No Wyoming, estão a derrubar vedações para abrir caminho para a vida selvagem

Mais de 965.000 quilómetros de vedações atravessam o oeste americano, bloqueando a migração animal. Neste verão, perto de Yellowstone, alguns voluntários começaram a desmontar vedações.

Por Hillary Rosner
Publicado 31/08/2021, 11:45
vedações-wyoming

Vedações de arame farpado estendem-se até ao horizonte no estado norte-americano de Wyoming, onde foi descoberto que um dos condados tem 7.240 quilómetros de vedações.

 

Fotografia de Alfred Buellesbach, VISUM/Redux

Numa manhã quente de julho, mais de duas dezenas de voluntários reuniram-se num rancho nos arredores da cidade de Cody, no Wyoming, com alicates, luvas, baldes e garrafas de água. O objetivo era derrubar vários quilómetros de vedações de arame farpado que não já não são usadas para cercar gado há muitos anos – e que agora são estruturas inúteis e até perigosas na paisagem.

A oeste de Cody, na estrada rumo ao Parque Nacional de Yellowstone, a Bifurcação Norte do rio Shoshone serpenteia pelas montanhas Absaroka, uma paisagem de vulcões extintos que outrora se elevavam a milhares de metros de altura. Estranhas formações de rocha vulcânica erodida, conhecidas por hoodoos, cobrem estas encostas. Se tivermos sorte, podemos ver um rebanho de ovelhas selvagens a correr por baixo destes depósitos antigos. Mas essa visão é muito menos provável agora do que seria há um ou dois séculos, quando os colonos começaram a desenvolver a paisagem – e a levantar vedações.

As estimativas conservadoras dos cientistas revelam que há mais de 965.000 quilómetros de vedações a cruzar o oeste americano, e isto sem contar com as vedações de propriedades nas cidades e subúrbios. Num dos condados de Wyoming, os investigadores mapearam cerca de 7.240 quilómetros de cercas – uma extensão superior à da fronteira dos EUA com o México. A Cordilheira Absaroka e outras zonas do oeste americano podem parecer muito abertas e extensas, sobretudo para os viajantes que percorrem as estradas pavimentadas do país, mas na verdade estes terrenos estão cortados por quilómetros e quilómetros de vedações de arame farpado. Estas estruturas foram montadas para manter o gado no seu interior (ou exterior), para delimitar as terras públicas e privadas e para manter os animais longe das estradas.

Em alguns casos, as vedações são simplesmente restos que já não servem qualquer propósito. Algumas vedações também foram construídas com pouca consideração sobre o seu impacto noutras espécies. Mas os gestores de terrenos e grupos de conservação nos Estados Unidos estão cada vez mais cientes da forma como estas cercas podem afetar os animais selvagens, e estão a começar a exercer pressão para serem removidas ou substituídas – uma solução com a qual muitas pessoas concordam.

“Acho que todas as pessoas concordam com isto”, diz Tony Mong, biólogo de vida selvagem do Departamento de Caça e Pesca do Wyoming. Tony é presidente da Absaroka Fence Initiative, uma organização local que organizou o derrube de vedações nos arredores de Cody em julho. 

Veado, bloqueado

As vedações podem ser sinónimo de desastre para a vida selvagem que precisa de migrar sazonalmente ou que simplesmente precisa de se deslocar para as suas necessidades básicas. O veado-mula, por exemplo, pode ficar com as pernas presas quando tenta saltar a vedação e pode morrer no local. As antilocapras, que tendem a passar por baixo das cercas, podem ficar presas ou feridas pelo arame inferior, levando à morte ou a cortes que nunca cicatrizam e que são propensos a infeções.

Um estudo que observou antilocapras nas regiões norte de Montana, Alberta e Saskatchewan – onde a área de estudo continha vedações suficientes para dar oito voltas ao mundo – descobriu que as antilocapras escolhiam trajetos que cruzavam menos vedações. Isto significa que há menos habitat disponível para os animais do que parece quando nos limitamos a olhar para a vastidão da paisagem.

Uma câmara remota capta um veado-mula a caminhar numa zona de caça perto do rio Buffalo Fork, nos arredores de Grand Teton.

Fotografia de Charlie Hamilton James, Nat Geo Image Collection

Independentemente de onde estivermos no oeste dos EUA, diz Wenjing Xu, estudante na Universidade da Califórnia, em Berkeley, geralmente estamos a menos de três quilómetros de uma vedação.

“Do ponto de vista humano, as vedações servem para fazer a gestão de terrenos e do gado, mal as conseguimos ver ao longe”, diz Wenjing. “Porém, para os animais que precisam de se movimentar, cada vedação ‘invisível’ pode ser uma barreira real que os animais precisam de aprender a contornar.”

No grande ecossistema de Yellowstone, no qual a Cordilheira Absaroka está inserida, a migração de animais ungulados – antilocapras, veados, alces e ovelhas selvagens – é “o que faz todo este sistema funcionar”, diz Arthur Middleton, ecologista de vida selvagem que dirige o laboratório de Berkeley onde Wenjing Xu trabalha. As vedações são apenas um dos diversos tipos de fragmentação de habitat – juntamente com estradas, oleodutos e subdivisões de áreas residenciais – que restringem o movimento da vida selvagem.

“É uma morte por mil cortes”, diz Arthur.

Arthur e Wenjing fazem parte de um campo emergente de investigação conhecido por ecologia de vedações, que tenta compreender os impactos de todas estas cercas e como se pode mitigar os seus efeitos. Até recentemente, a investigação neste campo era escassa. Como geralmente não é possível ver as vedações nas imagens de satélite, estas costumam ser esquecidas nos planos de conservação; e também não estão incluídas no Índice Global da Pegada Humana, uma ferramenta de mapeamento que mostra a influência relativa dos humanos nas paisagens de todo o planeta. De facto, diz Wenjing, as vedações tendem a proliferar em áreas que parecem ter uma pegada humana baixa.

