Colapso de condomínio em Miami sublinha a necessidade de adaptação urgente à subida dos mares

Embora o colapso parcial deste edifício à beira-mar na Flórida não esteja diretamente relacionado com as alterações climáticas, há muitas outras propriedades vulneráveis à subida do mar.

Publicado 7/07/2021, 11:28 WEST
subida do nível do mar em miami

O colapso parcial de um condomínio em Miami está a chamar a atenção para o facto de as comunidades costeiras precisarem de lidar urgentemente com a subida do nível do mar, que está rapidamente a tornar-se um perigo.

Fotografia de Jeffrey Greenberg, Education Images/Universal Images Group/Getty

O colapso de um edifício de apartamentos em Surfside, na Flórida, pode forçar o que alguns dizem ser um debate há muito esperado sobre as duras realidades das alterações climáticas, que irão transformar uma das regiões mais vulneráveis dos EUA.

Para clarificar esta questão, até ao momento não há evidências que liguem as alterações climáticas ao colapso das Torres Champlain na noite de 24 de junho, evento que soterrou habitantes nos escombros. O nível do mar subiu 20 centímetros no sul da Flórida desde 1981, ano em que este condomínio de 12 andares foi construído – não sendo o suficiente para estimular o seu colapso, diz Hal Wanless, geólogo da Universidade de Miami e uma das vozes mais proeminentes a falar sobre a subida do nível do mar no sul da Flórida.

Até agora, a investigação focou-se mais numa confluência de eventos – incluindo atrasos por parte da associação de moradores na realização das reparações recomendadas – e num perigo ambiental que é conhecido há mais de um século: os efeitos corrosivos da água salgada nas construções costeiras.

As fotografias de estruturas de metal corroídas e betão apodrecido na cave do condomínio foram divulgadas recentemente. O relatório de 2018 de uma inspeção de engenharia ao edifício, publicado no site da cidade de Surfside, documentou “fendas abundantes e desagregação de vários graus” nas colunas de betão. O termo desagregação é usado para descrever betão degradado por desmoronamento ou fendas.

Mas se os atuais códigos de construção e as inspeções necessárias falharam em evitar este problema, como é que os habitantes de prédios à beira-mar podem estar protegidos nas próximas décadas – quando 60 centímetros de subida do nível do mar podem reduzir dramaticamente as praias onde agora se erguem edifícios, aumentar a magnitude das tempestades e espalhar água salgada ainda mais para o interior, agravando os seus efeitos corrosivos?

Com o degelo acelerado das plataformas na Antártida e na Gronelândia, Hal Wanless acredita que um aumento de 60 centímetros no nível do mar pode acontecer mais depressa do que o indicado pelas atuais projeções. O nível intermédio mais alto da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA para o ano de 2070 é de 1 metro.

“Podemos atingir os 60 ou 90 centímetros em meados deste século e, quando falamos sobre estes números, estamos a falar sobre um ciclo de hipotecas de 30 anos”, diz Hal. “Isto coloca em questão a viabilidade de todas as ilhas-barreira do mundo.”  

Uma década perdida

As autoridades dos quatro condados mais a sul da Flórida organizaram-se há uma década para tratar das questões climáticas que a legislatura controlada pelos republicanos tinha ignorado. (Os legisladores reconheceram em 2019 que “tinham perdido uma década” ao não abordar as alterações climáticas.)

No sul da Flórida, os presidentes de câmaras e outras autoridades tomaram medidas para mitigar as inundações, que já acontecem regularmente nas áreas mais baixas durante as marés altas, e para se prepararem para os futuros impactos. Por exemplo, as autoridades estão a eliminar mais de 100.000 fossas sépticas que irão deixar de funcionar devido à subida do lençol freático.

Mas é complicado fomentar debates sobre a magnitude do que se aproxima e sobre as opções limitadas de adaptação, muitas das quais com custos de milhares de milhões de dólares. O projeto mais recente em consideração seria um paredão de 10 quilómetros construído desde a baía de Biscayne até ao centro de Miami. Em alguns locais, esta parede teria 7 metros de altura e custaria 6 mil milhões de dólares, de acordo com o projeto do Corpo de Engenheiros do Exército. A magnitude deste quebra-mar, bem como o seu custo, assustaram muitos dos habitantes de Miami.

Phil Stoddard, professor de biologia na Universidade Internacional da Flórida, em Miami, que foi presidente da câmara de Miami Sul durante uma década, diz que a noção de que o solo sólido no sul da Flórida irá dar lugar a inundações parece atualmente incompreensível para algumas pessoas, sobretudo numa área iluminada por intermináveis céus azuis e sustentada, pelo menos até surgir a COVID, por uma economia extremamente forte.

“Desde que há registo de humanos na história, a terra não desapareceu, e as pessoas que conheço falam sobre a terra permanecer aqui para as gerações vindouras”, diz Phil. “É difícil para as pessoas compreenderem que a terra não vai estar aqui. As pessoas podem até ouvir isto, mas não têm uma construção mental para conceber este tipo de coisa a acontecer.”

Porém, a construção que transformou o centro de Miami e estimulou linhas de novas torres de condomínios ao longo de Miami Beach, muitas com imóveis avaliados em 30 milhões de dólares, continua a acelerar.

As investigações começam

Nos dias que se seguiram ao colapso do edifício de Surfside, foram recuperados 18 corpos e as autoridades continuam a escavar para tentar encontrar 145 pessoas que permanecem desaparecidas. As operações foram suspensas durante grande parte de quinta-feira, quando surgiram receios de que o resto do complexo também parecia instável e poderia desabar. Os trabalhos recomeçaram quando a tempestade tropical Elsa, que vai atingir o sul da Flórida no início da semana que vem, se transformou em furacão.

O colapso deste edifício já gerou várias investigações, incluindo análises da Agência Federal de Gestão de Emergências e do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia, instituto que investigou o colapso das torres do World Trade Center no ataque terrorista de 11 de setembro. A procuradora do estado de Miami-Dade, Katherine Fernandez Rundle, anunciou planos para convocar um júri para investigar o acidente. Em 1992, após o furacão Andrew, uma investigação semelhante originou reformas significativas no código de construção do estado relacionadas com as pressões eólicas.

As autoridades também ordenaram inspeções imediatas aos edifícios mais antigos de Miami Beach e na cidade de Miami.

O engenheiro estrutural John Pistorino, que em 1974 foi contratado para conduzir uma investigação sobre o desabamento de um edifício no centro de Miami, foi novamente abordado para fazer uma investigação mais aprofundada. Essa investigação levou a uma exigência que dizia que os edifícios nos condados de Miami-Dade e Broward tinham de ser inspecionados e novamente certificados aos 40 anos de idade. O objetivo era evitar outro colapso. As Torres Champlain tinham 40 anos e estavam nos estágios iniciais de certificação, embora a manutenção e as reparações recomendadas no relatório de engenharia de 2018 ainda não tivessem começado.

John Pistorino diz que o atual código de construção leva em consideração a corrosão da água salgada e o tipo de betão usado nas estacas que suportam a construção.

“Estes edifícios foram construídos e projetados com um ambiente hostil em mente”, diz John. “Mas continuam a necessitar de manutenção e conservação desde o dia em que são construídos, quer estejam em áreas costeiras ou não.”

Outros engenheiros e construtores ecoaram as palavras de John Pistorino, argumentando que os novos edifícios são construídos para suportar a subida do nível do mar. Raul Schwerdt, dono da empresa RAS Engineering em Miami, disse ao Miami Herald que, se os edifícios na Flórida forem construídos corretamente, devem conseguir suportar a subida do nível do mar. “Se as fundações tiverem estacas profundas, que atinjam os 9 metros de profundidade, isso deve suportar a construção para sempre, independentemente do que acontecer – quer seja um furacão ou uma inundação do edifício.”

John diz que este colapso recente provavelmente irá resultar no melhoramento das inspeções de construção e num maior envolvimento por parte das associações de moradores, para garantir a manutenção e reparações.

A lição mais óbvia do desastre, de acordo com John, é a de que não devemos esperar 40 anos para começar a investigar a degradação dos nossos edifícios.

Qual ressonância?

Este desastre nas Torres Champlain é um evento raro. Nos EUA, os edifícios não caem assim do nada. Muitos dos habitantes de Miami afirmam que este evento “foi um alerta” para o mundo inteiro, atraindo cobertura da imprensa internacional e especulações sobre uma série de fatores que vão desde a segurança dos arranha-céus à viabilidade da supervisão por parte das associações de moradores.

Phil Stoddard acredita que os efeitos deste desastre na opinião pública, quer seja em Miami ou no resto do mundo, não serão duradouros.

“Será que foi um alerta, ou será que tocou num ponto nevrálgico?” pergunta Phil. “Um alerta ressoa e vai para além de si mesmo. Acertar num nervo só dói durante algum tempo e depois recuperamos. Isto certamente atingiu um ponto nevrálgico. Mas será que também serviu de alerta? Será que isto vai fazer com que as pessoas pensem sobre as questões maiores?”

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

 

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