Este verão pode mudar a nossa compreensão sobre calor extremo

A vaga de calor que bateu recordes no noroeste do Pacífico sugere que as alterações climáticas estão a obrigar-nos a ultrapassar um limite para as temperaturas.

Publicado 27/07/2021, 12:23
Temperaturas altas

Adrian Ochoa limpa o rosto enquanto trabalha num quintal em Dallas, no Texas, na terça-feira, dia 15 de junho de 2021. As temperaturas de junho em Portland, no Oregon, foram mais altas do que o calor que bateu recordes em Dallas.

Fotografia de Nitashia Johnson, The New York Times/Redux

A vaga de calor que assolou o noroeste do Pacífico dos Estados Unidos no final de junho reescreveu os livros de recordes de formas chocantes e difíceis de compreender. Os cientistas não sabem ao certo qual é a melhor forma de justificar temperaturas tão extremas em comparação com o que os meteorologistas esperam ver nesta região tipicamente fria e húmida do planeta.

Em Seattle, Washington, as temperaturas atingiram os 42 graus Celsius, mais quente do que na húmida cidade de Tampa, na Flórida. Os 46 graus verificados em Portland, no Oregon, eclipsaram por pouco o recorde de temperatura em Dallas, no Texas. Centenas de quilómetros a norte de Portland, na vila de Lytton, na Colúmbia Britânica, foi estabelecido um novo recorde de temperatura para o Canadá – 49 graus, semelhante ao registado no Vale da Morte dos EUA. No dia seguinte, esta vila foi praticamente engolida por um incêndio florestal.

É possível que o noroeste do Pacífico tenha simplesmente passado por uma combinação muito infeliz entre efeitos meteorológicos e alterações climáticas. Porém, nos últimos dias, alguns investigadores começaram a considerar uma explicação alternativa: talvez as alterações climáticas tenham colocado em movimento novos processos ainda pouco compreendidos que estão a tornar as vagas de calor, que outrora pareciam estatisticamente impossíveis, muito mais prováveis.

São necessários mais estudos para determinar se esta teoria está correta e, em caso afirmativo, quais são os mecanismos subjacentes. Mas se o aquecimento da atmosfera favorecer eventos como a vaga de calor registada no noroeste do Pacífico, as consequências para a vida humana podem ser profundas, considerando que o calor extremo é uma das formas mais mortais de um clima extremo.

Na Colúmbia Britânica, as autoridades registaram quase 500 “mortes súbitas e inesperadas” no momento da vaga de calor. Na sexta-feira, os Centros de Controlo de Doenças dos EUA informaram que, entre o dia 25 e o dia 30 de junho, os hospitais da região noroeste registaram quase 3.000 entradas relacionadas com o calor.

É por isso que os cientistas que propõem esta teoria estão rapidamente a tentar encontrar respostas.

“Estamos todos um pouco chocados” com a vaga de calor no noroeste do Pacífico, diz Geert Jan van Oldenborgh, investigador de climas extremos do Instituto Real de Meteorologia dos Países Baixos e um dos cientistas que defende esta teoria. “Pensávamos que compreendíamos as vagas de calor razoavelmente bem. Isto revela lacunas na nossa compreensão.”

Uma vaga de calor em mil anos

A primeira explicação para o calor brutal que atingiu o noroeste dos EUA em junho referia um padrão climático de verão conhecido por cúpula de calor. No interior de uma cúpula de calor, a luz do sol aquece a superfície fazendo com que o ar quente suba. Eventualmente, o ar que sobe encontra as pressões elevadas que o forçam de regresso ao solo. Conforme o ar desce, comprime e aquece ainda mais. Este processo de subida e descida é repetido de forma continuada, fazendo com que o ar no interior da cúpula de calor fique cada vez mais quente.

No verão, nas latitudes médias, as cúpulas de calor são “a maneira normal de obter uma vaga de calor”, diz Geert. E apesar de esta cúpula de calor ser excecionalmente forte para o noroeste do Pacífico, não é algo realmente extremo.

As temperaturas dentro da cúpula de calor são outra história.

“Penso que a palavra é espanto”, disse Michael Wehner, investigador de climas extremos no Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, quando questionado sobre a reação que teve aos novos registos de temperatura. “Creio que ninguém acreditava que podia ficar tão quente naquela região.”