Uma preocupação mundial

Globalmente, as vedações são um problema crescente para o movimento de vida selvagem, com uma série de impactos que variam dependendo do tipo de vedação, ecossistema e tipo de animal. Um aumento exponencial de vedações nas pastagens Masai Mara de África Oriental, por exemplo, está a interferir na enorme migração sazonal de gnus e outros animais.

No Delta do Okavango, no Botswana, as “vedações veterinárias” – construídas para manter o gado longe das doenças de vida selvagem – têm bloqueado a passagem de zebras, gnus, girafas, búfalos e outros animais pela única zona de brejos da região. Estas vedações têm sido associadas a um declínio de várias décadas nas populações de vida selvagem; os animais morrem a tentar atravessar as cercas ou são abatidos por caçadores furtivos. Um estudo descobriu que as vedações no Botswana também alteraram a vegetação, havendo agora muito menos florestas onde a vida selvagem se concentra.

Na região da Patagónia argentina, as vedações generalizadas de gado são armadilhas mortais para o guanaco, um tipo de lhama selvagem, que fica preso no arame farpado e morre de fome. Num período de apenas dois anos, numa quinta de ovelhas, os cientistas registaram 124 mortes de guanacos.

Em algumas regiões da Europa de Leste, existem agora mais vedações fronteiriças do que havia durante a Guerra Fria, e há novas vedações, que são projetadas para impedir o avanço de migrantes humanos vindos do Médio Oriente e de África, que atravessam o habitat crucial de carnívoros como ursos, linces e lobos. Enquanto isso, ao longo da fronteira dos EUA com o México, o muro fronteiriço parcialmente construído, com 9 metros de altura em alguns lugares, bloqueia os corredores de migração de jaguares, ocelotes, lobos-cinzentos-mexicanos e de muitos outros animais. De acordo com o Centro de Diversidade Biológica, uma organização ambientalista, o muro pode ameaçar mais de 90 espécies que estão em perigo de extinção.

Fazer um pouco de bem

A Absaroka Fence Initiative (AFI) inclui agências estaduais como a de Tony Mong e federais como o Gabinete de Ordenamento do Território, grupos de conservação como o Greater Yellowstone Coalition e The Nature Conservancy (TNC), e proprietários locais de terras. Ao longo do último ano, a AFI organizou eventos de remoção e modificação de vedações. Um destes eventos, realizado em maio, atraiu 80 voluntários, que removeram cinco quilómetros de vedações, consistindo em quase 1.800 quilos de arame e postes.

A operação realizada em julho foi mais pequena, com 25 voluntários recrutados nas fileiras da AFI, em vez do público em geral. As equipas foram organizadas e distribuídas em vários locais do rancho. Eu juntei-me a um grupo que incluía Wenjing Xu e Arthur Middleton, bem como representantes da TNC, da Fundação Mule Deer e um dos proprietários do rancho, entre outros. Durante três horas, fizemos o nosso caminho lentamente para sul e depois para leste, entre uma estrada e um campo irrigado, removendo os fixadores que prendiam o arame farpado aos postes, cortando e enrolando enormes pedaços de arame, e desembaraçando os fios da espessa artemísia que tinha crescido e entrelaçado em torno da cerca.

O proprietário do rancho, que pediu para permanecer anónimo, indicou vários trilhos de alces que os animais usavam várias vezes por dia para atravessar das colinas para o vale.

À medida que o sol subia no céu, as temperaturas aumentavam, e foi um alívio quando alguns voluntários chegaram numa moto-quatro com bebidas frescas. Quando o trabalho desse dia terminou, as equipas tinham removido mais de três quilómetros de vedação.

Para os voluntários, este tipo de trabalho é imediatamente gratificante, oferecendo a sensação de que estão a ter um impacto direto na terra e nos animais. “Existe um reconhecimento crescente sobre a importância de ter estes terrenos abertos”, diz Abby Scott, diretora do programa da Northwest Wyoming para a TNC, que afirma ter sido contactada por outros grupos que trabalham na remoção de vedações. “Creio que estamos prestes a tornar-nos em algo maior.”

Arthur Middleton espera que sim. A cerca de 50 quilómetros a oeste, o Parque Nacional de Yellowstone está repleto de turistas, muitos dos quais esperam ver a sua carismática megafauna. Mas esses animais migram para dentro e fora do parque e, sem a parte de “migrar para fora”, não conseguem sobreviver.

“As pessoas não fazem a ligação entre a vida selvagem que desejam ver em Yellowstone e o trabalho de conservação que precisa de acontecer”, diz Arthur.

A pequena cidade de Cody também está a testemunhar um período de grande desenvolvimento pós-COVID. As pessoas que vivem na costa e que podem trabalhar a partir de qualquer lugar, mas que não conseguem pagar o custo de vida em cidades como Jackson, no Wyoming, ou Bozeman, no Montana, estão a chegar a esta pequena cidade. Grande parte desta pressão de desenvolvimento provavelmente irá ficar mesmo no meio das rotas de migração de antilocapras, veados e alces – e também é um habitat importante para os ursos-pardos. Quando regressámos para Cody naquele dia, orgulhosos por termos aberto alguns novos caminhos, passámos por casas novas em construção num rancho subdividido no vale. Contudo, estas casas estavam a ser construídas ao longo de um reconhecido corredor de animais.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registrar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2017 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados