissões atualmente na atmosfera, enquanto que a Guatemala, por exemplo, contribuiu com cerca de 0.0002%. Mas mais de 75% das mortes relacionadas com calor na Guatemala podem estar relacionadas com as alterações climáticas.

Os impactos nos EUA também são devastadores: cerca de 35% das mortes relacionadas com calor nos EUA podem ser atribuídos às alterações climáticas. Outra investigação mostra claramente que estas vulnerabilidades não são equitativas. Em muitas cidades norte-americanas, os idosos negros têm duas vezes mais probabilidades de morrer durante os eventos de calor extremo do que os brancos mais velhos.

“No mundo inteiro, os efeitos são desiguais. Nos EUA, os efeitos são desiguais. No município, na cidade, no bairro – os efeitos são desiguais”, diz Tarik Benmarhnia.

Sinais mortíferos de alterações climáticas

Os cientistas estão a trabalhar para determinar como é que as alterações climáticas pioraram esta recente vaga de calor no noroeste da América do Norte, mas não há dúvidas de que desempenharam um papel importante, diz Camilo Mora.

“Quantas vezes é que precisamos de provar que a chuva molha?” pergunta Camilo. “Há décadas que nós, os cientistas climáticos, dizemos que isto vai ser grave. Agora, é mesmo grave.”

Mesmo que todas as emissões de gases de efeito estufa parassem amanhã, o planeta continuaria a aquecer para além do 1 grau que já atingiu. Isto coloca o tipo de eventos de calor severo que sentimos hoje mais em linha com uma regra, não com uma exceção. Porém, a intensidade do calor no futuro depende das ações climáticas que tomarmos agora, diz Camilo.

“As nossas escolhas para o futuro estão entre ter mais eventos, ou muito mais eventos destes. Ainda podemos escolher entre o menor de dois males.”

De qualquer forma, já está mais do que na hora de começarmos a ajudar as pessoas de todo o país a prepararem-se para o calor extremo, diz Kristie Ebi, da Universidade de Washington, especialista em saúde ambiental global. Algumas destas ações podem ser simples, como garantir que as pessoas têm acesso a ventoinhas, ar condicionado e sombra. Outras ações, como descobrir uma forma de tornar a rede elétrica dos EUA robusta o suficiente para suportar as tensões extra impostas pelo calor, serão muito mais complexas.

Mas, de acordo com Kristie, a mensagem básica é simples: “Podemos optar por salvar vidas.”

“O calor mata, mas não tem de ser assim.”

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

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