As alterações climáticas estão a alimentar furacões como o Ida

Os furacões alimentam-se de calor, uma fonte crescente de combustível num mundo em aquecimento.

Publicado 6/09/2021, 12:44
Primeiros socorros de barco

Um dia depois de o furacão Ida ter atingido a costa do Louisiana sob a forma de tempestade de categoria 4, os primeiros socorros faziam-se de barco numa rua inundada da cidade de LaPlace. Em menos de uma dia, a tempestade cresceu rapidamente de uma tempestade de categoria 1 para uma tempestade de categoria 4. Este ritmo acentuado pode ser mais comum num Golfo do México aquecido pelas alterações climáticas.

Fotografia de Luke Sharrett, Bloomberg/Getty Images

Depois de atingir o Louisiana como uma tempestade de categoria 4, o furacão Ida está a abrir caminho através do Alabama e Tennessee em direção à costa leste, onde está previsto provocar um clima ainda mais severo na forma de chuva e ventos fortes capazes de gerar tornados.

No seu rescaldo, o Ida deixou milhões de pessoas na grande região de Nova Orleães sem energia – possivelmente durante semanas. Os danos sofridos neste estado norte-americano foram o resultado de rajadas de vento de quase 300 quilómetros por hora, ondas de mais de dois metros e chuvas torrenciais.

Em poucas horas, a fraca tempestade transformou-se numa tormenta poderosa, alimentada por bolsas de águas extremamente quentes no Golfo do México que atualmente atingem temperaturas de quase 30 graus Celsius, vários graus mais quente do que a média.

Pessoas limpam os detritos de uma árvore na sua propriedade em Bourg, no Louisiana, no dia 30 de agosto de 2021, um dia após a chegada do furacão Ida. Enquanto os socorristas fazem buscas no meio dos estragos, o número de mortos devido ao furacão Ida deve subir “consideravelmente”, alertou o governador do Louisiana na segunda-feira passada.

Fotografia de Mark Felix, AFP/Getty Images

“Temos tanta energia armazenada aqui que, quando se forma um furacão, podemos alimentá-lo com mais energia e transformá-lo num monstro”, diz Barry Keim, climatologista do estado do Louisiana.

Os especialistas dizem que o furacão Ida é um exemplo de como podem vir a ser as tempestades num planeta em aquecimento. Este furacão atingiu a Costa do Golfo depois de um importante relatório das Nações Unidas ter encontrado fortes evidências de que as alterações climáticas vão carregar os furacões com mais chuva, torná-los mais lentos e mais capazes de crescer de forma exponencial.

“O Ida é outro exemplo da mudança de intensidade dos furacões”, diz Jill Trepanier, especialista em condições climáticas extremas da Universidade Estadual do Louisiana.

Desde o furacão Laura no ano passado e de uma tempestade sem nome em 1856 que uma tempestade com ventos tão fortes não atingia este estado. Os danos e perdas económicas devido à tempestade podem ascender aos 80 mil milhões de dólares, de acordo com as estimativas preliminares da empresa AccuWeather.

Tempestades mais poderosas no futuro?

Para determinar com precisão a influência que as alterações climáticas podem ter exercido sobre o furacão Ida, os cientistas vão ter de realizar o que se chama estudos de atribuição. Nestes estudos, modelos de computador simulam as previsões consoante seriam as condições atmosféricas e oceânicas com e sem as emissões de gases de efeito estufa. Estes estudos têm provado que as alterações climáticas contribuíram substancialmente para a intensidade da recente vaga de calor no noroeste do Pacífico, incluindo o furacão Harvey em 2017 e o furacão Florence em 2018. Mas estas investigações podem demorar meses até ficarem concluídas.

Mesmo sem estes estudos mais exatos, os cientistas reconhecem várias ligações entre as alterações climáticas e o furacão Ida, apontando para determinadas características consistentes com o ar e oceanos mais quentes.

Um dos aspetos que salta mais à vista é a rapidez com que o Ida passou de um ponto no radar para um enorme furacão.

“Até há poucos dias, este furacão não existia”, diz Daniel Horton, especialista em clima extremo da Universidade Northwestern.”Três dias antes de a tempestade chegar, se tivéssemos olhado para o mapa, não teríamos observado um furacão no Golfo.”

Este tipo de crescimento acelerado é algo a que os meteorologistas chamam rápida intensificação – definida por um aumento de 55 quilómetros por hora em menos de 24 horas. O furacão Ida, porém, ultrapassou em muito esse critério, aumentando 105 quilómetros por hora em metade desse tempo.

O furacão Ida surgiu de uma depressão tropical no sul das Caraíbas, um lugar comum para o início de tempestades durante o pico da época de furacões. Na tarde de sábado, dia 28 de agosto, o Ida era um furacão de categoria 1, com ventos de 165 quilómetros por hora. Mas depois passou por Cuba e encontrou o que se chama de Corrente de Loop – água quente das Caraíbas que está em rotação no Golfo do México.

