5 Futuros climáticos possíveis – desde o otimista ao estranho

Os cinco cenários que formam a espinha dorsal do último relatório do IPCC contam histórias radicalmente diferentes sobre o futuro da humanidade.

Publicado 20/08/2021, 11:28
Futuro climático

Cinco cenários possíveis para o futuro climático sustentam o último relatório do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas da ONU. Nesta fotografia, plantas escalam treliças vermelhas nos Jardins da Baía de Singapura.

Fotografia de Andrew Moore, Nat Geo Image Collection

O relatório mais recente da ONU sobre o estado do clima alerta que o futuro da humanidade pode passar por desastres naturais apocalípticos. Mas este futuro não está definido. Dependendo das tendências económicas globais, do progresso tecnológico, dos desenvolvimentos geopolíticos e, mais importante, da agressividade com que iremos agir para reduzir as emissões de carbono, o mundo no final do século XXI pode vir a ser radicalmente diferente. Ou não.

Os possíveis futuros que nos aguardam figuram nas projeções do Sexto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), cujo primeiro capítulo sobre a ciência física das alterações climáticas foi lançado na semana passada. O novo relatório apresenta cinco narrativas climáticas que diferem consoante o nível de aquecimento projetado e da capacidade de adaptação da sociedade às mudanças que virão. Cada narrativa combina um cenário de desenvolvimento socioeconómico diferente com um trajeto diferente de emissões de carbono, resultando numa série de finais distintos para a história das alterações climáticas do século XXI.

Em alguns destes cenários, a humanidade enfrenta o desafio climático enquanto tenta simultaneamente reduzir a pobreza e melhorar a qualidade de vida para todos. O mundo vai ficar mais quente e o clima mais perigoso, mas os piores impactos climáticos serão evitados e as sociedades irão conseguir adaptar-se.

Noutros cenários, a cooperação global é fragmentada pelo nacionalismo, pelo aumento da pobreza, das emissões e por um clima inimaginavelmente quente.

No relatório do IPCC divulgado na semana passada, os diferentes níveis de emissões dos vários cenários impulsionam diferentes níveis de aquecimento nos modelos climáticos, resultando numa série de impactos físicos no planeta. As implicações das diferentes realidades socioeconómicas só entram em cena no segundo e terceiro capítulos do novo relatório do IPCC, com lançamento previsto para 2022, uma vez que estes capítulos se concentram na adaptação e mitigação, afirma Jessica Tierney, cientista climática da Universidade do Arizona e coautora do relatório do IPCC.

“A adaptação depende muito das narrativas de ‘será que o mundo é cooperativo, será que os países ricos estão a ajudar os mais pobres?’”, diz Jessica. “A mitigação também depende destes cenários, pois representam diferentes atitudes em relação aos avanços tecnológicos. Portanto, estou realmente ansiosa por estes relatórios.”

Com base nas tendências atuais no uso global de energia e nas políticas climáticas recentes, alguns dos futuros do IPCC parecem ser mais prováveis do que outros. Mas os autores do relatório optaram por apresentar uma vasta gama de histórias para ajudar os legisladores e o público a compreender as escolhas que temos perante nós – e o que está em jogo se não optarmos com sensatez.

Anatomia de um cenário climático

Para o Quinto Relatório de Avaliação do IPCC, lançado em 2013 e 2014, os modeladores usaram uma série de “vias de concentração representativas”, ou RCP, para projetar o nosso futuro climático. Os cenários RCP diferem com base na quantidade de esforço que a humanidade coloca para limitar as alterações climáticas, variando desde o cenário RCP-2.6 de alta mitigação e baixa emissão até ao cenário RCP-8.5 de alta emissão e sem mitigação. O número após cada cenário indica “perturbação radiativa”, ou a quantidade de energia extra que as nossas emissões adicionam ao sistema terrestre, medida em watts por metro quadrado, até 2100. Quando a Terra recebe mais energia através da perturbação radiativa, as temperaturas sobem.

