Especialistas temem que as inundações mortais na Alemanha sejam um vislumbre do futuro climático

Segundo os cientistas, as alterações climáticas estão a tornar as chuvas torrenciais mais comuns.

Publicado 21/07/2021, 11:52

A Alemanha e a Bélgica, bem como parte dos Países Baixos e do Luxemburgo, estão a enfrentar inundações devastadoras provocadas pelas chuvas intensas dos últimos dias. Mais de 125 mortos já tinham sido confirmados até sexta-feira.

Embora os cientistas ainda estejam a tentar perceber como é que as alterações climáticas podem ter influenciado este evento meteorológico, as principais características de como as tempestades serão impactadas pelas alterações climáticas estão à vista: quantidades maiores de chuva durante mais tempo.

As chuvas estabeleceram novos recordes na bacia do rio Reno, na Alemanha, onde aconteceu a maior parte das inundações. As ruas só são navegáveis de barco, as casas ficaram inundadas e parte de um castelo desapareceu.

“Isto não é assim tão surpreendente, porque o aumento de eventos extremos é algo que vemos nas projeções dos modelos climáticos”, diz Dieter Gerten, climatologista do Instituto Potsdam de Pesquisa de Impacto Climático. No entanto, apesar das projeções, Dieter diz que ficou chocado com a magnitude e intensidade das inundações. A sua cidade natal, Oberkail, localiza-se numa região da Alemanha que ficou inundada.

Enquanto as equipas de resgate se deslocavam para ajudar as pessoas afetadas, os líderes europeus usaram as inundações para reforçar a mensagem de que é necessário tomar medidas de mitigação e adaptação às alterações climáticas.

“Este evento mostra que mesmo os países ricos como a Alemanha não estão protegidos contra os impactos climáticos mais severos”, diz Kai Kornhuber, físico climático da Universidade de Colúmbia.

Como um mundo mais quente influencia as chuvas torrenciais

Um sistema lento de baixa pressão tem despejado chuva sobre a Europa Ocidental desde o início da semana passada, de acordo com a empresa de meteorologia AccuWeather. Alguns locais da Alemanha já testemunharam mais chuva num só dia do que normalmente veriam num mês inteiro. Este mesmo sistema deu origem a inundações em Londres; seguindo agora para o sul da Europa.

Os cientistas identificam duas formas pelas quais as alterações climáticas podem ter contribuído para as inundações: a quantidade de chuva e o ritmo lento da tempestade.

“Será que estas chuvas fortes são mais prováveis devido ao clima do século XXI?” Provavelmente é o que está a acontecer, diz Dieter.

Eis como funciona. O ar mais quente consegue reter mais água. Isto acontece porque com temperaturas mais elevadas as moléculas de água condensam em vapor e concentram-se na atmosfera. É a mesma física responsável pelos secadores de roupa e máquinas de lavar loiça; é também por esta razão que as bebidas frescas “suam”.

Por cada grau Celsius de aquecimento, os cientistas estimam que a atmosfera pode reter mais 7% de humidade. Com mais humidade na atmosfera, formações como este sistema de baixa pressão sobre a Europa ou furacões no Atlântico produzem mais chuvas.

As inundações podem surgir de chuvas fortes dependendo de uma série de fatores, incluindo chuvas anteriores, desenvolvimento urbano e geografia, ou se uma região está localizada num vale. Mas Dieter diz que as chuvas torrenciais foram o que provavelmente tornou as inundações tão extremas.

O movimento lento dos sistemas meteorológicos que transportam enormes quantidades de precipitação vai tornar estes eventos de chuva ainda piores na Europa, de acordo com um estudo recente publicado na Geophysical Research Letters.

“Acreditamos que estas tempestades em geral vão ficar mais lentas no verão e no outono devido à amplificação do Ártico”, diz Hayler Fowler, especialista em hidroclimatologia da Universidade de Newcastle e uma das autoras do estudo.

O Ártico e a Antártida estão a aquecer com uma taxa duas a três vezes superior à do resto do planeta. Os cientistas acreditam que este aquecimento está a desestabilizar a corrente de jato, a corrente de ar que circula no sentido oposto ao dos ponteiros do relógio no hemisfério norte.

Quando a diferença de temperatura entre os polos e o equador é elevada, a corrente de jato sopra de forma mais forte e uniforme, mas quando os polos aquecem, esta diferença de temperatura é menor, abrandando a corrente de jato.

O resultado, diz Dieter, são áreas de alta e baixa pressão que permanecem no mesmo local durante mais tempo.

“Contávamos com mudanças meteorológicas a cada três a sete dias, mas agora temos padrões climáticos que duram semanas”, diz Dieter.

Há mais no horizonte?

Os cientistas estão atualmente a apurar quanto desta catástrofe pode ser atribuído às alterações climáticas.

A iniciativa World Weather Attribution, que investiga a ligação entre condições meteorológicas extremas e alterações climáticas, vai estudar as probabilidades de inundações mais extremas devido à influência humana.

No início de julho, uma equipa internacional de cientistas desta organização determinou que a vaga de calor extremo no noroeste do Pacífico teria sido “virtualmente impossível” sem as alterações climáticas.

Hayler Fowler diz que os especialistas vão usar modelos que simulam o sistema de baixa pressão em condições pré-industriais. Depois serão executados modelos que levam em consideração o efeito dos gases de efeito estufa para comparar as condições meteorológicas com a influência das alterações climáticas.

“Esta [inundação] pode ter sido maior e quase certamente mais intensa devido às alterações climáticas”, diz Hayler.

Kai Kornhuber, da Universidade de Colúmbia, hesita em especular sobre o papel que as alterações climáticas desempenharam nas inundações da semana passada na Alemanha, mas diz que ficaria muito surpreendido se este evento tivesse simplesmente acontecido por acaso.

“O tempo está a mudar…” diz Kai. “Sabemos que, com cada grau de aquecimento, as chuvas torrenciais vão tornar-se mais extremas. Penso que podemos esperar mais eventos destes no futuro.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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