Está bem estabelecido que as alterações climáticas estão a tornar as vagas de calor mais quentes e mais frequentes. Mas para determinar a influência do aquecimento global na vaga de calor registada no noroeste do Pacífico, os cientistas precisavam de uma análise estatística rigorosa conhecida por estudo de atribuição.

Foi exatamente isso que Michael Wehner, Geert van Oldenborgh e cerca de duas dezenas de outros investigadores fizeram. Através de um protocolo publicado e revisto por pares, os cientistas combinaram os dados de longo prazo de estações meteorológicas em Portland, Seattle e Vancouver, juntamente com cerca de 20 modelos climáticos para explorar como é que a probabilidade e intensidade da vaga de calor foram impactadas pelas alterações climáticas.

A análise, divulgada online no início deste mês, mostra que uma vaga de calor com esta força teria sido “praticamente impossível” sem as alterações climáticas. Este resultado não é surpreendente. “Isto já é bastante normal para as vagas de calor”, diz Geert.

O que é surpreendente é o nível atingido pelas temperaturas quando comparado com tudo o que a região já testemunhou – com uma média de 1 grau mais quente na área de estudo. Mesmo considerando o aquecimento global, os autores determinaram que uma vaga de calor com esta intensidade era no máximo um evento que acontece uma vez em mil anos.

“Dissemos que era virtualmente impossível sem as alterações climáticas”, diz Michael. “Mas eu teria dito de antemão que era virtualmente impossível com as alterações climáticas.”

Uma infelicidade ou um novo normal?

Embora esta vaga de calor possa ter sido uma confluência desastrosamente infeliz de efeitos meteorológicos e alterações climáticas, Geert e os seus colegas estão agora a explorar a possibilidade de o aquecimento atmosférico ter tornado este evento muito mais provável devido a processos “não lineares” que não estão a ser captados pelos atuais modelos climáticos.

Ainda não se sabe quais poderão ser estes processos. Uma possibilidade, diz Geert, é a zona de seca do verão centrada no sudoeste dos EUA estar a expandir-se para norte. Isto permitiria vagas de calor mais intensas mais a norte, uma vez que os locais com menos humidade no solo têm menos arrefecimento através da evaporação conforme o sol aquece o solo.

As alterações climáticas também podem estar a impactar a corrente de jato de forma a tornar mais prováveis as vagas de calor extremas durante o verão. Um estudo de modelagem feito recentemente descobriu que, à medida que o aquecimento global avança, as vagas de calor tornar-se-ão mais persistentes na América do Norte e noutros lugares – talvez devido a uma corrente de jato mais lenta que pode abrandar os sistemas meteorológicos. As vagas de calor mais lentas podem secar mais os solos e a vegetação, exacerbando os efeitos de seca.

Esta ligação à corrente de jato ainda é uma questão de debate científico e vincular as mudanças na circulação atmosférica a qualquer evento como a vaga de calor no noroeste do Pacífico vai ser muito difícil, diz Kai Kornhuber, investigador de pós-doutoramento no Instituto da Terra da Universidade de Colúmbia, que liderou o estudo de modelagem.

“A longo prazo, uma circulação [da corrente de jato] enfraquecida leva a vagas de calor mais persistentes no verão”, diz Kai. “Portanto, nesse sentido, tudo isto está de acordo com o resultado esperado, mas é bastante difícil atribuir os efeitos a uma determinada fração.”

Vários autores do recente estudo de atribuição vão explorar hipóteses diferentes nas semanas e meses que seguem. Isto inclui verificar se a vaga de calor no noroeste do Pacífico é “compatível com azar”, diz Geert. “Podemos fazer isto através da observação de todas as [grandes] vagas de calor no mundo inteiro e fazer uma distribuição estatística.”

Independentemente de a recente vaga de calor ser ou não um sinal de que as emissões de carbono por parte dos humanos originaram novos processos de amplificação de calor na atmosfera, a gravidade deste evento deve ser um alerta sobre o clima que estamos a criar, diz Jessica Tierney, paleoclimatologista da Universidade do Arizona.

“Sabendo o que sabemos sobre o quanto o sistema terrestre pode aquecer, o facto de estarmos a observar estes eventos graves e de só termos aquecido pouco mais do que um grau é assustador”, diz Jessica. “Se já está assim tão mau, será que queremos mesmo atingir os 3 ou 4 graus acima dos valores pré-industriais?”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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