Os cenários presentes no Sexto Relatório de Avaliação contêm elementos humanos adicionais que os tornam um pouco mais complexos. Tal como os RCP, cada um destes cenários inclui uma via de emissões representada pela perturbação radiativa no final do século – neste caso, variando desde o melhor cenário, de 1.9 watts por metro quadrado, até um desastre de ficção científica de 8.5 watts por metro quadrado.

O cenário de 1.9 watts, que limita o aquecimento global a temperaturas inferiores a 1.5 graus Celsius, foi adicionado ao último relatório do IPCC como resultado direto de nações que adotaram uma meta de aquecimento global de 1.5 graus no Acordo de Paris, de acordo com Zeke Hausfather, que dirige o Instituto Breakthrough, um centro de investigação ambiental focado em soluções tecnológicas. Tal como o seu antecessor, o Sexto Relatório também inclui cenários de perturbação radiativa de 2.6 e 4.5 watts por metro quadrado, bem como um cenário de 7 watts por metro quadrado.

A maior alteração deste novo relatório reside no facto de as vias de emissão já não serem independentes. Cada uma está associada a um “trajeto socioeconómico partilhado” (SSP): um cenário de desenvolvimento global para o século XXI que inclui projeções de crescimento populacional e económico, bem como tendências tecnológicas e geopolíticas – elementos que podem afetar as emissões e a nossa capacidade de redução e adaptação às alterações climáticas criadas pelas mesmas. Cada um dos cenários SSP pode ser emparelhado com várias vias de emissão, resultando em diversos cenários possíveis.

No seu relatório mais recente, o IPCC concentrou-se em cinco cenários: dois cenários relativamente otimistas (SSP1-1.9 e SSP1-2.6), um cenário meio-termo (SSP2-4.5), um cenário de futuro sombrio (SSP3-7.0) e um cenário estranho (SSP5-8.5).

O bom, o mau e o estranho

Ambos os cenários otimistas são consistentes com a meta do Acordo de Paris de manter o aquecimento global abaixo dos 2 graus Celsius. Nestes futuros, as nações agem de forma imediata e agressiva para reduzir a utilização de combustíveis fósseis. As emissões globais irão atingir o zero líquido entre meados e final do século XXI, antes de atingirem um valor negativo, conforme a humanidade começa a capturar enormes quantidades de dióxido de carbono com tecnologia que ainda não foi comprovada em grande escala. No final do século, no primeiro cenário otimista, a Terra terá aquecido cerca de 1.4 graus e 1.8 graus no segundo cenário – as diferenças estão relacionadas com a velocidade de redução das emissões e a taxa com a qual implementamos tecnologia de captura de carbono.

Embora esta quantidade de aquecimento aumente a frequência e a gravidade das condições meteorológicas extremas e resulte em até 60 centímetros de aumento do nível do mar, serão evitados impactos climáticos mais severos. Ao mesmo tempo, em cada um destes cenários otimistas, o forte crescimento económico, juntamente com amplos investimentos na educação e saúde, irão elevar os padrões de vida no mundo inteiro. O mundo será mais rico e terá mais igualdade no final do século XXI e as sociedades terão mais facilidade em se adaptarem às alterações climáticas do que teriam com menos cooperação global e partilha de recursos.

O cenário meio-termo é um pouco menos otimista. Neste cenário, as emissões de carbono permanecem elevadas até meados do século, antes de começarem a diminuir. No final do século XXI, o mundo terá aquecido cerca de 2.7 graus. Zeke Hausfather diz que este cenário é “mais ou menos consistente” com as promessas climáticas das nações para 2030 sob o Acordo de Paris, o que significa que é o futuro mais plausível se o mundo não conseguir adotar medidas mais agressivas para reduzir as emissões.

Este também é o cenário onde o futuro se aproxima mais dos padrões históricos de desenvolvimento socioeconómico. As previsões apontam para um crescimento económico global desigual, com alguns países a marcharem em direção a mais riqueza e igualdade social e outros a ficarem para trás. As taxas de fertilidade permanecerão elevadas num mundo em desenvolvimento e a população global atingirá o seu pico no final do século, rondando os 9.5 mil milhões de pessoas. Nessa época, muitas partes do mundo permanecerão vulneráveis aos impactos climáticos severos.