“Esta água excecionalmente quente criou uma autoestrada de água quente para a tempestade, alimentando-a com energia e permitindo que se transformasse numa tempestade de categoria 4”, diz Barry Keim.

Um estudo publicado em 2019 na revista Nature Communications encontrou evidências de que as alterações climáticas provavelmente tornam a rápida intensificação ainda mais comum. Nos últimos anos, alguns dos furacões mais graves resultaram desta rápida intensificação – o furacão Laura em 2020, o furacão Michael em 2018 e o furacão Harvey em 2017. Consoante o oceano passa por períodos de aquecimento natural que podem fornecer mais combustível para os furacões, o aumento na rápida intensificação ultrapassa as flutuações naturais, diz Kieran Bhatia, autor principal do estudo.

Ao contrário dos registos sobre chuva ou seca, os registos de tempestades que se intensificaram rapidamente só remontam até há cerca de 40 anos, diz Kieran. Mas os cientistas estão a tentar perceber este fenómeno com urgência e a forma como as alterações climáticas o afetam.

“A rápida intensificação é um fenómeno que transforma uma tempestade, que pode ser prevista com cinco ou seis dias de antecedência, num desastre natural imprevisível.”

Perante uma tempestade tão repentina, o estado do Louisiana não conseguiu precaver-se a tempo. Nova Orleães não teve tempo para implementar uma evacuação obrigatória. Embora os meteorologistas consigam prever onde e quando é que uma tempestade vai chegar, prever a sua intensidade é um desafio, e a rápida intensificação torna tudo mais difícil.

No futuro, os cientistas não esperam ver um aumento no número de furacões, mas esperam furacões mais poderosos. Ao longo do século XX, as temperaturas dos oceanos aumentaram constantemente, não só à superfície, mas também a grandes profundidades. Os furacões que outrora eram contidos por águas oceânicas mais frias abaixo da superfície conseguem agora aceder a um vasto suplemento de água quente que é usado como combustível.

“Os furacões serão provavelmente mais fortes, o que significa que podemos vir a ter mais tempestades nas principais classes de furacões – categoria 3, 4 ou 5”, diz Barry.

Tempestades lentas e chuvosas

Embora o futuro exato da rápida intensificação ainda esteja a ser estudado, os cientistas podem afirmar com segurança que as temperaturas mais elevadas vão tornar os furacões mais chuvosos e mais lentos: por cada grau Celsius de aquecimento, a atmosfera pode reter mais 7% de humidade – ou seja, mais chuva – e como os polos estão a aquecer mais depressa do que os trópicos, espera-se um enfraquecimento nos ventos que movem os furacões.

Conforme o furacão Ida atingia a costa, o seu avanço diminuiu para cerca de 16 quilómetros por hora – não é a tempestade mais lenta dos últimos anos, mas é lenta o suficiente para expor Nova Orleães a quase 40 centímetros de chuva e ventos fortes durante mais tempo. Comparativamente, o furacão Laura do ano passado moveu-se sobre o sudeste do Louisiana a 32 quilómetros por hora.

Para além disso, a topografia do Louisiana também desempenhou um papel no movimento lento do furacão Ida. As tempestades dependem da água quente do oceano como combustível e, quando o furacão atingiu o Porto de Fourchon, os pântanos e brejos continuaram a fornecer energia e a alimentar a tempestade. Estes mesmos pântanos, contudo, também ajudam a absorver um dos impactos mais mortais dos furacões – as paredes de água que vêm do mar. O furacão Ida estava previsto produzir ondas de até cinco metros, mas os relatórios preliminares indicam que as ondas atingiram metade destes valores. Os meteorologistas alertam intencionalmente sobre os piores cenários para encorajar as pessoas em perigo a sair do local.

Enquanto o furacão Ida se arrastava sobre terra a um ritmo mais lento, despejou chuva suficiente para provocar o derrubamento de diques em Plaquemines Parrish e inundações nas áreas baixas a sul de Nova Orleães. Parte desta inundação foi provocada por ondas grandes o suficiente para inundar cidades costeiras. E como o Louisiana está a perder os seus pântanos a uma velocidade de um campo de futebol por hora, também perde cada vez mais a proteção contra as marés de tempestade.

Dado que as alterações climáticas tornam as tempestades mais extremas, isto significa que as comunidades costeiras terão de se adaptar a um clima mais perigoso.

“A conclusão é a de que devemos confiar nos planos, quer sejam planos de evacuação, infraestrutura ou design, mas esses planos não se baseiam no que eu chamaria novo normal – ou seja, as alterações climáticas alteraram a frequência e intensidade de eventos extremos – portanto, está na hora de os atualizarmos”, diz Daniel Horton, da Universidade Northwestern.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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