Fumo de incêndios florestais associado a taxas mais elevadas de morte por COVID-19

Um novo estudo descobriu que os incêndios florestais de 2020 nos EUA podem ter provocado mais de 19.000 casos de COVID-19 e 700 mortes.

Publicado 1/09/2021, 11:36
fogo-fumo-covid

O fumo dos incêndios florestais contém um tipo perigoso de poluição chamado material particulado que pode tornar algumas pessoas mais vulneráveis à COVID-19. Nesta fotografia, um bombeiro monitoriza a enorme pluma do Incêndio Apple em Cherry Valley, na Califórnia.

Fotografia de Gina Ferazzi, Los Angeles Times/Getty Images

O fumo dos incêndios florestais que no ano passado fustigaram a Califórnia, Oregon e Washington contribuiu para um aumento significativo nos casos e mortes por COVID-19 nestes estados norte-americanos, de acordo com um novo estudo.

 “Os incêndios florestais exacerbaram substancialmente a pandemia”, diz Francesca Dominici, bioestatística de Harvard e autora do novo estudo publicado na Science Advances. Sem o fumo dos incêndios, podiam ter havido menos 19.742 casos e 748 mortes por COVID-19, descobriu o estudo.

O fumo dos incêndios florestais contém milhares de compostos diferentes, mas um dos mais prevalentes é o material particulado que mede 2.5 micrómetros de diâmetro – ou PM2.5. Esta ameaça à saúde está bem estabelecida e o PM2.5 é monitorizado de perto pela Agência de Proteção Ambiental (EPA) dos EUA, existindo dados suficientes para avaliar o seu impacto na população.

Embora as emissões de PM2.5 do trânsito automóvel e da indústria tenham sido reduzidas nos últimos anos nos EUA, o fumo dos incêndios florestais tem-se tornado numa importante fonte de emissões destas partículas. Uma investigação publicada recentemente mostra que, durante um incêndio florestal, o fumo pode ser responsável por quase metade da poluição particulada no oeste dos EUA e por 25% dos níveis nacionais, uma vez que circula por todo o país.

Os cientistas ainda estão a tentar perceber até que ponto os incêndios florestais podem ameaçar a saúde humana, mas os estudos preliminares sugerem que o fumo pode ser mais tóxico do que se pensava.

Ainda não se sabe de que forma o fumo dos incêndios deste ano na Califórnia, no noroeste do Pacífico e no Canadá pode afetar as taxas de casos de COVID-19, já que a variante Delta, que é mais letal e contagiosa, leva ao ressurgimento da pandemia. Embora os incêndios florestais de 2020 tenham batido recordes, este ano o Incêndio Dixie – o segundo maior incêndio de que há registo na Califórnia – já queimou mais de 200 milhões de hectares. A Turquia e a Grécia também estão a enfrentar incêndios de dimensões históricas.

“A inalação de PM2.5 está a comprometer a nossa capacidade de combater o vírus”, diz Francesca. “Neste momento, o que é realmente assustador é que a variante Delta é ainda mais contagiosa. As pessoas que não foram vacinadas são muito suscetíveis [à COVID-19].”

Os perigos do PM2.5

Quando o PM2.5 entra no nosso corpo, provoca problemas de duas formas.

Em primeiro lugar, diz Sarah Henderson, diretora científica de serviços de saúde ambiental do Centro de Controlo de Doenças da Colúmbia Britânica, “este material entope o nosso sistema respiratório superior”.

Tal como as pernas de uma lagarta, determinadas células no nosso corpo têm pequenas pilosidades que estão constantemente a empurrar os invasores para fora através do muco. “É por isso que precisamos de assoar o nariz”, diz Sarah.

“O PM2.5 pode inibir este processo de expulsão porque destrói e bloqueia algumas destas células, facilitando a entrada do vírus.”

Em segundo lugar, diz Sarah, o fumo dos incêndios distrai o nosso sistema imunitário.