No cenário de futuro sombrio do relatório do IPCC, a cooperação global entra em colapso à medida que o nacionalismo se apodera dos países. O crescimento económico e o progresso social estagnam. Entre as muitas nações empobrecidas do mundo, as taxas de natalidade permanecerão altas, fazendo com que a população global aumente para os mais de 12 mil milhões de pessoas no final do século – atualmente estamos quase nos 8 mil milhões. As emissões de carbono também continuarão a aumentar ao longo do século, fazendo com que, em 2100, as temperaturas globais atinjam uns assustadores 3.6 graus acima dos níveis pré-industriais. As secas e inundações irão piorar consideravelmente, o gelo do mar Ártico desaparecerá no verão e as vagas de calor que aconteciam de 50 em 50 anos serão quase 40 vezes mais frequentes.

Por fim, temos o cenário estranho, que parece saído de um filme de ficção científica. Neste mundo, a humanidade não só falha em reverter a sua curva de emissões, como duplica a extração de combustíveis fósseis e aumenta o estilo de vida dependente de energia intensiva. À medida que as nações irão desenterrar e queimar mais e mais carvão ao longo do século, o mundo irá aquecer uns inimagináveis 4.4 graus, mais quente do que alguma vez esteve em milhões de anos.

Neste cenário, porém, o forte impulso para o desenvolvimento económico e social significa que os benefícios dos combustíveis fósseis estarão espalhados por toda parte, levando a sociedades que Zeke descreve como “muito ricas, muito iguais e de alta tecnologia” no final do século. A Terra será terrivelmente quente, mas os humanos poderão estar mais bem equipados para se adaptarem do que estariam num mundo pobre e altamente desigual cercado pelo nacionalismo.

Resultados improváveis, mas importantes

Este cenário de futuro estranho pode ser um exercício mental interessante, mas um mundo no qual a humanidade queima mais carvão durante este século do que aquele que se sabe existir nas reservas do planeta parece altamente improvável, sobretudo dada a forma como as forças de mercado e as políticas climáticas estão agora a provocar um declínio na utilização de carvão nas nações mais ricas. (O carvão é agora responsável por menos de 20% de toda a eletricidade gerada nos EUA, valores que em 2007 estavam nos 50%).

O IPCC reconhece isto no seu último relatório, mas optou por incluir este cenário em parte porque deseja dar continuidade ao último relatório – o cenário SSP5-8.5 é muito semelhante ao cenário RCP-8.5 da avaliação anterior – e em parte porque os cientistas que estudam os impactos do aquecimento global muitas vezes o consideram “útil para o clima ser afetado de forma extrema”, diz Zeke.

Também é possível que feedbacks dentro do sistema climático, como um pulso massivo de CO2 e metano do degelo do pergelissolo, empurrem os níveis de aquecimento em direção às piores projeções, mesmo sem um renascimento repentino da indústria do carvão. Pode acontecer o mesmo se o clima se mostrar mais sensível às emissões de dióxido de carbono provocadas pelo homem do que os cientistas esperam atualmente.

“Do ponto de vista do IPCC, precisamos de olhar para os resultados improváveis”, diz Jessica Tierney. “Se executarmos apenas os cenários que julgamos serem mais prováveis, não conhecemos toda a gama de resultados.”

O cenário otimista que limita o aquecimento abaixo dos 1.5 graus também parece relativamente improvável, considerando o ritmo lento das ações climáticas que se verifica até agora. Mas isso pode mudar.

Zeke Hausfather salienta que as nações que representam aproximadamente dois terços das emissões globais comprometeram-se a anular as suas emissões até meados do século. Se estes países conseguirem cumprir as suas promessas, e se outras nações em desenvolvimento seguirem o exemplo – é obviamente um grande “se” – “os resultados de um aquecimento entre os 1.5 e os 2 graus ficam realmente em cima da mesa”.

“Ainda podemos optar por seguir o melhor caminho”, diz Zeke.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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