Finalmente, o fim da gasolina com chumbo

Após décadas de pressão internacional por parte de um grupo da ONU, a gasolina com chumbo já não é produzida.

Por Ingrid Lobet
Publicado 3/09/2021, 10:56
 gasolina com chumbo

A Argélia juntou-se ao resto do mundo na proibição da venda de gasolina com chumbo.

Fotografia de Oliver Soulas, laif/Redux

O último combustível com chumbo desapareceu finalmente dos postos de gasolina. O último país do mundo que o vendia era a Argélia.

“É um grande dia”, diz Jane Akumu, diretora do programa africano de mobilidade sustentável do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).

Jane faz parte de um quadro de especialistas em transporte internacional e saúde infantil que se concentraram durante décadas na questão do chumbo nos combustíveis e tintas.

Nos últimos 19 anos, os esforços individuais de cada país para erradicar o combustível com chumbo foram geridos pela Partnership for Clean Fuels and Vehicles, uma associação de 73 grupos industriais, governos, organizações não governamentais e outras agências sob a alçada do PNUMA. Porém, porque é que isto demorou tanto tempo se já se sabia há mais de um século que o chumbo era um perigo para a saúde?

As empresas começaram a criar aditivos de chumbo em 1921 para corrigir problemas nos motores que os poderiam danificar e desperdiçar gasolina. Os produtos com chumbo eram muito publicitados e populares, embora existissem alternativas mais limpas – à base de álcool, por exemplo.

Todo o chumbo que acabou nos depósitos de gasolina a nível global – três gramas por cada 3.7 litros – saiu pelos canos de escape sob a forma de partículas que permaneceram no ar antes de se estabelecerem nas superfícies. A gasolina revestiu o mundo com chumbo.

No início da década de 1970, os investigadores já tinham informações suficientes sobre os efeitos do chumbo na saúde, levando à criação da Agência de Proteção Ambiental dos EUA. O Japão foi o primeiro país a banir a gasolina com chumbo em 1980. Seguiram-se a Áustria, Canadá, Eslováquia, Dinamarca e Suécia. Nos Estados Unidos e na Alemanha, o abandono gradual dos combustíveis com chumbo aconteceu em 1996, há um quarto de século.

O acumular de dados científicos sobre efeitos adversos na saúde

As evidências sobre os efeitos adversos do chumbo continuaram a acumular-se após as proibições.

O chumbo tem impactos sobre quase todos os domínios fisiológicos do corpo humano, diz Amit Bhattacharya, professor de saúde ambiental na Universidade de Cincinnati. “Os sistemas motor, cognitivo, hepático, renal, visual, qualquer coisa em que possamos pensar pode ser destruído pelo chumbo.”

Mary Jean Brown, do corpo docente da Escola de Saúde Pública Harvard Chan, dá como exemplo o ato de ler e os dados crescentes sobre os potenciais efeitos do chumbo nesse processo. “Quando estamos a tentar ler qualquer coisa, há vários processos que estão a tentar integrar-se. Temos de ver uma letra, que é um símbolo, colocá-la ao lado de outros símbolos, ligá-la a uma pronúncia, a um objeto ou atividade.”

As crianças expostas ao chumbo são afetadas nestes processos e o seu QI pode descer até 10 pontos.

“Para mim, foi sempre um problema de concentração”, disse em 2003 um jovem de 22 anos chamado Tony ao programa de rádio Living on Earth. “A escola foi difícil desde o primeiro ao 11º ano.” Tony foi uma das 300 pessoas de Cincinnati que participaram no estudo mais prolongado do mundo sobre pessoas expostas ao chumbo no útero.

Menos conhecidos do que os efeitos que o chumbo tem na aprendizagem ao nível cerebral são as formas como afeta o equilíbrio nas crianças e adultos. Tem sido este o foco do trabalho de Amit Battacharya. A sua equipa encontrou uma maneira de detetar deficiências induzidas pelo chumbo através de um teste rápido e não invasivo que pode ser administrado a partir dos cinco anos de idade. Quando são detetados precocemente, alguns problemas de equilíbrio e movimento podem ser tratados. Amit diz que há outra investigadora, chamada Kim Cecil, que também apresentou outros possíveis efeitos do chumbo no cérebro

“Estas pessoas não tinham os neurónios no cérebro que deviam permitir a gestão do equilíbrio. Tinham desaparecido. O chumbo eliminou-os”, diz Amit. “O chumbo consegue viajar através da barreira hematoencefálica, pode ir para qualquer lugar.”

Quanto mais os investigadores observam os efeitos do chumbo, mais descobrem sobre o seu alcance. Atualmente, Amit está a descobrir fragilidades ósseas precoces em mulheres, fragilidades que estão associadas à exposição ao chumbo. “Aos 30 anos de idade, os seus parâmetros de fragilidade são piores do que uma pessoa com 47 anos.”

As investigações feitas nos últimos 20 anos indicam que não há níveis seguros de chumbo no sangue das crianças.

Pressão internacional para eliminar os combustíveis com chumbo

No início dos anos 2000, 25 países da África subsaariana concordaram com a Declaração de Dakar, patrocinada pela ONU, que visava eliminar a gasolina com chumbo. Foi então que se formou a parceria PNUMA e o trabalho começou.

Luc Gnacadja, o ex-ministro do Ambiente do Benim, precisava apenas de uma nota informativa sobre os efeitos do chumbo na saúde para agir. “Os custos da inação, quando comprados com os benefícios de agirmos, e sabendo que a gasolina estava a custar 1.2% do nosso PIB (em potenciais lucros perdidos), ajudou muito na nossa decisão”, diz Luc. O ministro do Benim proibiu de imediato a gasolina com chumbo no país.

Mas 117 países ainda permitiam a sua utilização. O progresso foi rápido ao início, diz Rob de Jong, chefe da unidade de mobilidade sustentável do PNUMA. “Em 10 anos, quase todos os países o tinham banido. Restavam 10 países que nos levaram outros 10 anos para persuadir”, diz Rob.

A equipa do PNUMA também se deparou com desinformação. Em alguns casos, era simplesmente uma falta de familiaridade com o novo produto sem chumbo. Mas as pessoas também estavam a ouvir dizer que os seus carros mais antigos só funcionavam adequadamente com gasolina com chumbo. “Foram divulgados alguns mitos”, diz Inger Anderson, diretora executiva do PNUMA, embora Inger não identifique quem os difundiu.

Em 2010, a Innospec, fabricante líder de aditivos de chumbo para gasolina – e considerada a última empresa do género ainda em atividade – declarou-se culpada no tribunal do Reino Unido por subornar o governo indonésio e funcionários das refinarias num esforço para os fazer comprar aditivos. A ideia era dar às refinarias uma participação para incentivarem a procura dos consumidores por combustíveis com chumbo, diz Rob de Jong. A Innospec foi multada em 12.7 milhões de dólares. Em 2015, o antigo diretor da refinaria estatal indonésia Pertamina foi considerado culpado por receber subornos de um intermediário que agia em nome da Innospec.

Este não foi o único caso de pressão por parte indústria do chumbo. Don Ryan, então diretor executivo da Alliance for Healthy Homes, disse no documentário Living on Earth de 2003: “Ao longo do caminho, a indústria do chumbo contrariou as evidências científicas, ridicularizou a realidade dos efeitos do chumbo na saúde e, basicamente, alegou que este problema estava a ser completamente exagerado pelos cientistas ”

Mas Jane Akumu, Rob de Jong e o resto da parceria estavam a fazer progressos.

Uma distinção também ficou rapidamente evidente. Os países que tinham refinarias agiam de forma diferente dos países que importavam a sua gasolina refinada.

O Quénia, por exemplo, um dos maiores países de África, tinha refinarias. “Assim, em vez de irmos para o Quénia e dizer que eles tinham de investir na refinaria, fomos para os países vizinhos como o Ruanda, Burundi, Uganda, Tanzânia e dissemos poderiam muito bem comprar produtos sem chumbo. Era muito mais saudável”, diz Rob. Esses países foram ao Quénia e exigiram o fornecimento de combustíveis sem chumbo, senão iriam comprar combustível noutro lugar.

A equipa também usou pressão entre pares, diz Rob. Eles apresentaram mapas que mostravam quais eram os países que tinham banido o chumbo. “Os ministros perguntavam porque é que os seus países ainda estavam assinalados a vermelho no mapa enquanto todos os outros à sua volta estavam assinalados a azul.”

Jane também descobriu que era importante dar formação aos funcionários nos postos de abastecimento. “Eles tornaram-se nossos embaixadores”, diz Jane, porque explicavam aos clientes que o combustível sem chumbo não prejudicava os seus carros e que era melhor para eles.

A parceria da ONU também financiou exames ao sangue na Hungria, Sérvia, Gana e Quénia. Isto mostrou a rapidez com que os níveis de chumbo no sangue desciam assim que o chumbo era removido dos combustíveis. Também foram financiados  testes à qualidade do ar, e os resultados foram usados como pontos de persuasão.

Os dados eram absolutamente claros. Os níveis de chumbo no sangue desciam assim que o chumbo era removido do combustível.

“Em 1986, o nível médio de chumbo no sangue das crianças nos Estados Unidos era provavelmente de 8. Agora é de 0.9 [μg por decilitro]”, diz Mary Jean Brown, que trabalha há quase 40 anos em questões relacionadas com o chumbo.

Em 2016, só a Argélia, o Iémen e o Iraque é que ainda usavam gasolina com chumbo.

Finalmente, a refinaria argelina esgotou a sua produção de chumbo no mês passado. O PNUMA estima que isto vai evitar 1.2 milhões de mortes prematuras; os custos de saúde evitados e o potencial humano recuperado podem valer 2.4 mil milhões de dólares por ano.

Para Jane Akumu, os desafios ainda não terminaram. O objetivo seguinte é remover o enxofre do gasóleo e, com isso, eliminar um grande risco global de cancro do pulmão devido ao material particulado do gasóleo.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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