Ao contrário de alguns pedaços maiores de matéria particulada, o PM2.5 é pequeno o suficiente para penetrar profundamente nos nossos pulmões, despoletando um ataque imunitário por parte do corpo. Com o sistema imunitário ocupado, o corpo fica vulnerável e o vírus que provoca a COVID-19 pode ter mais probabilidades de gerar uma infeção.

Ao nível individual, a melhor forma de nos protegemos é através da vacinação, do uso de máscaras que ofereçam proteção contra o vírus e PM2.5, utilização de filtros de ar em casa ou sair da região quando houver demasiada poluição devido ao fumo.

Seguir o fumo

Para o novo estudo, Francesca e os seus colegas recolheram dados de 92 condados na Califórnia, Oregon e Washington, onde se verificou a maioria dos incêndios no ano passado. Como a COVID-19 pode demorar semanas a emergir depois de um indivíduo estar exposto ao vírus, o estudo analisou casos positivos até 28 dias após a exposição ao fumo dos incêndios. Mais de metade dos condados – 52 – teve um aumento na incidência de COVID-19.

Em todos os condados estudados, o PM2.5 dos incêndios florestais foi associado a um aumento de 11% no número de casos de COVID-19 e a uma subida de 8% no número de mortes. Contudo, este aumento variou bastante por condado. Em Butte, na Califórnia, e em Whitman, em Washington, por exemplo, os casos aumentaram 17 e 18 por cento, respetivamente. (Veja uma análise individual por condado.)

Para determinar quais eram os tipos de partículas provenientes do fumo dos incêndios florestais e quais vinham de outras fontes de poluição, como o trânsito automóvel, Francesca colaborou com Loretta Mickley, de Harvard, que estuda a poluição do ar e as alterações climáticas.

Com dados de satélite, Loretta e a sua equipa conseguiram determinar de onde emergiam as nuvens de fumo dos incêndios florestais e para onde se dirigiam. Os monitores de qualidade do ar da EPA informaram a equipa sobre a forma como as plumas de fumo estavam a aumentar a poluição ao nível do solo.

Basicamente, diz Loretta, os satélites diziam para onde olhar, enquanto que os sensores diziam o que estava em cada região.

Com os dados de saúde disponíveis publicamente e estimando quais seriam os níveis de PM2.5 sem os incêndios florestais, os investigadores conseguiram modelar a percentagem provável do aumento de casos de COVID-19. A equipa levou em consideração outros fatores que podiam influenciar as taxas de casos: a temperatura, a prevalência local da doença antes do incêndio, a população de um condado e a mobilidade da população – com dados recolhidos através do Facebook.

Francesca diz que a equipa não pode afirmar sem margem para dúvidas de que qualquer caso de COVID-19 em particular tenha resultado da exposição ao fumo dos incêndios florestais. Havia outras medidas potencialmente influentes que o estudo não examinou: a disposição de uma pessoa para usar máscara; uma reunião de família com um indivíduo infetado; estatuto socioeconómico; condições de saúde preexistentes de um indivíduo infetado; ou se outras fontes históricas de PM2.5 podiam predispor uma comunidade a riscos de saúde, algo que aumentaria o seu risco de infeção. Tudo isto pode ser responsável por alguns casos, mas no geral, diz Francesca, isso não nega a forte associação que os investigadores encontraram entre os picos de poluição no ar e as taxas subsequentes de casos de COVID-19.

Há outra investigação que suporta esta ligação. Em Reno, no Nevada, a exposição ao fumo de um incêndio florestal em 2020 levou a um aumento de 18% nos casos de COVID-19, de acordo com um estudo feito por Daniel Kiser, cientista de dados do Desert Research Institute. “Os níveis de poluição no ar que vemos durante um incêndio florestal são astronómicos”, diz Daniel.

Francesca diz que os números no seu estudo provavelmente estão subestimados porque a sua equipa analisou apenas os condados onde os incêndios florestais ocorreram – mas o fumo pode viajar centenas de quilómetros.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registrar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2017 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados